domingo, 15 de julho de 2012


O SAGRADO E O PROFANO NA RELIGIÃO


EDRIANO CRUZ 

          Tudo pode ser sagrado. O objeto do sagrado é determinado pela religião, em que o homem nada tem de sagrado ocupando um lugar inferior ao sagrado. Assim, quando existe uma relação de inferioridade, não significa que o que está em lugar superior seja uma coisa sagrada em relação ao que ocupa uma posição inferior. No profano existe uma estratificação, que varia consoante a dignidade e o poder do homem.
A relação existente entre o sagrado e o profano é uma heterogeneidade absoluta. Nada há de comum entre eles, são duas partes completamente opostas uma da outra, embora por outro lado se verifique uma dualidade entre elas; dualidade essa que permite a passagem de um campo para o outro, ou seja, uma passagem do profano para o sagrado, mudança essa que implica uma modificação de ordem moral. Além de existir uma relação de oposição entre o sagrado e o profano, existe também uma relação de rivalidade. Não se pode pertencer aos dois campos em simultâneo, ou se pertence ao sagrado ou ao profano.
A maneira como um sujeito concebe o sagrado parece determinar a posição que ele vai ocupar no mundo e também a sua maneira de hierarquizar suas experiências religiosas e mitológicas. A vinculação com o sagrado estabelecida pelo indivíduo não é necessariamente aquela que ele conscientemente afirma ter através da sua relação com uma dada religião ou mesmo na ausência dela.
O sagrado é o traço essencial dos fenômenos religiosos, trata-se de um sentido que se define pela oposição ao profano. Sagrado e profano falariam de dois mundos contrários, em torno dos quais gravita a vida religiosa. As coisas e seres sagrados protegem o indivíduo e a comunidade das interdições, enquanto os seres e coisas profanas seriam os elementos submetidos às interdições, e só entrariam em contato com os primeiros através de ritos prescritos pela crença que sustenta essa divisão do mundo. Há uma diferença em relação do sentimento religioso com o do sentimento do sagrado. No sentimento religioso encontramos, freqüentemente, um sentimento de reverência, de solenidade diante do Outro Absoluto. Na vivência do sagrado, o indivíduo pressente a Presença do Divino, e vive uma transformação em seu ser.
            Essas questões são essenciais, pois a perda do sentido de sacralidade leva o homem à perda de aspectos fundamentais ao devir de seu ser. Trata-se de uma situação que, em seu extremo, pode levar a coisificação da pessoa humana, à perda da criatividade primária. O processo de cura, na situação clínica, busca o estabelecimento do sentido do sagrado mediante a recuperação da capacidade criativa. A partir dela, o indivíduo transfigura o mundo pela realidade pessoal e subjetiva.

 O QUE É RELIGIÃO?

A palavra religião provém do verbo latino religare (ligar, juntar, unir), o que acentua uma das vertentes fundamentais da religião: a união entre o homem e o divino. A religião pressupõe a existência de duas dimensões do real: a profana e a sagrada.
A primeira dimensão corresponde ao mundo em que vivemos ( terreno, material), e que é encarada como carecendo de sentido, de explicação. Porque é que existe o mundo e não o nada? Esta é umas das perguntas que permanece sem resposta; A segunda assenta na crença que existe um outro mundo povoado de seres imateriais que possuem a explicação que o nosso mundo e as nossas existências carecem. É por esta razão que estes seres tendem a ser considerados perfeitos e superiores aos humanos.
 Cada religião não é apenas uma comunidade de crentes que se reúnem para prestar o culto às mesmas divindades, mas é, sobretudo um conjunto de "conhecimentos" que são assumidos pelos seus fiéis como verdadeiros, e que lhes permitem, por exemplo, saber qual o sentido do mundo, como se processa a relação entre o homem e o sagrado, a forma como este se manifesta no mundo e como podemos interpretar os seus sinais. A religião tem pois o seu fundamento na noção de sagrado, isto é, naquilo que é de uma natureza sobrenatural, misteriosa que inspira temor e respeito.
Toda religião tem representações que exprimem a natureza das coisas sagradas e profanas, bem como a relação entre elas. Os ritos são regras de como o homem se deverá comportar em relação ao sagrado.Com isso ela torna-se um sistema de crenças, organizado e coeso. Verifica-se, assim, que a religião não assenta apenas numa idéia base, mas num grupo homogêneo, onde á volta dele giram grupos de crenças; na religião encontra-se sempre uma multiplicidade de coisas sagradas. Com esta multiplicidade constata-se que não existe apenas um só culto, mas sim vários cultos, sendo estes cultos autônomos.
Mas nem sempre esses cultos (fenômenos religiosos) aparecem ligados a uma religião, por vezes estes fenômenos são autônomos, mas essa autonomia origina uma desintegração desse fenômeno. Nestes casos não existe um culto, nos fenômenos autônomos verifica-se uma cerimônia religiosa. Além da dualidade existente entre o sagrado e o profano, há que referir dois conceitos bem distintos: a magia e a religião: Ambas são constituídas por crenças e ritos, possuem mitos e dogmas (verdade de fé). Os dois têm cerimônias, sacrifícios, orações, cantos e danças; por vezes até mesmo os seres religiosos invocados são os mesmos. Apesar de existir tanta coisa em comum é impossível juntar estes dois conceitos. A religião rejeita a magia, e a magia opõe-se á religião.

      CRENÇAS RELIGIOSAS

Todas as religiões apresentam-se como um sistema de crenças e ritos. As crenças são representações sobre o sagrado elaborado de forma mais ou menos complexa, podendo ou não ser escritas. Estas crenças definem uma concepção particular do sagrado, os seus poderes e virtudes.
Cada religião privilegia certas formas de contato com o sagrado em detrimento de outras. Apresenta também uma dada explicação para o sentido do mundo e a existência do próprio homem (vida, morte, etc), em geral codificada sobre a forma de um conjunto de crenças. Entre as crenças associadas ao aparecimento de manifestações religiosas podemos destacar as seguintes:
A crença na existência de forças superiores ao Homem, cujo poder este estaria submetido. Estes seres que manifestam a sua vontade e desígnios no mundo em que vivemos, são assumidos como absolutos, incondicionados, divinos, transcendentes, não compostos, oniscientes, etc. Sozinhos ou em grupo constituem uma outra dimensão da realidade, sendo freqüentemente considerada como a única que é verdadeira. O mundo em que vivemos é encarado como uma mera ilusão, sonho.
A crença numa ordem e justiça sobre-humana. Esta crença permite ao Homem suportar não apenas o sofrimento e as injustiças que experimenta no seu quotidiano, mas também esperar uma espécie de recompensa após a morte do seu corpo.

RITOS RELIGIOSOS

Os ritos são um conjunto de práticas simbólicas através das quais o Homem entra em contato com o sagrado, transcendendo a sua condição profana. Estes ritos devem ser executados com grande rigor, caso contrário poderão advir funestas conseqüências.
Os ritos evocam quase sempre acontecimentos sobrenaturais ligados à origem do mundo ou da própria religião. A sua repetição é vivida como uma atualização desses acontecimentos memoráveis. Repetem-se os mesmos gestos ou pronunciam-se as mesmas palavras que em tempos imemoriais uma personagem divina realizou.
Os rituais são testemunhos públicos das crenças de uma dada comunidade, que ao praticá-los não apenas reforça a sua unidade, também os sentimentos de pertença dos seus membros É em torno destas crenças e ritos que se estruturam as diversas comunidades de fiéis, acabando por diferenciá-las entre si em termos culturais e sociais.

RELIGIÃO E SOCIEDADE

As principais religiões estão profundamente ligadas a sociedades onde estão implantadas, os seus percursos históricos confundem-se. Em algumas sociedades, a religião assume tais proporções que o Estado se tornou a expressão direta da própria religião dominante, como acontece no Irã. Os chefes religiosos são também chefes políticos (Estado teocrático). Apesar da crescente dessacralização, a influência social da religião continua sendo enorme. Os acontecimentos religiosos são freqüentemente assumidos como acontecimentos sociais. . Dois exemplos: - Ao longo do ano podemos observar como os momentos de descanso ou de festa estão ligados a dias que assinalam acontecimentos de natureza religiosa (Domingo, Natal, Carnaval, Páscoa e outros dias feriados). - Os momentos marcantes da vida das pessoas, como o nascimento, o batismo, o casamento ou a morte, continuam sendo assinalados por cerimônias religiosas. A moral é outro aspecto revelador da influência social da religião, nomeadamente como um poderoso meio de controle social através da difusão das suas normas de conduta moral.

RELIGIOSIDADE POPULAR

As grandes religiões são quase sempre percorridas por duas correntes religiosas: a "oficial" e a "popular". A "oficial está ligada à elite dos sacerdotes. Caracteriza-se por uma elevada racionalização das crenças e ritos religiosos, transformando-as num corpo doutrinal muito intelectualizado, depurado de outras tradições religiosas. Apresenta-se quase sempre numa linguagem abstrata e universal. O divino apresenta-se enquadrado numa estrutura teórica muito complexa. O comum dos crentes raramente compreende ou sente a religião desta forma. A corrente” popular “está ligada à forma como a maioria das pessoas encara a religião: a emoção sobrepõe-se à razão. O vivido ao pensado. O desvio da norma oficial é por vezes total. Caracteriza-se por uma visão espontânea, emotiva, sincrética e concreta da religião. Esta religiosidade popular é herdeira de tradições ancestrais,  onde encontra-se crenças e ritos de antigas religiões já extintas.

..RELIGIÃO, CIÊNCIA E ATEÍSMO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO.

As sociedades ocidentais sofreram nos últimos dois séculos, um enorme processo de intensa secularização. Entre as causas apontadas para explicar esta erosão do sagrado, apontam-se as seguintes:
Um sistema econômico (capitalismo) que privilegia os valores materiais em detrimento dos valores espirituais..
A ciência que progressivamente ocupou o lugar da religião como fonte de verdade. O cientismo transformou-se numa nova religião que se assume como capaz responder a todas as questões.
A crítica de filósofos como K. Marx, F. Nietzsche, S. Freud ou J. -P. Sartre que minaram os fundamentos da própria religião, em particular do Cristianismo, mostrando que a mesma não passa de uma ilusão. Muitos regimes políticos de matriz marxista-leninista difundiram uma visão materialista da realidade e combateram ativamente a religião, identificada com o obscurantismo. Devido a estas e outras causas, as religiões tradicionais, como o cristianismo, sofreram diminuição dos seus crentes e viram também diminuir a sua influência na sociedade.
Apesar disto o fenômeno religioso não desapareceu, defende-se até que o mesmo terá recrudescido nos últimos tempos. O homem moderno, mesmo com as avançadas tecnologias, busca nas religiões algo que dê sentido a sua existência.
 
COMENTÁRIO PESSOAL
A religião pode ser definida como um conjunto de crenças e práticas (ritos), relativos a certos sentimentos manifestados perante o divino por uma comunidade de fiéis, que agem segundo uma lei divina para poderem ser salvos, libertos ou atingirem a perfeição. Cada religião defende um conjunto de valores cuja validade pretende ser universal. As manifestações religiosas são tão antigas e está de tal modo difundidas que nos é difícil imaginar o Homem sem Religião.
Os homens sempre esperam das religiões respostas para os enigmas com que se deparam: O que é homem? Qual o sentido da sua existência? Qual a origem e o fim do sofrimento? Como podemos atingir a felicidade? O que é a morte? Existe uma justiça sobre-humana que castigue os que fizeram outros sofrer e recompense as suas vítimas? Não encontrando respostas na ciência para estas questões, buscam-nas com freqüência na religião. Mas o sentimento religioso emerge também a partir da própria consciência que o Homem é um ser finito, limitado, imperfeito, que se descobre num mundo que não criou e cujo sentido desconhece.
A experiência religiosa está igualmente associada a vivências particulares, como os fenômenos sobrenaturais, que despertam os homens para outras dimensões da realidade. Cada experiência religiosa apresenta-se como uma ligação profunda e envolvente do homem com o sagrado, na qual se anula na sua individualidade. Sempre que o homem entra em contato com o sagrado (o divino, o transcendente) estamos perante um tipo particular de fenomenologia religiosa.
Todas as religiões assentam no pressuposto de que existem duas dimensões do real: a sagrada e a profana. A sagrada define-se por oposição à profana, e corresponde a uma realidade que é assumida como perfeita, divina e dotada de poderes superiores aos humanos, suscitando no homem respeito, medo e reverência. A profana identifica-se com o mundo em que vivemos, sendo apontada como banal e vista inferior em relação à sagrada (Profano, do latim pro (diante de) e fanum (espaço sagrado). Em cada religião o transcendente expressa-se sob diversas formas e assume diversas figuras: Deus, deuses, anjos, espíritos, etc.
É necessário chamar atenção que o que chamamos de “religião” tem se manifestado, no decorrer da história e em todas as partes do mundo, em diversificações e diferenças múltiplas. São vários os significados, definições e funções a que se tem atribuído a este termo, que vai desde crenças dogmáticas a experiências místicas; de mitologia a fundamentalismo; de idéias mantidas com firmeza a fé apaixonada.
Ao longo da história, sempre se tem encontrado objetos ou seres considerados sagrados ao lado daqueles considerados profanos, uma vez que, o que converte um objeto em sagrado é a revelação ou incorporação deste de algo distinto dele mesmo; é a nova dimensão de sacralidade que adquire no marco de qualquer religião. A dialética da sacralidade de um objeto supõe uma separação clara deste em relação aos demais objetos que lhe rodeiam, em razão de uma singularização mais ou menos manifestada.
Desta maneira, quando algo se manifesta sagrado passa a ser visto “completamente diferente” de uma realidade que não pertence ao “nosso mundo”, materializado em objetos que formam parte integrante do nosso mundo natural, profano, como por exemplo, uma pedra sagrada ou uma árvore sagrada. Estas, em verdade, não são sagradas em si mesmas; sua sacralização se define pelo fato de conter e ao mesmo tempo “mostrar” algo que já não se constitui apenas no que lhe caracteriza essencialmente como pedra ou árvore, mas pela sacralidade  que lhes foi incorporada. Ao manifestar o sagrado, um objeto qualquer se converte em algo diferente, sem, contudo deixar de ser ele mesmo pelo fato de continuar participando do meio cósmico circundante. Uma pedra sagrada segue sendo uma pedra: Nada a distingue das demais a não ser a relação que é estabelecida com àquela pedra. A pedra de Caaba nunca deixará de ser  uma pedra.
Na verdade, para um homem religioso, o que caracteriza a que um objeto ou algo passe a pertencer à esfera do sagrado é o fato de haver sido criado por Deus. Assim, tudo que os mitos referem a atividade criadora, pertence a esfera do sagrado, e, por conseguinte, participa do Ser. Pelo contrário, tudo o que os homens fazem por sua própria iniciativa, e que não tem um referencial mítico, pertence a esfera do profano e é portanto uma atividade vã e ilusória, na verdade irreal. Podemos  dizer que, quanto mais religioso é o homem, maior é o acervo de modelos exemplares que dispõe para referenciar seus modos de conduta e suas ações.
Todo ser humano tem a necessidade de acreditar em algo que esteja acima da sua limitação. E é essa crença que lhe servirá de base para as suas aspirações e que direcionará a sua caminhada em direção a felicidade. Nesta busca, ele faz a distinção entre o Sagrado e o profano de acordo com a sua crença que ele vive em sua religião. Nesta experiência de busca, o homem descobre que existe um Deus que foi e continua sendo o protagonista da sua existência, da sua caminhada e da sua história. E ao buscar estar mais perto de Deus, ele descobre a felicidade, pois Deus é  a eterna felicidade e a realização plena do ser humano.



MEDITAÇÕES CARTESIANAS  

Primeira meditação:

Das Coisas que Podem Colocar em Dúvida

Descartes apresenta em sua primeira meditação, não um estabelecimento de verdades, mas, dois processos de dúvidas. Ou seja, deixando seus conceitos, que até então tinha aprendido, e recomeçando. O primeiro é a dúvida natural, que se compõe de argumentos como, o erro dos sentidos, e os dos sonhos. Vemos o primeiro em seus escritos quando ele diz: “Desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opiniões como verdadeiras [...] não podia ser senão duvidosa e incerto”. Para ele a ciência nada mais é do que, além de não possuir verdades em suas afirmações, frágil, e necessita de firmeza.
            Atingindo uma idade madura, e gozando de uma tranqüilidade, Descarte resolve por em ação seu projeto de desfazer suas opiniões, de forma generalizada. Ou seja, onde houver dúvida, esta será rejeitada, pois, uma vez incerta, é falsa.
            Assim, ele não precisaria investigar uma por vez, mas, indo aos princípios, de todos os seus conceitos, apreendidos dos sentidos, e também por meio deles. Não obstante, referindo-se as coisas insensíveis,  existem algumas que não pode haver dúvidas. A princípio parece uma contradição Cartesiana, mas, ele apresenta formas e conceitos concretos em que há verdades indiscutíveis.
             O segundo grau da dúvida Cartesiana é o argumento dos sonhos. Ele defende a idéia de que não sabemos ao certo o que é real, pois, se quando estamos adormecidos, os sonhos parecem reais, como saberemos que, estando acordados, não somos pura ilusão, embora vejamos e sintamos nossos órgãos nitidamente? Todavia, os sonhos costumam criar ilusões até mesmo extravagantes, totalmente fora da realidade.

 Embora, seu argumento seja seguro, ele perde forças, quanto às razões chamadas “UNIVERSAIS” , ou seja, àquelas que estão excluídas da “natureza simples, indecomponíveis”, isto é, tudo que diz respeito às ciências exatas e outras que não há razões de dúvidas.
           
 Como ele mesmo relata: “Pois  quer eu esteja acordado ou dormindo, dois mais três formarão sempre o número cinco [...] e não parece possível  que verdades tão patentes possam ser suspeitas de alguma falsidade ou incerteza”.
Em relação a Deus, Descartes, não ignora sua existência, apenas não duvida de que tudo que vemos no universo seja diferente do que os nossos sentidos vêem, pois, sendo Ele  “Soberanamente bom”, talvez não permitisse tal decepção. Pois, sendo Deus um enganador, seria maligno, deixando de ser um “SER”, tornando-se um “NÂO SER”. Por este motivo é que Descartes  duvida de todas as coisas de forma universal, chegando até a duvidar desta figura chamada Deus; imaginando ele ser um “gênio maligno”; não havendo céu, terra, ou coisa que parece existir, apenas tudo é  ilusão. Assim sendo, Descartes prepara o espírito para a descoberta da verdade, que segundo ele, foi sufocada pelas trevas da ilusão.

Segunda meditação

         Da natureza do espírito humano:
e de como ele é mais frágil de conhecer do que o corpo

Ao dar início a segunda meditação, Descartes busca, por sua vez, reconstruir o saber humano, de forma madura e indubitável. Supondo, que todas as coisas nas quais ele ver são falsas, chega-se a conclusão que, nada que existe é verdadeiro. Sua meta agora é reproduzir novos conceitos a partir do seu início. A única coisa que Descartes tem por certo é que “EU SOU, EU EXISTO”, enquanto ser pensante. Pois, uma vez deixando de pensar, deixamos de existir. Aqui ele apresenta o valor do pensamento, pois, sem ele jamais seríamos humanos, ou melhor, existiríamos. Ele é a alma, a verdadeira essência do homem.

O espírito Cartesiano afirma que, mesmo que o “gênio maligno” o engane, em toda a sua tentativa de obter conhecimento verdadeiro, existe sempre a certeza do pensamento. Pois, sem o engano não  há o pensamento. Tal argumento defende a idéia de que, é necessário perceber o pensamento e a existência de forma unificada. Após esta intuição, “EU PENSO, EU EXISTO”, podemos extrair algumas verdades como, eu sou; que eu sou um ser pensante; e que é mais fácil conhecer o espírito do que o corpo, não obstante só temos acesso  da forma corpórea pelos sentidos. Embora a imaginação não dá conhecimento à natureza corpórea apresentadas, mas, o espírito, estando ele puro, é o único e capaz de fazê-lo.
 Segundo Descarte, nada se pode conhecer por meio dos sentidos, sem primeiro compreender pelo pensamento, único que pode conhecer a essência do objeto. Ao contrário, veríamos as coisas, como os animais.
 Ele usa do exemplo da cera de uma colméia de abelhas. sentimos o sabor do mel, seu cheiro de rosas; Vemos sua cor, mas não percebemos sua essência que é mutável  e não continua a mesma, após ser passada  pelo calor do fogo.
Assim, ele afirma que o pensamento é indispensável para o conhecimento da coisa, que, sendo analisada, confirma a verdade. Ou seja, o conhecimento da alma é o mais fácil das verdades científicas, pois este não nos engana. O difícil, diz ele, é destruir as velhas opiniões, ou senso comum, para  implantar esta verdade da ciência.





DESCARTES E O DISCURSO DO MÉTODO

Em seu livro, “discurso do método” Descartes decorre acerca de que a descoberta de sua ignorância acontecia ao passo que ele estudava, por isso, ele critica: a lógica dialética, pois, considera-a inútil para a obtenção de novas verdades; a matéria, considerando-a abstrata, e, por não possuir fins práticos; embora ele use da equação para sua criação, a geometria analítica determinando um ponto do espaço no plano cartesiano, aplicando, assim, o raciocínio matemático nas regras do seu método, pois, era preciso a razão para chegar-se à verdade universal.

Descartes buscou, por meio do avanço da ciência, desenvolver suas descobertas, apesar de existir alguns fragmentos da escolástica, ele esforçou-se para ultrapassá-la e chegar ao pragmatismo, ou seja, passar à frente deixando toda ciência aristotélica para trás.

Segundo o pensamento cartesiano todos os homens possuem a capacidade de usar de sua razão para perceber o que é ou não verdadeiro, por isso é que o distingue dos outros seres. Para ele, existem formas diversas de pensamentos, mas, isso não quer dizer que alguns possuam mais ou menos capacidade de raciocínio, sendo que o importante é saber aplicá-lo bem. Tais razões não vêm das formas do próprio ser humano, sim da sua essência, ou espírito.

Descartes afirma que a ciência tem um papel importante para a obtenção do conhecimento, não obstante, ele tenha como princípio de suas pesquisas a dúvida. Embora o estudo das línguas, história e outros sejam importantes, não se deve prendera-las, pois, se não houver um estudo de forma racional das coisas, corre-se o risco de ficar preso ao passado, caindo na ignorância, já que a história apenas na memória, enquanto o discurso da razão prepara o espírito para a verdade absoluta.

Após Descartes ter estudado os melhores livros e investigado raros exemplares, chegou a conclusão de que a experiência era apenas teórica  e precisava ser empírica, tendo a razão como base. Por esse motivo, ele apresenta no seu estilo pleno de construções e de demonstrações, quatro regras do método: primeiro jamais acolher algo como verdadeiro, a não ser que tenha evidência e não absorver juízos claros e distintos. Essa é a regra da evidencia, ou seja, não julgar algo como verdade, antes de um esclarecimento ou esforço mental. Algo da própria intuição refletida à luz da razão, fundamentada e justificada no ser enquanto racional e intuitivo.

A segunda é a que tem um objetivo matemático, isto é, dividir as dificuldades em quantas partes for possível para melhor resolvê-las, isso tem a ver com a “metodologia de análise”, evidência desarticuladora do complexo simples, à luz da intelectualidade excluir as dificuldades de compreensão, isto é, só considerar algo simples, após conhecê-lo parte por parte de forma clara e distinta. Assim, só saberá distinguir o verdadeiro do falso, usando a análise que segundo ele só chega-se a ela por meio da “defesa do método analítico”.

A terceira regra é conduzir os pensamentos com ordem, iniciando pelos mais simples aos mais complicados, dos mais fáceis de conhecer aos mais difíceis, ou seja, fazer uma síntese da realidade complexa, que foi decomposta em partes menores, criando assim, um raciocínio que se desenvolva do primeiro, ao segundo, não deixando de corresponder com a realidade. Para o ato de dedicação é necessário o processo do simples para o complexo.[1].

A síntese é importante, nesse caso para a reconstrução do composto, visto que, iluminado pelo pensamento transparente, ou seja, conhecimento do saber torna-se de algo novo, mesmo não sendo tal.

O quarto consiste em fazer enumerações e revisões completas, para que, de nenhum modo seja omitida, ou seja, não se precipitar diante de situações que causam erros. Por meio de regras simples, precisa-se ter uma consciência de que a análise está completa e a síntese está correta. Tudo isso após rigorosas pesquisas com clareza e distinção. Nota-se que os três últimos tem desenvolvimento a partir da primeira, isto é, chega a transparência de todas as evidências.

Descartes usou desses métodos para facilitar o desvelamento de certas questões, tais para facilitar usando a razão como instrumento para tirar as dúvidas e dirigir seu pensamento.

Como alguém que está construindo uma casa, mas que necessita de um local para seu alojamento enquanto a obra está em andamento, Descartes faz uma moral provisória, para não permanecer irresoluta em suas ações, composta de três máximas: a primeira consiste em “obedecer às leis e os costumes de seu país”, ou seja, para a segurança do bom propósito, já que o mundo não permanece estável, precisa-se seguir as opiniões dos mais sensatos e aperfeiçoar  seus juízos.

A segunda é ser firme e decidido em suas ações e não ir adiante nas opiniões duvidosas, ou, se assim dizer, falsas. Assim, pode-se decidir o que é verdadeiro ou não.

Descartes afirma que cada homem possui a noção inata do que é verdade. Deus dá essa noção, se, por intuição, tem-se certeza de uma coisa, ela é verdade. Nesse ponto, ele valoriza a intuição, ao lado da razão. A menor distância entre dois pontos é uma reta e não devemos ter remorsos de nossos atos. Ele pretendia, com isso, livrar de ter um espírito fraco e vacilante.

A terceira máxima moral é de primeiro vencer a si mesmo, logo após a fortuna, o destino. Primeiro modificar os desejos pessoais e não a ordem do mundo. Tudo o que Descartes diz ter realmente em seu poder são os seus pensamentos. Assim sendo, a vaidade do homem não o toma conta, e, ele não fia remoendo seus infortúnios, nem lamentando a falta de riqueza ou virtude.

Descartes discorre que a melhor ocupação é cultivar a razão. É o que melhor pode-se fazer, pois é impossível dominar o universo e o que não se pode atingir é inaceitável. Ele percorre durante anos pelo mundo, vivendo seus luxos desnecessários.





[1] REALI, Giovani. História da filosofia: São Paulo: Paulus, 1990.

1.12 Aristóteles: o ser e o devir


            Aristóteles retoma e dá continuidade à questão parmenidiana sobre a evidência originária e inegável do devir, o tornar a ser.

1.12.1 O significado da metafísica

            Aristóteles não usou o termo “metafísica”, mas o termo “filosofia primeira”, dentre outras expressões, referindo-se a ela como a filosofia originária que está na base de todo saber filosófico.
            Do significado de “meta” , como “depois”, como “supra”, existem duas teses. A primeira originada com Simplício e com os neoplatônicos, tem a metafísica como ciência das realidades separadas da matéria, acima das realidades físicas e como suprafísica. A segunda tese origina com Alexandre e com Asclépio, tem o significado de meta como relação de sucessão do nosso conhecimento: as coisas físicas que devem ser posteriores, são entendidas por nós anteriores, mas a metafísica por ser a ciência das coisas divinas é anterior. A metafísica vem depois da física porque trata de coisas superiores a ela.
            Essas considerações históricas são superadas ao observar que o estudo do ente enquanto ente é abstraído do antes e do depois, do supra e do sob.

1.12.2 A unidade da metafísica

            A ciência metafísica fundamenta-se como ciência unitária, a ciência que entende a posição do todo do ser, sem o qual não se tem metafísica. Esta totalidade é encontrada nos vários significados do ser como: as categorias, substância e acidentes, ato e potência, verdadeiro e falso.
            É preciso encontrar o centro unificante tanto do ser múltiplo quanto da metafísica, este centro é a substância (ousía), assim a metafísica é chamada como ciência da substância. O que garante a unidade da substância é o princípio da não-contradição, protegendo o ser (substância), o pensar (significar) e o dizer (exprimir), mantendo a estabilidade do ser de cada um desses. No entanto, esta estabilidade é ameaçada pelo devir de certas substâncias que formam o conteúdo de nossa experiência.
            Com a questão sobre a correlação entre a substância e deviente e a estabilidade da substância, protegida pelo princípio de não-contradição é que atingimos o confronto com a posição parmenidiana. Alguns filósofos antigos julgaram que o ser é uno e imóvel, mas que existe uma pluralidade de coisas.
            A tarefa proposta é a conciliação entre razão e experiência. A formulação do princípio de não-contradição dada por Aristóteles é tríplice: a) É impossível que ao mesmo tempo uma coisa pertença e não pertença a uma mesma coisa; b) É impossível crer que uma mesma coisa seja e não seja; c) É impossível, ao mesmo tempo, que a mesma pessoa aceite que uma mesma coisa exista e que não exista.
            O princípio tem caráter normativo universal, entretanto, alguns filósofos o nega seja diretamente ou indiretamente. O seu valor determinante não se pode impor por meio de uma demonstração, porque toda maneira de demonstrar supõe um princípio, e assim vai até ao infinito, não havendo de fato demonstração. O princípio tem, pois, um valor absoluto, de modo que, quem o nega o afirma, na própria negação está a sua afirmação, e assim ele torna-se invencível. O resultado de uma refutação sobre ele reduz-se ao silêncio e ao negá-lo significa reduzir-se a não falar e, dessa maneira, não falando e nem pensando é preciso que cesse de ser homem. Por conseqüência, a absoluta validade do princípio concede a absoluta unidade da linguagem e do pensamento e a absoluta unidade do dizer, do pensar e do ser; consistindo o significado lingüístico, lógico e ontológico do princípio. Disso temos duas deduções: 1) a negação do princípio é a negação da verdade: ele é fundamento da verdade; 2) cada posição doutrinal, cada filosofia, mostra-se verdadeira à medida que consegue confutar as posições contraditórias.

1.12.4 O devir

            O devir é problema, e assim se torna em relação à estabilidade da substância e à absoluta validade do princípio de não-contradição. O devir ocorre entre dois contrários, é a passagem de um contrário no seu contrário, é como se o é deriva do não é, é o mesmo identificar o não ser com o ser. Um ente é deviente, e o devir é o processo de um ente ou em um ente. Deste processo nota-se:
a) o ente deviente é idêntico na passagem do seu ser ao não ser, como do ser não-branco ao seu ser branco. Aristóteles o chama de substrato;
b) o devir é uma passagem do substrato idêntico de um estado de privação;
c) o estado de privação, enquanto é um estado, não é nada, mas uma realidade, é o ser em potência, a respeito do qual o estado de forma correspondente é um ser em ato;
d) o devir não é uma passagem do não-ser absoluto, mas de um certo qual não-ser, que é tal referente à forma ou ao ato, ao qual termina;
e) para a inteligibilidade do devir se exigem três elementos: o substrato, a privação, potência e a forma, ato.
f) o devir parece compatível com a estabilidade da substância e com a exigência do princípio de não-contradição.
            A passagem do substrato do seu ser em estado de privação ou em potência ao ser em estado de forma ou de ato é uma identificação que ocorre no substrato. O devir é uma passagem do não ser ao ser, um acréscimo do nada ao qualquer coisa. A suposição da permanência do substrato não é suficiente a dissipar no devir a contradição entre ser e nada, a potencialidade não só não é o ato e enquanto não é ato, não pode torna-se por si o ato que é em potência. Nada passa da potência ao ato senão em virtude de um ente em ato.Enfim, o devir é incontraditório só admitindo o Ato absolutamente imóvel: o mutável é só porque é o Imutável: Deus.

1.12.5 Três anotações conclusivas

            A metafísica aristotélica na sua unidade sistemática se apresenta como onto-teo-logia: onto:enquanto é ciência do ente enquanto ente; teo, na afirmação do Ato Puro, que é Deus; logia,enquanto construção da ciência metafísica é norteada pelo princípio de não-contradição.
            O Ato Puro é o Ser na sua plenitude de ser, que preenche a lacuna do não-ser mostrada pelo devir. A matéria e o devir são eternos e são independentes no seu ser do Ato Puro. Este vício essencial se define dualismo. Ele tem a sua origem numa compreensão defeituosa da verdade do ser, como é dito: “que aquilo que é seja, quando é, e que aquilo que não é não seja, quando não é, resulta certamente necessário; não é, porém, necessário, que tudo aquilo que é seja, nem que tudo aquilo que é não seja.
1.13 Santo Tomás: o ato como ser

            A linha condutora deste estudo é a metafísica de Santo Tomás de Aquino. Tanto a metafísica aristotélica quanto a tomista são metafísicas do ato. No entanto, o que diferencia a concepção do ato: para Aristóteles o ato é a forma, a determinação, a substância na sua constituição essencial; para Tomás o ato é o ser, a pura e total atualidade do ser, o ser é o ato de todos os atos e de todas as formas. A fórmula ser como ato, não é uma comparação entre o ser e o ato, antes uma afirmação na qual o ato é definido como ser

Descartes e o nascimento da Filosofia moderna



Introdução:
       O presente trabalho leva-nos a adentrar nos pensamentos desse grande pensador, que foi René Descartes, de maneira a traçarmos o mesmo caminho que fizera ele. Pois, esse grande e pensador racionalista moderno procura a verdade, verdade essa que o leva a duvidar de todos os seus conhecimentos que eram pautados nas realidades recebidas até então pela sua formação, pois suas indagações faz com que também nós o sigamos de maneira a sempre estarmos como  questionando a respeito da verdade. De início, Descarte elabora um método, no qual possa ele ser conduzido a tal verdade. Suas dúvidadas vão crescendo paulatinamente, de modo a suspender juízos, ou seja, “Epoché” pode ser que seja verdade, pode ser que não seja verdade. Em seu itinerário, crê até mesmo na existência de um gênio maligno e num Deus enganador, sendo esse gênio um estado psicológico, conotação semelhante que também levara o Deus enganador. Com isso, traçaremos esse percurso de Descartes, questionando sempre tudo, com um só intuito a verdade.

PALAVRAS – CHAVE: Filosofia Moderna, Método, Meditações - Cogito-Deus.    


Descartes e o nascimento da Filosofia moderna

      René Descartes nasceu no de 1596 e faleceu no ano de 1650. Sendo ele de família nobre, de modo que os seus dedicavam a medicina e ao comércio. Sua família estendeu raiz em La Haye, Tourene. Seu pai se chamava Joaquim e era conselheiro do parlamento britânico. Sendo Descartes de saúde muito frágil e era sua avó que o cuidava. Entrou no colégio Jesuíta de Le Fleché, no qual havia sido fundado dois anos antes, mas já adquirira notoriedade. A partir disso, seus conhecimentos foram progredindo tanto na realidade filosófica quanto na cientifica. Mesmo sendo um bom aluno, porém ainda nele havia indagações de maneira a não encontrar a verdade que tanto procurava, de maneira a mencionar isso no Discurso do Método. Foi ele, grande apreciador da matemática, por dar respostas exatas.

   Sua filosofia provinha da metodologia escolástica. Apesar de ter suas raízes no catolicismo, sua inquietação aí estava, pois as antigas doutrinas se iam perdendo seu vigor, de maneira que o renascentismo estava a todo o vapor, no qual as inovações científicas e culturais traçavam a realidade da época.

     Em meio ao ensino escolástico que Descartes recebera, além de ser quase que obsoletas devido a grande mudança renascentista, também havia aí um tipo de submissão as instituições políticas da época. Muito decepcionado com o colégio, ele saiu e resolveu entrar para a universidade de Poitiers, no curso de direito, e se formou. Porém, sua frustração continuara, de modo que entro para o exército, se alistando nas tropas holandesas de Maurício de Nassau, pois o pensador racionalista vínculos com a Holanda indo combater os espanhóis. Nisso faz laços de amizade com Isaac Beckman, médico holandês  que se afeiçoava com a Física e com a matemática.

     Suas teorias se a filosóficas se afeiçoavam cada vez mais com a matemática, de modo a associar as leis numéricas com as leis do mundo resgatando a antiga doutrina pitagórica. Por meio de principal teoria afirmava-se na eficácia da razão. Sua pretensão era refletir sobre a questão da doutrina da ciência e objetividade da razão frente ao Deus todo poderoso. As novas teorias científicas contrariavam as Sagradas Escrituras.

     O pensamento de Descartes desafiava as mentalidades feudalistas da época que sempre estava sobre a influência da Igreja que sobrepunha seus valores religiosos, pois a produção de conhecimento deixava muito a desejar, de maneira que, o saber era monopolizado pela Igreja. Também, uma boa parte das obras de Aristóteles se encontrava na custódia da mesma.

      Esse gênio da racionalidade viveu em épocas que, as guerras religiosas faziam o cenário da realidade dessa época na Europa. Em muitas de suas viagens pode-o presenciar os muitos tipos de religião e crenças em meio a sociedades diferentes. Pois, o que lhe chamou também a atenção, foram os modos diferentes de doutrinas que contrapunha as demais. Também, Descarte observara que, tudo de religioso, cultural etc, que está em meio a um povo, tem grande peso naquilo que as mesmas pensam e acreditam. De maneira revolucionária, o pensador racionalista procura descartar todos esses costumes, de modo a criar um método pautado naquilo que possa ser mais verdadeiro possível, descartando todo pensamentos permeados de mitos e crenças1.

O primeiro pensador moderno:
   
   Considerado Descartes, como o primeiro Filósofo moderno, foi também de grande essencialidade a sua contribuição a epistemologia, também as ciências naturais por ter estabelecido um método que ajudou o seu desenvolvimento.

       Em meio as suas obras surgiu o Discurso sobre o método e Meditações, sendo ambas escritas no vernáculo, ao invés do latin tradicional dos trabalhos de Filosofia – as bases da ciência contemporânea.

      O método cartesiano consiste no Ceticismo Metodológico: duvida-se de cada idéia que pode ser duvidada. Contrapondo os gregos antigos e os escolásticos, que acreditavam que as coisas existem simplesmente porque precisam existir, ou porque assim deve ser. Descarte instituiu a dúvida: só se pode dizer que existe aquilo que se pode ser provado. Descarte consegue provar a existência do próprio eu (que duvida, portanto, é sujeito de algo – cogito ergo sum, penso logo existo) e de Deus. O ato de duvidar como indubitável.

    Também consiste o método na realização de quatro tarefas básicas; verificar se existe evidência real e indubitável acerca do fenômeno ou coisa estudada; analisar, ou seja, dividir ao máximo as coisas em suas unidades de composição, fundamentais e estudar essas coisas mais simples que aparecem; sintetizar, ou seja, agrupar novamente as unidades estudadas em um todo verdadeiro; e enumerar todas as conclusões e princípios utilizados, a fim de manter a ordem do pensamento. Em relação a Ciência, O pensador desenvolveu uma Filosofia que influenciou muitos, até ser passada pela metodologia de Newton. Ele mantinha, por exemplo, que o universo era pleno e não poderia haver vácuo. Descarte acreditara que a matéria não possuía qualidades inerentes, mas era simplesmente o material bruto que ocupava o espaço. Ele dividia a realidade em res cogitans (consciência, mente) e res extensa (matéria). Acreditava também que Deus criou o universo como um perfeito mecanismo de moção vortical e que funcionava deterministicamente sem intervenção desde então. Descarte quer estabelecer um método universal inspirado no rigor matemático e em suas “longas cadeias de razão2”.

   A primeira regra é a evidência: não admitir “nenhuma coisa como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal”. Em outras palavras, evitar toda “precipitação” e toda “prevenção” (preconceitos) e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto, isto é, o que “eu não tenho a menor oportunidade de duvidar”. Por conseguinte, a evidência é o que salta aos olhos, é aquilo de que não posso duvidar, apesar de todos os meus esforços, é o que resiste a todos os assaltos da dúvida, apesar de todos os resíduos, o produto do espírito crítico. Não como diz bem Jankélévitch, “uma evidência juvenil, mas quadragenária”.

    A segunda é a regra da análise: “dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis”. A terceira é a regra da síntese: “concluir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para aos poucos, ascender, como que por meio de degraus, aos mais complexos”. A última a dos “desmembramentos tão complexos a ponto de estar certo de nada ter omitido” 3.

   Se esse método tornou-se muito célebre, foi porque os séculos posteriores viram nele manifestações do livre exame e do racionalismo.

      Ele não afirma a independência da razão e a rejeição de qualquer autoridade? Só contam a clareza e a distinção das idéias. Os filósofos do século XVIII estenderão esse método a dois domínios de que Descartes é importante ressaltar, o excluiu expressamente: o político e o religioso.          O método é racionalista porque a evidência de que Descarte parte não é, de modo algum a evidência sensível e empírica. Os sentidos nos enganam, suas indicações são confusas e obscuras, só as idéias da razão são claras e distintas. O ato da razão que percebe diretamente os primeiros princípios é a intuição. A dedução limita-se a vincular, ao longo das belas cadeias da razão, a evidência intuitiva das “naturezas simples”. A dedução nada mais é do que uma intuição continuada.

     No pensamento de René Descarte, tem que relacionar a probabilidade do conhecer como ciência (matemática, posto que as certezas matemáticas não possam pelos sentidos e assim, não podem por eles ser falsificada). A Possibilidade do conhecimento que ele desenvolveu apresenta caráter muito metafísico, extremamente subjetivista, ou seja, coloca o conhecimento com as bases firmadas no sujeito e não mais no objeto, como era realizada até então (o sujeito do conhecimento, aliás, é uma descoberta, com isso Kant utilizara para as suas teorias sobre o assunto). Descarte apresenta e desenvolve a possibilidade do conhecimento verdadeiro em suas Meditações Metafísicas (seis, ao todo), assim como em outras obras (Discurso do método, por exemplo), como sendo algo que se chega pelo processo chamado dúvida metódica (também conhecida por dúvida hiperbólica ou cartesiana).

   A metodologia que constitui a dúvida metódica objetiva a investigação do alcance do conhecimento e se a sua fundamentação está na razão ou na empiria. É um processo geométrico que, lida com alto grau de abstração, pois constrói e reconstrói a realidade em toda a sua amplitude. É certo que não se trata apenas de duvidar por duvidar, mas de perfilhar que é inútil àquele que conhece manter aguçado o seu instrumento de análise se ele não fosse capaz de atingir um alvo real; a dúvida quer levar à verdade e é acentuada para que seja questionada a objetividade do conhecimento porque, se não se observe desde o início a utilidade de uma dúvida tão geral, é ela muito grande, “porque nos liberta de todo tipo de preconceito e nos abre um caminho muito fácil para habituar nosso  espírito a abstrair dos sentidos, e enfim, naquilo que nos impossibilita ter qualquer dúvida no que concerne ao que mais tarde descobriremos ser verdadeiras.”  

    A possibilidade do conhecimento destarte inicia-se com a busca pela certeza, partindo daquela dúvida que não é a dos céticos, mas a metódica, dado que está alicerçada em um método científico. O método de Descartes para a investigação acerca do conhecimento consiste nestas etapas, a saber: 1) Evidência: característica mais importante do Método, fala que o sujeito que busca o verdadeiro conhecimento, somente é permitido admitir como verdadeiras as idéias evidentes, fazendo com que aí a evidência racional seja o critério de verdade, a partir, então daquilo que ele chamou de “idéias claras e distintas” ”acredito que já posso determinar como regra geral que todas as coisas que concebemos muito clara e distintamente são verdadeiras” (Descartes, Meditações, 3ª Meditação); 2) Análise: consiste em dividir um objeto do conhecimento em partes simples, porque isto aumenta a chance de ter maior clareza e distinção; 3) Síntese; trata-se reconstituição do objeto (processo inverso a análise), da realidade, como uma racionalização com objeto por inteiro; 4) Revisão: por fim, passadas essas três etapas primeiras, faz-se uma revisão meticulosa desses processos anteriores. O método procura colocar o conhecimento sobre um alicerce seguro e, para esse feito, aquele que queira utilizar-se deverá repudiar os seus juízos, quaisquer que eles sejam, sobre qualquer conjetura cuja verdade possa ser questionada, ainda que unicamente como possibilidade remota. Os critérios para o que pode ser aceito tornam-se paulatinamente mais restrito ao passo que a dúvida metódica se vai desenvolvendo e se começa a questionar, duvidar mesmo aquilo que nos é dado pela memória, pela imaginação, pelos sentidos e até pela própria razão, porque tudo isso pode nos enganar e, aí, há uma nova questão a ser resolvida. O gênio maligno. Neste ponto de esforço de fundamentação da certeza cientifica, obtida pelo Método, Descartes abre a investigação sobre a possível ação do gênio maligno, ou seja:

[...] um certo gênio maligno, não menos astucioso e enganador do que poderoso, que dedicou todo o seu tempo a enganar-me? [...] cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e preparei tão bem meu espírito contra todas as artimanhas desse grande enganador que, por poderoso que seja jamais poderá impor-me alguma coisa.
                                       (Meditações metafísicas, 1973, pp. 96- 97)

    O objetivo desse gênio maligno que Descarte luta tanto quer então nos enganar, de tal modo que nossos sentidos, lembranças, raciocínios, enfim, todas as possibilidades de real conhecimento anteriores nos conduzam sempre ao erro. O desígnio, a partir disso, é encontrar um ponto de certeza que esteja livre da ação do gênio maligno. É então que vem a formulação ilustre “Cogito ergu sum”, (Penso, logo existo), é o cogito cartesiano. Se da máxima incerteza a respeito da própria subjetividade (penso). A dinâmica intrínseca às séries de vocabulários dispostos racionalmente leva a fatal explicitação do que está contido no “Se duvido, penso”. Levo ao cogito. Surge assim depois da dúvida, uma primeira certeza sobre um existente: o eu, que se pensa e, daí, é res cogitans (coisa pensante). Está localizada a certeza na própria consciência do sujeito que conhece, e introduz um certo ar de primeira pessoa na possibilidade do conhecimento. Esta certeza, nesse passo, deve convir para ser modelo e critério para outras certezas que possam vir a ser alcançada. O critério de verdade é a evidência, oferecida pela intuição.

      O instrumento para o verdadeiro conhecimento é então a razão, o pensamento. A dúvida é um aspecto do intelecto e este não pode haver fora de um ser que realmente exista. O sujeito que duvida, pensa e se pensa, está garantida a sua existência. É prova da clareza e da distinção do pensamento do homem; é real. É daí que Descarte demonstra como utilizar o uso correto das faculdades humanas, e construir sobre este alicerce um real conhecimento, sem invocar aqueles teores que não estejam a salvo do gênio maligno, e que por isso, não são capazes de atender aos preceitos que tinha apresentado no Método.

      O gênio maligno, contudo, não poderia continuar a perseguir a capacidade cognoscitiva do homem, mas é preciso haver uma intervenção divina para garantir a existência de quaisquer proposições de conhecimento. É o que cabe a Deus, que em Descartes é “uma substância infinita, eterna, imutável, independente, onisciente, onipotente e pela qual eu próprio e todas as coisas que são (se é verdade que há coisas que existem) foram criados e produzidos” (DESCARTES, 3ª Meditação), é aceitável assegurar que as “idéias claras e distintas” são utilizadas para demonstração e do eu pensante e de Deus, cuja bondade explica a utilização das idéias obtidas como claras e distintas. O eu, res cogitans, sabe que existe e é uma substância e a existência é uma perfeição e esta, obrigatoriamente deve preceder de uma substância perfeita que realmente existe e é Deus, cujas provas de existência o argumento ontológico, entre outras. Deus não pode de modo algum, ser a perfeição, pois não poderia ser Ele um fator de engano. Assim, está eliminada a possibilidade do gênio maligno (Deus não é enganador) e as dúvidas vão aos poucos dissipadas, pois a certeza da existência inclusive do Cogito, não mais depende unicamente do pensamento, porém é assegurada por Deus, em sua bondade e verdade.

    As “idéias claras e distintas”, matemáticas, mostram-se reais, válidas, e vê-se que a ilusão, de fato era o gênio maligno (cuja existência é negada pela presença e ação de Deus, bom). Deus é proposto a partir da consciência do próprio homem. A razão humana não é divina, pois o homem não é Deus, mas é abonada em sua atividade pelo Deus que a criou. O pensamento racional, o eu como coisa pensante (que duvida, concebe, sente, etc.), revelado por meio da dúvida hiperbólica e garantindo por Deus, de modo que o gênio maligno algum poderá enganá-la, isto garante que o conhecimento que nela alicerçar-se, repercutindo a sua clareza e distinção, (únicos pontos do saber novo, que são incanceláveis), estará seguro, mesmo que seja aquele dado, por exemplo, pelos sentidos, como os corpos, uma vez que esse resista ao exame do método e sobre ele se possa construir uma idéia clara e distinta, verdadeira, portanto, ao menos no que se refere as suas propriedades geométricas, ele, distinto do Cogito por ser dotado de extensão, o espírito é separado do corpo (são claros e distintos entre si), ( largura, comprimento e altura, como o exemplo do pedaço de cera), constitui a res extensa, ou substância extensa4.





1  REALLI, Giovani ANTISERI, Dario. História da Filosofia: v 2. São Pulo: Paulus,1990, p. 350.


2 ibid., p. 362.
3 ibid., p. 363.
4 DESCARTES, René. Meditações Metafísicas.Nova Abril Cultural: São Paulo, 1973.

 SANTO TOMAS DE AQUINO - VIDA E OBRA

INTRODUÇÃO

O Presente trabalho aborda a vida a obra e o pensamento de Santo Tomás de Aquino. Apresenta também sua tese acerca de Deus, do homem e da natureza, em sua época, o que ele pensa sobre as teorias Platônicas de Agostinho e qual o seu objetivo em cristianizar Aristóteles; sua conciliação da fé com a razão, ou, teologia e filosofia. Ele aborda, também, a sua visão política e ética acerca da sociedade; a iniciação de um novo tempo e pensamento, bem como a invasão da igreja no Brasil por meio dos Jesuítas.

1 VIDA DE SANTO TOMÁS

Tomás de Aquino nasceu em 1225, no castelo de Roccasecca, na Campânia, da família feudal dos condes de Aquino. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França, Sicília e Aragão. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino, passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade. Depois de ter estudado as artes liberais, entrou na ordem dominicana, renunciando a tudo, salvo à ciência. Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família; entretanto, Tomás triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia, tendo como mestre Alberto Magno, primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia.

Também Alberto, filho da nobre família de duques de Bollstädt (1207-1280), abandonou o mundo e entrou na ordem dominicana. Ensinou em Colônia, Friburgo, Estrasburgo, lecionou teologia na universidade de Paris, onde teve entre os seus discípulos também Tomás de Aquino, que o acompanhou a Colônia, aonde Alberto foi chamado para lecionar no estudo geral de sua ordem. A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes tratando dos assuntos mais variados - ciências naturais, filosofia, teologia, exegese, ascética.
Em 1252 Tomás voltou para a universidade de Paris, onde ensinou até 1269, quando regressou à Itália, chamado à corte papal. Em 1269 foi de novo à universidade de Paris, onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante; em 1272, voltou a Nápoles, onde lecionou teologia. Dois anos depois, em 1274, viajando para tomar parte no Concílio de Lião, por ordem de Gregório X, faleceu no mosteiro de Fossanova, entre Nápoles e Roma. Tinha apenas quarenta e nove anos de idade.

1.1 TEOLOGIA E FILOSOFIA

Tomás de Aquino aceita a demonstração aristotélica de existência de Deus, baseada no movimento entendido como passagem da potencia para o ato. Para ele, Deus é ato puro e imutável e perfeito, é também ato de pensamento, cujo objeto é Ele próprio, como pensamento autopensante.

Em torno do problema das relações entre filosofia e teologia, ciência e fé, razão e revelação, e mais precisamente em torno do problema da função da razão no âmbito da fé, Tomás de Aquino dá uma solução precisa e definitiva mediante uma distinção clara entre as duas ordens. Com base no sólido sistema aristotélico, é eliminada a doutrina da iluminação, agostiniana, que levava inevitavelmente a uma confusão da teologia com a filosofia. Destarte, é finalmente conquistada a consciência do que é conhecimento racional e demonstração racional, ciência e filosofia: é um lógico procedimento de princípios evidentes para conclusões inteligíveis. E compreende-se, portanto, que não é possível demonstração racional em matéria de fé, onde os princípios são, para nós, não evidentes, transcendentes à razão, mistérios, e igualmente ininteligíveis suas condições lógicas.

Em todo caso, segundo o sistema tomista, a razão não é estranha à fé, porquanto procede da mesma Verdade eterna. E, com relação à fé, deve a razão desempenhar os papéis seguintes: A demonstração da fé, não com argumentos intrínsecos, de evidência, o que é impossível, mas com argumentos extrínsecos, de credibilidade, que garantem a autenticidade divina da Revelação; a demonstração da não irracionalidade do mistério e da sua conveniência, mediante argumentos prováveis; a determinação, enucleação e sistematização das verdades de fé, pelo que a sacra teologia é ciência, e ciência em grau eminente, porquanto essencialmente especulativa, ao passo que, para os agostinianos, é essencialmente prática.

Tomás, portanto, não confunde - como faz o agostinianismo - nem opõe - como faz o averroísmo - razão e fé, mas distingue-as e as harmoniza. De modo que nasce uma unidade dialética profunda entre a razão e a fé; tal unidade dialética nasce da determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana; esta determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana tornou possível a averiguação das reais, efetivas vulnerações da natureza humana; estas vulnerações são filosoficamente, racionalmente, inexplicáveis. E demandam, por conseguinte, a Revelação e, precisamente, os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz.

A fé também presta serviço à razão. Segundo Tomás de Aquino, a fé serve à razão de forma ou critério extrínseco. A fé é, pois, extrínseco e negativo para a razão. Externo porque se trata de fontes de conhecimento diferentes. Negativo porque o filósofo não pode apoiar-se positivamente nos dados da revelação e utilizá-los como ponto de partida para as suas conclusões. Segundo Tomás, a autonomia concedida à razão é limitada e não poderia ser de outro modo. Segundo o pensamento tomista, “a fé melhora a razão, assim como a teologia melhora a filosofia. A graça não suplanta, mas, aperfeiçoa a natureza”.[1] Para Santo Tomás, a filosofia é necessária para se ter uma boa teologia.

Para Tomás, a diferença entre filosofia e teologia é que, a filosofia caracteriza-se no estudo das razões universais das coisas, ou seja, ela é caracterizada pela síntese e organização das idéias aristotélicas, desenvolvendo e aperfeiçoando uma harmonização entre razão e fé, de forma lógica, para assim, chegar a verdade completa. Já a teologia, ele tem como essência a revelação divina e a existência de Deus na organização da vida religiosa e moral, tendo a teoria de Aristóteles de que Deus tem a definição de ato puro, isto é, Ele não tem potencia, nem potencialidade, sendo assim, um ato de pensamento, cujo objetivo é Ele mesmo.

No texto São Tomás aborda que a discussão acontece pela existência ou não de uma razão sem intervenção da fé, isto é, uma filosofia que é diferente da teologia, já que, a diferença entre elas não está no fato de uma abordar determinado tema e outra de outros temas, mas sim, na possibilidade da primeira não oferecer um conhecimento perfeito destes mesmos temas que a teologia está em condições de esclarecer em seus aspectos e conotações específicos relativos à salvação eterna.  Em Tomás, o ponto central da relação filosofia e teologia é Deus. Por isso, ele insistia em dizer que a revelação de Deus acontece pela via da razão, por ser um caminho acessível a todos, e como isso ele esclarece e oferece-nos maneira de chegarmos a uma fé concreta, diferente de uma fé centralizada no senso comum a qual é vivida por muitos. Assim, a graça não suplanta, mas aperfeiçoa a natureza, levando em conta que a teologia não substitui a Filosofia, apenas as corrige, assim como à fé encaminha a razão, não a eliminando, tornando-se necessário uma Filosofia eficaz para que seja possível uma boa teologia, elas se complementam. Desta forma, a filosofia, como preambulum fidei, mostra-se independente, por ser elaborada com instrumentos e métodos próprios e diferentes com os da teologia. Deste modo, Tomás tratando das verdades relativas a Deus, diz que há algumas verdades que vai além da razão humana e há outras que podem ser refletidas através da razão natural. Entretanto, é necessário partir das verdades “racionais”, pois é a razão que nos unifica, até mesmo sendo suporte para a construção de um método teológico. Tomás trazia consigo a certeza de que, apesar de sua total dependência de Deus no seu modo de viver e agir, o homem e o mundo gozam de uma relativa autonomia, sobre a qual deve-se refletir com os instrumentos da razão.

São Tomás formula cinco caminhos para se provar que Deus existe e que Ele como o primeiro na ordem ontológica deve ser atingido por caminhos a posteriori. Esses caminhos são: o caminho da mutação (movimento), que para Tomás, é o mais evidente, pois parte da mutação, ou seja, da existência de um ser imutável chamado Deus, o primeiro motor; o segundo é o caminho da causa eficiente, que tem o seu início na natureza da causa eficiente, que acontece na ordem causal. Assim torna-se necessário admitir uma causa eficiente de Deus; o terceiro é o caminho da contingência (Possibilidade), considerada como coisa na natureza, que se origina da possibilidade de ser ou não ser, não podendo desta maneira negar a existência de algum ente que tenha em si mesmo a sua própria necessidade e a isso todos os seres humanos chamam de Deus; o quarto é o caminho dos graus de perfeição, condizente com a possibilidade da gradação encontrada nas coisas, isto é, quanto mais de ente tiver, tanto mais será uno, verdadeiro e bom, que também é chamado de Deus e por último o caminho do finalismo, que parte do conceito de que deriva do governo do mundo, em que as coisas naturais agem em função de um fim, existindo assim, um ser inteligente que conduz estas coisas para o seu final ,e esse ser é denominado de Deus. Assim é indispensável um Ordenador, possuidor de grande conhecimento e que têm condições de oferecer ser aos entes daquele modo específico no qual de fato eles operam.

1.2 A ANTROPOLOGIA TOMISTA

Para Tomás de Aquino, a alma é o princípio de vida, como forma de ato do corpo. Enquanto o platonismo de Agostinho afirma que a alma e o corpo são duas substancias distintas e acidentalmente unidas, e, portanto, o homem é alma, Aquino, baseado em Aristóteles, afirma que o homem constitui uma única substancia, cujos princípios constitutivos são alma e corpo. A alma, para Tomás é imortal.
Sabe-se que, segundo a concepção platônico-agostiniana, o conhecimento humano depende de uma particular iluminação divina; segundo esta doutrina, portanto, o espírito humano está em relação imediata com o inteligível, e tem, de certo modo, intuição do inteligível. A esta gnosiologia inatista, Tomás opõe francamente a gnosiologia empírica aristotélica, em virtude da qual o campo do conhecimento humano verdadeiro e próprio é limitado ao mundo sensível. Acima do sentido há, sim, no homem, um intelecto; este intelecto atinge, sim, um inteligível; mas é um intelecto concebido como uma faculdade vazia, sem idéias inatas - é uma tabula rasa , segundo a famosa expressão - ; e o inteligível nada mais é que a forma imanente às coisas materiais. Essa forma é enucleada, abstraída pelo intelecto das coisas materiais sensíveis.
Essa gnosiologia é naturalmente conexa a uma metafísica e, em especial, a uma antropologia, assim como a gnosiologia platônico-agostiniana era conexa a uma correspondente metafísica e antropologia. Por isso a alma era concebida quase como um ser autônomo, uma espécie de natureza angélica, unida extrinsecamente a um corpo, e a materialidade do corpo era-lhe mais de obstáculo do que instrumento. Por conseguinte, o conhecimento humano se realizava não através dos sentidos, mas ao lado e acima dos sentidos, mediante contato direto com o mundo inteligível; precisamente como as inteligências angélicas, que conhecem mediante as espécies impressas , idéias inatas. Vice-versa, segundo a antropologia aristotélico-tomista, sobre a base metafísica geral da grande doutrina da forma , a alma é concebida como a forma substancial do corpo. A alma é, portanto, incompleta sem o corpo, ainda que destinada a sobreviver-lhe pela sua natureza racional; logo, o corpo é um instrumento indispensável ao conhecimento humano, que, por conseqüência, tem o seu ponto de partida nos sentidos.
Terceira característica do agostinianismo é o assim chamado voluntarismo, com todas as conseqüências de correntes da primazia da vontade sobre o intelecto. A característica do tomismo, ao contrário, é o intelectualismo, com a primazia do intelecto sobre a vontade, com todas as relativas conseqüências. O conhecimento, pois, é mais perfeito do que a ação, porquanto o intelecto possui o próprio objeto, ao passo que a vontade o persegue sem conquistá-lo. Esta doutrina é aplicada tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural, de sorte que a bem-aventurança não consiste no gozo afetivo de Deus, mas na visão beatífica da Essência divina.

1.3 TEORIA DO CONHECIMENTO

Em Tomás, para chegar-se ao entendimento do “transcendental” é necessária uma identificação total de “uno”, “verdadeiro” e “bom” com o ser, podendo deste modo dizer que o ser é uno, verdadeiro, bom e intrinsecamente não contraditório. Desta forma, a unidade do ente afirma que o ser é uno e sem contradição ou divisão e quanto maior, a sua unidade será mais concreta. A verdade do ente realiza-se na medida em que o verdadeiro torna-se transcendental do ente, de modo que o ente seja inteligível e racional. Por conseguinte, a bondade do ser fundamenta-se de tudo que é existente, isto é, todo ente é bom porque é proveniente da bondade suprema irradiada de Deus que é manifestada em inúmeras maravilhas presente no mundo. Portanto, Tomás faz distinção entre o bem honesto, o bem útil e o bem deleitável, onde o bem honesto é o bem desejado por si mesmo; o útil é aquele que se torna uma maneira de conseguirem objetivos, e os deleitáveis são desejados pelo prazer que proporciona. Desta forma o bem honesto e o bem deleitável tornam-se características de Deus, enquanto que os demais tem em vista os fins que devem conduzir.

1.4 A ANOLOGIA DO SER

Ao contrário de Aristóteles, que identifica o ente nas coisas de uma maneira múltipla e diversa, tendo um ente privilegiado como ponto de referência, Tomás de Aquino, mesmo defendendo o argumento de que o ser diz respeito aos entes finitos, que se interessa mais pela relação acerca de Deus e do mundo.Enquanto Aristóteles, na sua concepção ontológica, diz que o ser é dotado de diferentes sentidos, Tomás de Aquino estabelece a posição que o ser diz respeito aos entes finitos, se interessando mais pela relação entre Deus e as criaturas, porque sua imagem reflete-se no mundo. Deste modo, enquanto Aristóteles caminha horizontalmente, Tomás caminha verticalmente. Assim fala-se da analogia que, esclarecendo a relação entre os entes finitos, determina também a relação acerca de Deus e as criaturas; entre o infinito e o finito, não existindo identidade e equivocidade entre Deus e as criaturas, Portanto, “os entes participam do ser, significando que o seu ser não é o Ser, mas, os muitos são ‘outros’ do Uno, não algo fora do Uno”.

Desta forma não há como falar que não existe uma diferença entre Deus e as criaturas, pois o ser e os entes participam de uma relação estreita, o que revela a presença de Deus no ser humano.

1.5 METAFÍSICA

São Tomás abordando à metafísica, explica os conceitos de ente e essência, os quais seriam sustento à sua construção filosófico-teológica, que se baseia na razão humana e naquilo que é revelada pelas próprias coisas. Desta forma tem-se o ente lógico e o ente real. O ente lógico enquanto ente é o indicativo de que existe qualquer coisa, ao passo que ele pode ser lógico, puramente conceitual como real ou extramental. No ente real inclui-se toda a realidade, tanto o mundo quanto Deus, porque ambos tem existência. Assim, o ente supõe tudo, tanto ao mundo como a Deus, sendo analógico, pois Deus é puro ser e o mundo tem o ser. Ao classificar os entes em lógico e real, Tomás faz a distinção entre eles, enfatizando o segundo, que diz que tanto ao mundo como a Deus existe, sendo que Ele é o ser superior, na qual todas as criaturas participam. Deste modo, como Deus, existimos, e fomos criados por Ele, por isso Ele é maior do que tudo e nós somos seres imperfeitos dependentes da sua filiação.Contudo, esta metafísica do ser de Tomás, nos proporciona uma base do saber profundo até mais do que das essências, baseando-se na redescoberta da estupefação perante as coisas existentes, o que nos possibilita uma filosofia percebível, sendo o ser ato, ao passo que, as essências são uma realidade concreta.

A metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial. A metafísica geral - ou ontologia - tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. A metafísica especial estuda o ser em suas grandes especificações: Deus, o espírito, o mundo. Daí temos a teologia racional - assim chamada, para distingui-la da teologia revelada; a psicologia racional (racional, porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica, que é ciência experimental); a cosmologia ou filosofia da natureza (que estuda a natureza em suas causas primeiras, ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas).

O princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato. Ato significa realidade, perfeição; potência quer dizer não-realidade, imperfeição. Não significa, porém, irrealidade absoluta, mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição, capacidade de concretizar-se. Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser, que depende do ser que é ato puro; este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser. Opõe-se ao ato puro a potência pura que, de per si, naturalmente é irreal, é nada, mas pode tornar-se todas as coisas, e chama-se matéria.

1.6 A ÉTICA

Para Santo Tomás, o fim último do homem é a felicidade, que consiste na contemplação, na atividade do conhecimento. Para ele, as normas morais baseiam-se na natureza humana, e, portanto, que seu conhecimento, concebido teologicamente é o ponto de partida para a formulação da lei moral natural.

Tomás se distingue do agostinianismo, pois a moral tomista é essencialmente intelectualista, ao passo que a moral agostiniana é voluntarista, quer dizer, a vontade não é condição de conhecimento, mas tem como fim o conhecimento. A ordem moral, pois, não depende da vontade arbitrária de Deus, e sim da necessidade racional da divina essência, isto é, a ordem moral é imanente, essencial, inseparável da natureza humana, que é uma determinada imagem da essência divina, que Deus quis realizar no mundo. Desta sorte, agir moralmente significa agir racionalmente, em harmonia com a natureza racional do homem.

Entretanto, se a vontade não determina a ordem moral, é a vontade todavia que executa livremente esta ordem moral. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade, recorrendo a um argumento metafísico fundamental. A vontade tende necessariamente para o bem em geral. Se o intelecto tivesse a intuição do bem absoluto, isto é, de Deus, a vontade seria determinada por este bem infinito, conhecido intuitivamente pelo intelecto. Ao invés, no mundo a vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que, portanto, não podem determinar a sua infinita capacidade de bem; logo, é livre. Não é mister acrescentar que, para a integridade do ato moral, são necessários dois elementos: o elemento objetivo, a lei, que se atinge mediante a razão; e o elemento subjetivo, a intenção, que depende da vontade.

Analisando a natureza humana, resulta que o homem é um animal social (político) e portanto forçado a viver em sociedade com os outros homens. A primeira forma da sociedade humana é a família, de que depende a conservação do gênero humano; a Segunda forma é o estado, de que depende o bem comum dos indivíduos. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente, se compreende como o indivíduo não é um meio para o estado, mas o estado um meio para o indivíduo. Segundo Tomás de Aquino, o estado não tem apenas função negativa (repressiva) e material (econômica), mas também positiva (organizadora) e espiritual (moral). Embora o estado seja completo em seu gênero, fica, porém, subordinado, em tudo quanto diz respeito à religião e à moral, à Igreja, que tem como escopo o bem eterno das almas, ao passo que o estado tem apenas como escopo o bem temporal dos indivíduos.

1.7 FILOSOFIA SOCIAL E POLÍTICA

O tema da política é abordado por Tomás em vários escritos. Dentre estes, destaca-se a obra “Do Reino” a partir da qual é mister tecer algumas reflexões. A política em Tomás tem um conteúdo ético. Está subordinada a valores transcendentes e se ordena ao bem comum. Os bens particulares devem ser ordenados ao bem comum, sejam eles as riquezas, a erudição ou a eloqüência.

O que caracteriza a existência de uma vida política voltada para a realização do bem comum. Para Tomás, a existência de duas ordens de coisas. A primeira, uma estrutura jurídica que assegure a paz e possibilite levar uma vida virtuosa. A segunda, serviços prestados à coletividade por meio dos governantes. É obrigação dos governantes instaurar uma vida boa, conservá-la e melhorá-la.

O bem comum terreno assegurado pelo governante está ordenado à bem-aventurança eterna. O fim último da vida em comunidade não é viver segundo a virtude, mas sim pela vida virtuosa chegar à vida eterna. Em outras palavras, o Estado não é o fim último. É apenas um meio, ainda que imprescindível, para alcançar a felicidade eterna.

A concepção política de Tomás de Aquino ensina duas lições fundamentais. A primeira é que não pode existir um bem particular que não esteja em função da coletividade. Por exemplo, o conhecimento que um indivíduo possui só é legítimo se ele for colocado a serviço de todos, ou seja, não se estuda para si, por um prazer solitário do espírito.Estuda-se para melhorar a vida de todos. Só isso já é uma crítica severíssima contra aqueles profissionais, estudantes e professores que não se consideram obrigados a devolver para a sociedade a ciência adquirida. A mesma crítica se aplica à idéia de propriedade particular. Tomás de Aquino jamais admitiria que um indivíduo possuísse mais do que necessita para sua própria subsistência. Toda acumulação de bens que possibilita o usufruto do supérfluo e uma vida sem trabalho é um roubo do direito de outros levarem uma vida digna. Na linguagem de hoje, pode-se dizer que para Tomás a propriedade tem uma “função social”.
A segunda lição é que o Estado não é a verdade última do homem da terra. O ser racional está destinado à realização de finalidades superiores do que aquelas que o Estado é capaz de assegurar. Isto é, a finalidade da existência humana não se esgota com a realização de todas as necessidades materiais. O homem tem uma abertura para o Absoluto e essa busca é uma sede infinita e infinda. Essa idéia de Tomás é uma crítica aos governantes.

2. TOMISMO NO BRASIL

Foi por meio da Ordem religiosa recém surgida quando da vinda de seus padres missionários ao Brasil junto à armada do Governador Geral português Tomé de Souza em 1549, a Companhia de Jesus originara-se num contexto cultural muito fecundo da Europa da época. Com efeito, seus inícios aconteceram no âmbito de um pequeno grupo de docentes e alunos da Universidade de Paris, local de convergência da tradição medieval e dos novos fermentos do Humanismo e do Renascimento; além disso, a identidade hispânica de seu fundador, Inácio de Loyola, e de vários entre os primeiros adeptos, proporcionava a colocação da Companhia no âmago de um dos mais importantes movimentos culturais da Europa da época: a Segunda Escolástica ibérica, escola filosófica que tencionava abarcar e discutir as novas teorias dos filósofos renascentistas e ao mesmo tempo manter uma ligação estreita com a tradição filosófica cristã. Inclusive alguns dos membros da Companhia foram entre os mais ilustres representantes desta corrente de pensamento (Francisco Suarez, Pedro de Fonseca, Luís de Molina). A proveniência portuguesa ou hispânica de grande parte dos jesuítas que após 1549 chegaram no Brasil e o fato de sua formação espiritual e intelectual ter sido realizada no Colégio das Artes de Coimbra que fora um dos focos do referido movimento filosófico, reforça ainda mais a significação do papel cultural que os jesuítas assumiram no Brasil: o de serem portadores e transmissores da tradição medieval e renascentista da Europa no contexto da colônia além mar, sendo que eles propiciaram e em parte encarregaram-se de realizar o enxerto das idéias, sonhos e desilusões, riquezas e contradições do Velho Mundo no terreno fecundo, virgem e desconhecido do Mundo Novo, onde irão estabelecer sua morada. A educação é reconhecida pelos religiosos - imbuídos pelo espírito da pedagogia humanista - como instrumento privilegiado para criar um homem novo e uma nova sociedade no Novo Mundo. Por isto a educação das crianças e a criação de escolas constituíram-se os objetivos prioritários do plano missionário da Companhia, no Brasil. Este empreendimento acarretava a necessidade de formular conhecimentos e práticas de caráter pedagógico e psicológico.

Cabe ressaltar outro motivo que justifica o interesse do estudo do saber dos jesuítas do ponto de vista da historiografia das idéias psicológicas no Brasil: uma das dimensões principais da espiritualidade da Companhia e de sua formação é a ênfase no conhecimento de si mesmo e no diálogo interpessoal visando a compreensão da própria dinâmica interior. O discernimento dos espíritos e a direção espiritual, por exemplo, recursos utilizados na Companhia para a formação de seus membros, são expressões de uma atenção toda moderna para com o cuidado de si mesmo e tornam-se normas para a vida individual e social no âmbito da Companhia. Estes recursos práticos eram aplicados à vida do indivíduo, sendo porém funcionais ao bem-estar do grupo e destinados à favorecer a adaptação aos diversos contextos de atuação missionária e neles canalizam-se conceitos teóricos e receitas práticas próprias de toda a tradição clássica e medieval

CONCLUSÃO

O pensamento tomista afirma que, como a inteligência adere, necessária e naturalmente, aos primeiros princípios, assim a vontade adere ao fim último. Ora, existem verdades que não possuem relação necessária com os primeiros princípios; tais são as proposições contingentes cuja negação não implica na negação desses princípios. A inteligência não concede, necessariamente, seu assentimento a tais verdades. Mas existem proposições necessárias que possuem esta relação necessária; tais são as conclusões demonstrativas cuja negação significa a negação dos princípios. A estas últimas a inteligência concede seu assentimento necessariamente, na medida em que reconhece a conexão das conclusões com os princípios por meio de uma demonstração. Faltando isto, o assentimento não é necessário.

O mesmo acontece com relação à vontade. Existem bens particulares que não possuem relação necessária com a felicidade, visto que se pode ser feliz sem eles. A tais bens, a vontade não adere necessariamente. Mas existem outros bens que implicam nessa relação; são aqueles pelos quais o homem adere a Deus, pois é só nele que se acha a verdadeira felicidade. Todavia, antes que essa conexão seja demonstrada como necessária pela certeza da visão divina, a vontade não adere necessariamente a Deus nem aos bens que a ele se relacionam. Mas a vontade daquele que vê Deus em sua essência adere necessariamente a Ele, do mesmo modo como agora nós queremos, necessariamente, ser felizes. Por conseguinte, é evidente que a vontade não quer, por necessidade, tudo o que deseja.
A vontade não pode tender para nenhum objeto, se este não se lhe apresenta como um bem. Mas como existe uma infinidade de bens, ela não é necessariamente determinada por um só.
A causa motora produz, necessariamente, o movimento do móvel, no caso em que a força dessa causa ultrapassa de tal maneira o móvel que toda capacidade que este tem de agir fica submetida à causa. Mas a capacidade da vontade, na medida em que se dirige para o bem universal e perfeito, não pode estar inteiramente subordinada a qualquer bem particular. Desse modo, ela não é, necessariamente, acionada por ele.







[1] REALI, Gionanni. História da filosofia, São Paulo:paulus, 1990. p 7.2