1.12 Aristóteles: o ser e o devir
Aristóteles
retoma e dá continuidade à questão parmenidiana sobre a evidência originária e
inegável do devir, o tornar a ser.
1.12.1 O significado da metafísica
Aristóteles
não usou o termo “metafísica”, mas o termo “filosofia primeira”, dentre outras
expressões, referindo-se a ela como a filosofia originária que está na base de
todo saber filosófico.
Do
significado de “meta” , como “depois”, como “supra”, existem duas teses. A
primeira originada com Simplício e com os neoplatônicos, tem a metafísica como
ciência das realidades separadas da matéria, acima das realidades físicas e
como suprafísica. A segunda tese origina com Alexandre e com Asclépio, tem o
significado de meta como relação de sucessão do nosso conhecimento: as coisas
físicas que devem ser posteriores, são entendidas por nós anteriores, mas a
metafísica por ser a ciência das coisas divinas é anterior. A metafísica vem
depois da física porque trata de coisas superiores a ela.
Essas
considerações históricas são superadas ao observar que o estudo do ente
enquanto ente é abstraído do antes e do depois, do supra e do sob.
1.12.2 A unidade da metafísica
A
ciência metafísica fundamenta-se como ciência unitária, a ciência que entende a
posição do todo do ser, sem o qual não se tem metafísica. Esta totalidade é
encontrada nos vários significados do ser como: as categorias, substância e
acidentes, ato e potência, verdadeiro e falso.
É
preciso encontrar o centro unificante tanto do ser múltiplo quanto da metafísica,
este centro é a substância (ousía),
assim a metafísica é chamada como ciência da substância. O que garante a
unidade da substância é o princípio da não-contradição, protegendo o ser
(substância), o pensar (significar) e o dizer (exprimir), mantendo a estabilidade
do ser de cada um desses. No entanto, esta estabilidade é ameaçada pelo devir
de certas substâncias que formam o conteúdo de nossa experiência.
Com
a questão sobre a correlação entre a substância e deviente e a estabilidade da
substância, protegida pelo princípio de não-contradição é que atingimos o
confronto com a posição parmenidiana. Alguns filósofos antigos julgaram que o
ser é uno e imóvel, mas que existe uma pluralidade de coisas.
A
tarefa proposta é a conciliação entre razão e experiência. A formulação do
princípio de não-contradição dada por Aristóteles é tríplice: a) É impossível
que ao mesmo tempo uma coisa pertença e não pertença a uma mesma coisa; b) É
impossível crer que uma mesma coisa seja e não seja; c) É impossível, ao mesmo tempo,
que a mesma pessoa aceite que uma mesma coisa exista e que não exista.
O
princípio tem caráter normativo universal, entretanto, alguns filósofos o nega
seja diretamente ou indiretamente. O seu valor determinante não se pode impor
por meio de uma demonstração, porque toda maneira de demonstrar supõe um
princípio, e assim vai até ao infinito, não havendo de fato demonstração. O
princípio tem, pois, um valor absoluto, de modo que, quem o nega o afirma, na
própria negação está a sua afirmação, e assim ele torna-se invencível. O
resultado de uma refutação sobre ele reduz-se ao silêncio e ao negá-lo
significa reduzir-se a não falar e, dessa maneira, não falando e nem pensando é
preciso que cesse de ser homem. Por conseqüência, a absoluta validade do princípio
concede a absoluta unidade da linguagem e do pensamento e a absoluta unidade do
dizer, do pensar e do ser; consistindo o significado lingüístico, lógico e
ontológico do princípio. Disso temos duas deduções: 1) a negação do princípio é
a negação da verdade: ele é fundamento da verdade; 2) cada posição doutrinal,
cada filosofia, mostra-se verdadeira à medida que consegue confutar as posições
contraditórias.
1.12.4 O devir
O
devir é problema, e assim se torna em relação à estabilidade da substância e à
absoluta validade do princípio de não-contradição. O devir ocorre entre dois
contrários, é a passagem de um contrário no seu contrário, é como se o é deriva do não é, é o mesmo identificar o não
ser com o ser. Um ente é
deviente, e o devir é o processo de um ente ou em um ente. Deste processo
nota-se:
a) o ente deviente é idêntico na
passagem do seu ser ao não ser, como do ser não-branco ao seu ser branco.
Aristóteles o chama de substrato;
b) o devir é uma passagem do
substrato idêntico de um estado de privação;
c) o estado de privação, enquanto
é um estado, não é nada, mas uma realidade, é o ser em potência, a respeito do
qual o estado de forma correspondente é um ser em ato;
d) o devir não é uma passagem do
não-ser absoluto, mas de um certo qual não-ser, que é tal referente à forma ou
ao ato, ao qual termina;
e) para a inteligibilidade do
devir se exigem três elementos: o substrato, a privação, potência e a forma,
ato.
f) o devir parece compatível com
a estabilidade da substância e com a exigência do princípio de não-contradição.
A
passagem do substrato do seu ser em estado de privação ou em potência ao ser em
estado de forma ou de ato é uma identificação que ocorre no substrato. O devir
é uma passagem do não ser ao ser, um acréscimo do nada ao qualquer coisa. A
suposição da permanência do substrato não é suficiente a dissipar no devir a
contradição entre ser e nada, a potencialidade não só não é o ato e enquanto
não é ato, não pode torna-se por si o ato que é em potência. Nada passa da
potência ao ato senão em virtude de um ente em ato.Enfim, o devir é
incontraditório só admitindo o Ato absolutamente imóvel: o mutável é só porque
é o Imutável: Deus.
1.12.5 Três anotações conclusivas
A
metafísica aristotélica na sua unidade sistemática se apresenta como onto-teo-logia: onto:enquanto é ciência
do ente enquanto ente; teo, na
afirmação do Ato Puro, que é Deus; logia,enquanto
construção da ciência metafísica é norteada pelo princípio de não-contradição.
O
Ato Puro é o Ser na sua plenitude de ser, que preenche a lacuna do não-ser
mostrada pelo devir. A matéria e o devir são eternos e são independentes no seu
ser do Ato Puro. Este vício essencial se define dualismo. Ele tem a sua origem numa compreensão defeituosa da
verdade do ser, como é dito: “que aquilo que é seja, quando é, e que aquilo que não é não seja, quando não é, resulta certamente necessário; não é, porém,
necessário, que tudo aquilo que é seja, nem que tudo aquilo que é não seja.
1.13 Santo Tomás: o ato como ser
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