domingo, 15 de julho de 2012


1.12 Aristóteles: o ser e o devir


            Aristóteles retoma e dá continuidade à questão parmenidiana sobre a evidência originária e inegável do devir, o tornar a ser.

1.12.1 O significado da metafísica

            Aristóteles não usou o termo “metafísica”, mas o termo “filosofia primeira”, dentre outras expressões, referindo-se a ela como a filosofia originária que está na base de todo saber filosófico.
            Do significado de “meta” , como “depois”, como “supra”, existem duas teses. A primeira originada com Simplício e com os neoplatônicos, tem a metafísica como ciência das realidades separadas da matéria, acima das realidades físicas e como suprafísica. A segunda tese origina com Alexandre e com Asclépio, tem o significado de meta como relação de sucessão do nosso conhecimento: as coisas físicas que devem ser posteriores, são entendidas por nós anteriores, mas a metafísica por ser a ciência das coisas divinas é anterior. A metafísica vem depois da física porque trata de coisas superiores a ela.
            Essas considerações históricas são superadas ao observar que o estudo do ente enquanto ente é abstraído do antes e do depois, do supra e do sob.

1.12.2 A unidade da metafísica

            A ciência metafísica fundamenta-se como ciência unitária, a ciência que entende a posição do todo do ser, sem o qual não se tem metafísica. Esta totalidade é encontrada nos vários significados do ser como: as categorias, substância e acidentes, ato e potência, verdadeiro e falso.
            É preciso encontrar o centro unificante tanto do ser múltiplo quanto da metafísica, este centro é a substância (ousía), assim a metafísica é chamada como ciência da substância. O que garante a unidade da substância é o princípio da não-contradição, protegendo o ser (substância), o pensar (significar) e o dizer (exprimir), mantendo a estabilidade do ser de cada um desses. No entanto, esta estabilidade é ameaçada pelo devir de certas substâncias que formam o conteúdo de nossa experiência.
            Com a questão sobre a correlação entre a substância e deviente e a estabilidade da substância, protegida pelo princípio de não-contradição é que atingimos o confronto com a posição parmenidiana. Alguns filósofos antigos julgaram que o ser é uno e imóvel, mas que existe uma pluralidade de coisas.
            A tarefa proposta é a conciliação entre razão e experiência. A formulação do princípio de não-contradição dada por Aristóteles é tríplice: a) É impossível que ao mesmo tempo uma coisa pertença e não pertença a uma mesma coisa; b) É impossível crer que uma mesma coisa seja e não seja; c) É impossível, ao mesmo tempo, que a mesma pessoa aceite que uma mesma coisa exista e que não exista.
            O princípio tem caráter normativo universal, entretanto, alguns filósofos o nega seja diretamente ou indiretamente. O seu valor determinante não se pode impor por meio de uma demonstração, porque toda maneira de demonstrar supõe um princípio, e assim vai até ao infinito, não havendo de fato demonstração. O princípio tem, pois, um valor absoluto, de modo que, quem o nega o afirma, na própria negação está a sua afirmação, e assim ele torna-se invencível. O resultado de uma refutação sobre ele reduz-se ao silêncio e ao negá-lo significa reduzir-se a não falar e, dessa maneira, não falando e nem pensando é preciso que cesse de ser homem. Por conseqüência, a absoluta validade do princípio concede a absoluta unidade da linguagem e do pensamento e a absoluta unidade do dizer, do pensar e do ser; consistindo o significado lingüístico, lógico e ontológico do princípio. Disso temos duas deduções: 1) a negação do princípio é a negação da verdade: ele é fundamento da verdade; 2) cada posição doutrinal, cada filosofia, mostra-se verdadeira à medida que consegue confutar as posições contraditórias.

1.12.4 O devir

            O devir é problema, e assim se torna em relação à estabilidade da substância e à absoluta validade do princípio de não-contradição. O devir ocorre entre dois contrários, é a passagem de um contrário no seu contrário, é como se o é deriva do não é, é o mesmo identificar o não ser com o ser. Um ente é deviente, e o devir é o processo de um ente ou em um ente. Deste processo nota-se:
a) o ente deviente é idêntico na passagem do seu ser ao não ser, como do ser não-branco ao seu ser branco. Aristóteles o chama de substrato;
b) o devir é uma passagem do substrato idêntico de um estado de privação;
c) o estado de privação, enquanto é um estado, não é nada, mas uma realidade, é o ser em potência, a respeito do qual o estado de forma correspondente é um ser em ato;
d) o devir não é uma passagem do não-ser absoluto, mas de um certo qual não-ser, que é tal referente à forma ou ao ato, ao qual termina;
e) para a inteligibilidade do devir se exigem três elementos: o substrato, a privação, potência e a forma, ato.
f) o devir parece compatível com a estabilidade da substância e com a exigência do princípio de não-contradição.
            A passagem do substrato do seu ser em estado de privação ou em potência ao ser em estado de forma ou de ato é uma identificação que ocorre no substrato. O devir é uma passagem do não ser ao ser, um acréscimo do nada ao qualquer coisa. A suposição da permanência do substrato não é suficiente a dissipar no devir a contradição entre ser e nada, a potencialidade não só não é o ato e enquanto não é ato, não pode torna-se por si o ato que é em potência. Nada passa da potência ao ato senão em virtude de um ente em ato.Enfim, o devir é incontraditório só admitindo o Ato absolutamente imóvel: o mutável é só porque é o Imutável: Deus.

1.12.5 Três anotações conclusivas

            A metafísica aristotélica na sua unidade sistemática se apresenta como onto-teo-logia: onto:enquanto é ciência do ente enquanto ente; teo, na afirmação do Ato Puro, que é Deus; logia,enquanto construção da ciência metafísica é norteada pelo princípio de não-contradição.
            O Ato Puro é o Ser na sua plenitude de ser, que preenche a lacuna do não-ser mostrada pelo devir. A matéria e o devir são eternos e são independentes no seu ser do Ato Puro. Este vício essencial se define dualismo. Ele tem a sua origem numa compreensão defeituosa da verdade do ser, como é dito: “que aquilo que é seja, quando é, e que aquilo que não é não seja, quando não é, resulta certamente necessário; não é, porém, necessário, que tudo aquilo que é seja, nem que tudo aquilo que é não seja.
1.13 Santo Tomás: o ato como ser

            A linha condutora deste estudo é a metafísica de Santo Tomás de Aquino. Tanto a metafísica aristotélica quanto a tomista são metafísicas do ato. No entanto, o que diferencia a concepção do ato: para Aristóteles o ato é a forma, a determinação, a substância na sua constituição essencial; para Tomás o ato é o ser, a pura e total atualidade do ser, o ser é o ato de todos os atos e de todas as formas. A fórmula ser como ato, não é uma comparação entre o ser e o ato, antes uma afirmação na qual o ato é definido como ser

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