SANTO TOMAS DE AQUINO - VIDA E OBRA
INTRODUÇÃO
O Presente trabalho aborda a vida a
obra e o pensamento de Santo Tomás de Aquino. Apresenta também sua tese acerca
de Deus, do homem e da natureza, em sua época, o que ele pensa sobre as teorias
Platônicas de Agostinho e qual o seu objetivo em cristianizar Aristóteles; sua
conciliação da fé com a razão, ou, teologia e filosofia. Ele aborda, também, a
sua visão política e ética acerca da sociedade; a iniciação de um novo tempo e
pensamento, bem como a invasão da igreja no Brasil por meio dos Jesuítas.
1
VIDA DE SANTO TOMÁS
Tomás
de Aquino nasceu em 1225, no castelo de Roccasecca, na Campânia, da família
feudal dos condes de Aquino. Era unido pelos laços de sangue à família imperial
e às famílias reais de França, Sicília e Aragão. Recebeu a primeira educação no
grande mosteiro de Montecassino, passando a mocidade em Nápoles como aluno
daquela universidade. Depois de ter estudado as artes liberais, entrou na ordem
dominicana, renunciando a tudo, salvo à ciência. Tal acontecimento determinou
uma forte reação por parte de sua família; entretanto, Tomás triunfou da
oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia, tendo como mestre Alberto
Magno, primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia.
Também
Alberto, filho
da nobre família de duques de Bollstädt (1207-1280), abandonou o mundo e entrou
na ordem dominicana. Ensinou em Colônia, Friburgo, Estrasburgo, lecionou
teologia na universidade de Paris, onde teve entre os seus discípulos também
Tomás de Aquino, que o acompanhou a Colônia, aonde Alberto foi chamado para
lecionar no estudo geral
de sua ordem. A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e
oito volumes tratando dos assuntos mais variados - ciências naturais,
filosofia, teologia, exegese, ascética.
Em
1252 Tomás voltou para a universidade de Paris, onde ensinou até 1269, quando
regressou à Itália, chamado à corte papal. Em 1269 foi de novo à universidade
de Paris, onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante; em 1272, voltou
a Nápoles, onde lecionou teologia. Dois anos depois, em 1274, viajando para
tomar parte no Concílio de Lião, por ordem de Gregório X, faleceu no mosteiro
de Fossanova, entre Nápoles e Roma. Tinha apenas quarenta e nove anos de idade.
1.1 TEOLOGIA
E FILOSOFIA
Tomás
de Aquino aceita a demonstração aristotélica de existência de Deus, baseada no
movimento entendido como passagem da potencia para o ato. Para ele, Deus é ato
puro e imutável e perfeito, é também ato de pensamento, cujo objeto é Ele
próprio, como pensamento autopensante.
Em
torno do problema das relações entre filosofia e teologia,
ciência e fé, razão e revelação, e mais precisamente em torno do problema da
função da razão no âmbito da fé, Tomás de Aquino dá uma solução precisa e
definitiva mediante uma distinção clara entre as duas ordens. Com base no
sólido sistema aristotélico, é eliminada a doutrina da iluminação, agostiniana,
que levava inevitavelmente a uma confusão da teologia com a filosofia.
Destarte, é finalmente conquistada a consciência do que é conhecimento racional
e demonstração racional, ciência e filosofia: é um lógico procedimento de
princípios evidentes para conclusões inteligíveis. E compreende-se, portanto,
que não é possível demonstração racional em matéria de fé, onde os princípios são,
para nós, não evidentes, transcendentes à razão, mistérios, e igualmente
ininteligíveis suas condições lógicas.
Em
todo caso, segundo o sistema tomista, a razão não é estranha à fé, porquanto
procede da mesma Verdade eterna. E, com relação à fé, deve a razão desempenhar
os papéis seguintes: A demonstração da fé, não com argumentos intrínsecos, de
evidência, o que é impossível, mas com argumentos extrínsecos, de credibilidade,
que garantem a autenticidade divina da Revelação; a demonstração da não irracionalidade
do mistério e da sua conveniência, mediante argumentos prováveis; a
determinação, enucleação e sistematização das verdades de fé, pelo que a sacra
teologia é ciência, e ciência em grau eminente, porquanto essencialmente
especulativa, ao passo que, para os agostinianos, é essencialmente prática.
Tomás,
portanto, não confunde - como faz o agostinianismo - nem opõe - como faz o
averroísmo - razão e fé, mas distingue-as e as harmoniza. De modo que nasce uma
unidade dialética profunda entre a razão e a fé; tal unidade dialética nasce da
determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana; esta
determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana tornou possível
a averiguação das reais, efetivas vulnerações da natureza humana; estas vulnerações
são filosoficamente, racionalmente, inexplicáveis. E demandam, por conseguinte,
a Revelação e, precisamente, os dogmas do pecado original e da redenção pela
cruz.
A
fé também presta serviço à razão. Segundo Tomás de Aquino, a fé serve à razão de
forma ou critério extrínseco. A fé é, pois, extrínseco e negativo para a razão.
Externo porque se trata de fontes de conhecimento diferentes. Negativo porque o
filósofo não pode apoiar-se positivamente nos dados da revelação e utilizá-los
como ponto de partida para as suas conclusões. Segundo Tomás, a autonomia
concedida à razão é limitada e não poderia ser de outro modo. Segundo o
pensamento tomista, “a fé melhora a razão, assim como a teologia melhora a
filosofia. A graça não suplanta, mas, aperfeiçoa a natureza”.[1]
Para Santo Tomás, a filosofia é necessária para se ter uma boa teologia.
Para
Tomás, a diferença entre filosofia e teologia é que, a filosofia caracteriza-se
no estudo das razões universais das coisas, ou seja, ela é caracterizada pela
síntese e organização das idéias aristotélicas, desenvolvendo e aperfeiçoando
uma harmonização entre razão e fé, de forma lógica, para assim, chegar a
verdade completa. Já a teologia, ele tem como essência a revelação divina e a
existência de Deus na organização da vida religiosa e moral, tendo a teoria de
Aristóteles de que Deus tem a definição de ato puro, isto é, Ele não tem
potencia, nem potencialidade, sendo assim, um ato de pensamento, cujo objetivo
é Ele mesmo.
No
texto São Tomás aborda que a discussão acontece pela existência ou não de uma
razão sem intervenção da fé, isto é, uma filosofia que é diferente da teologia,
já que, a diferença entre elas não está no fato de uma abordar determinado tema
e outra de outros temas, mas sim, na possibilidade da primeira não oferecer um
conhecimento perfeito destes mesmos temas que a teologia está em condições de
esclarecer em seus aspectos e conotações específicos relativos à salvação
eterna. Em Tomás, o ponto central da
relação filosofia e teologia é Deus. Por isso, ele insistia em dizer que a
revelação de Deus acontece pela via da razão, por ser um caminho acessível a
todos, e como isso ele esclarece e oferece-nos maneira de chegarmos a uma fé
concreta, diferente de uma fé centralizada no senso comum a qual é vivida por
muitos. Assim, a graça não suplanta, mas aperfeiçoa a natureza, levando em
conta que a teologia não substitui a Filosofia, apenas as corrige, assim como à
fé encaminha a razão, não a eliminando, tornando-se necessário uma Filosofia
eficaz para que seja possível uma boa teologia, elas se complementam. Desta
forma, a filosofia, como preambulum fidei, mostra-se independente, por ser
elaborada com instrumentos e métodos próprios e diferentes com os da teologia.
Deste modo, Tomás tratando das verdades relativas a Deus, diz que há algumas
verdades que vai além da razão humana e há outras que podem ser refletidas
através da razão natural. Entretanto, é necessário partir das verdades
“racionais”, pois é a razão que nos unifica, até mesmo sendo suporte para a construção
de um método teológico. Tomás trazia consigo a certeza de que, apesar de sua
total dependência de Deus no seu modo de viver e agir, o homem e o mundo gozam
de uma relativa autonomia, sobre a qual deve-se refletir com os instrumentos da
razão.
São Tomás formula cinco caminhos para
se provar que Deus existe e que Ele como o primeiro na ordem ontológica deve
ser atingido por caminhos a posteriori. Esses caminhos são: o caminho da
mutação (movimento), que para Tomás, é o mais evidente, pois parte da mutação,
ou seja, da existência de um ser imutável chamado Deus, o primeiro motor; o
segundo é o caminho da causa eficiente, que tem o seu início na natureza da
causa eficiente, que acontece na ordem causal. Assim torna-se necessário
admitir uma causa eficiente de Deus; o terceiro é o caminho da contingência
(Possibilidade), considerada como coisa na natureza, que se origina da
possibilidade de ser ou não ser, não podendo desta maneira negar a existência
de algum ente que tenha em si mesmo a sua própria necessidade e a isso todos os
seres humanos chamam de Deus; o quarto é o caminho dos graus de perfeição,
condizente com a possibilidade da gradação encontrada nas coisas, isto é,
quanto mais de ente tiver, tanto mais será uno, verdadeiro e bom, que também é
chamado de Deus e por último o caminho do finalismo, que parte do conceito de
que deriva do governo do mundo, em que as coisas naturais agem em função de um
fim, existindo assim, um ser inteligente que conduz estas coisas para o seu
final ,e esse ser é denominado de Deus. Assim é indispensável um Ordenador,
possuidor de grande conhecimento e que têm condições de oferecer ser aos entes
daquele modo específico no qual de fato eles operam.
1.2 A ANTROPOLOGIA
TOMISTA
Para
Tomás de Aquino, a alma é o princípio de vida, como forma de ato do corpo.
Enquanto o platonismo de Agostinho afirma que a alma e o corpo são duas
substancias distintas e acidentalmente unidas, e, portanto, o homem é alma,
Aquino, baseado em Aristóteles, afirma que o homem constitui uma única substancia,
cujos princípios constitutivos são alma e corpo. A alma, para Tomás é imortal.
Sabe-se
que, segundo a concepção platônico-agostiniana, o conhecimento humano depende
de uma particular iluminação divina; segundo esta doutrina, portanto, o espírito
humano está em relação imediata com o inteligível, e tem, de certo modo,
intuição do inteligível. A esta gnosiologia inatista, Tomás opõe francamente a
gnosiologia empírica aristotélica, em virtude da qual o campo do conhecimento
humano verdadeiro e próprio é limitado ao mundo sensível. Acima do sentido há,
sim, no homem, um intelecto; este intelecto atinge, sim, um inteligível; mas é
um intelecto concebido como uma faculdade vazia, sem idéias inatas - é uma tabula rasa , segundo a
famosa expressão - ; e o inteligível nada mais é que a forma imanente às coisas
materiais. Essa forma é enucleada, abstraída pelo intelecto das coisas
materiais sensíveis.
Essa
gnosiologia é naturalmente conexa a uma metafísica e, em especial, a uma
antropologia, assim como a gnosiologia platônico-agostiniana era conexa a uma
correspondente metafísica e antropologia. Por isso a alma era concebida quase
como um ser autônomo, uma espécie de natureza angélica, unida extrinsecamente a
um corpo, e a materialidade do corpo era-lhe mais de obstáculo do que
instrumento. Por conseguinte, o conhecimento humano se realizava não através
dos sentidos, mas ao lado e acima dos sentidos, mediante contato direto com o
mundo inteligível; precisamente como as inteligências angélicas, que conhecem mediante
as espécies impressas
, idéias inatas. Vice-versa, segundo a antropologia aristotélico-tomista, sobre
a base metafísica geral da grande doutrina da forma , a alma é concebida como a forma
substancial do corpo. A alma é, portanto, incompleta sem o corpo, ainda que
destinada a sobreviver-lhe pela sua natureza racional; logo, o corpo é um
instrumento indispensável ao conhecimento humano, que, por conseqüência, tem o
seu ponto de partida nos sentidos.
Terceira
característica do agostinianismo é o assim chamado voluntarismo, com todas as
conseqüências de correntes da primazia da vontade sobre o intelecto. A
característica do tomismo, ao contrário, é o intelectualismo, com a primazia do
intelecto sobre a vontade, com todas as relativas conseqüências. O conhecimento,
pois, é mais perfeito do que a ação, porquanto o intelecto possui o próprio
objeto, ao passo que a vontade o persegue sem conquistá-lo. Esta doutrina é
aplicada tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural, de sorte que a
bem-aventurança não consiste no gozo afetivo de Deus, mas na visão beatífica da
Essência divina.
1.3 TEORIA DO
CONHECIMENTO
Em Tomás, para chegar-se ao
entendimento do “transcendental” é necessária uma identificação total de “uno”,
“verdadeiro” e “bom” com o ser, podendo deste modo dizer que o ser é uno,
verdadeiro, bom e intrinsecamente não contraditório. Desta forma, a unidade do
ente afirma que o ser é uno e sem contradição ou divisão e quanto maior, a sua
unidade será mais concreta. A verdade do ente realiza-se na medida em que o
verdadeiro torna-se transcendental do ente, de modo que o ente seja inteligível
e racional. Por conseguinte, a bondade do ser fundamenta-se de tudo que é
existente, isto é, todo ente é bom porque é proveniente da bondade suprema
irradiada de Deus que é manifestada em inúmeras maravilhas presente no mundo.
Portanto, Tomás faz distinção entre o bem honesto, o bem útil e o bem
deleitável, onde o bem honesto é o bem desejado por si mesmo; o útil é aquele
que se torna uma maneira de conseguirem objetivos, e os deleitáveis são
desejados pelo prazer que proporciona. Desta forma o bem honesto e o bem
deleitável tornam-se características de Deus, enquanto que os demais tem em
vista os fins que devem conduzir.
1.4
A ANOLOGIA DO SER
Ao contrário de Aristóteles, que
identifica o ente nas coisas de uma maneira múltipla e diversa, tendo um ente
privilegiado como ponto de referência, Tomás de Aquino, mesmo defendendo o
argumento de que o ser diz respeito aos entes finitos, que se interessa mais
pela relação acerca de Deus e do mundo.Enquanto Aristóteles, na sua concepção
ontológica, diz que o ser é dotado de diferentes sentidos, Tomás de Aquino
estabelece a posição que o ser diz respeito aos entes finitos, se interessando
mais pela relação entre Deus e as criaturas, porque sua imagem reflete-se no
mundo. Deste modo, enquanto Aristóteles caminha horizontalmente, Tomás caminha
verticalmente. Assim fala-se da analogia que, esclarecendo a relação entre os
entes finitos, determina também a relação acerca de Deus e as criaturas; entre
o infinito e o finito, não existindo identidade e equivocidade entre Deus e as
criaturas, Portanto, “os entes participam do ser, significando que o seu ser
não é o Ser, mas, os muitos são ‘outros’ do Uno, não algo fora do Uno”.
Desta forma não há como falar que não
existe uma diferença entre Deus e as criaturas, pois o ser e os entes
participam de uma relação estreita, o que revela a presença de Deus no ser
humano.
1.5
METAFÍSICA
São Tomás abordando à metafísica,
explica os conceitos de ente e essência, os quais seriam sustento à sua
construção filosófico-teológica, que se baseia na razão humana e naquilo que é
revelada pelas próprias coisas. Desta forma tem-se o ente lógico e o ente real.
O ente lógico enquanto ente é o indicativo de que existe qualquer coisa, ao
passo que ele pode ser lógico, puramente conceitual como real ou extramental.
No ente real inclui-se toda a realidade, tanto o mundo quanto Deus, porque
ambos tem existência. Assim, o ente supõe tudo, tanto ao mundo como a Deus,
sendo analógico, pois Deus é puro ser e o mundo tem o ser. Ao classificar os
entes em lógico e real, Tomás faz a distinção entre eles, enfatizando o
segundo, que diz que tanto ao mundo como a Deus existe, sendo que Ele é o ser
superior, na qual todas as criaturas participam. Deste modo, como Deus,
existimos, e fomos criados por Ele, por isso Ele é maior do que tudo e nós
somos seres imperfeitos dependentes da sua filiação.Contudo, esta metafísica do
ser de Tomás, nos proporciona uma base do saber profundo até mais do que das
essências, baseando-se na redescoberta da estupefação perante as coisas
existentes, o que nos possibilita uma filosofia percebível, sendo o ser ato, ao
passo que, as essências são uma realidade concreta.
A
metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial. A metafísica geral - ou
ontologia - tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. A
metafísica especial estuda o ser em suas grandes especificações: Deus, o
espírito, o mundo. Daí temos a teologia racional - assim chamada, para
distingui-la da teologia revelada; a psicologia racional (racional, porquanto é
filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica, que é ciência
experimental); a cosmologia ou filosofia da natureza (que estuda a natureza em
suas causas primeiras, ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em
suas causas segundas).
O princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato. Ato significa realidade, perfeição; potência quer dizer não-realidade, imperfeição. Não significa, porém, irrealidade absoluta, mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição, capacidade de concretizar-se. Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser, que depende do ser que é ato puro; este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser. Opõe-se ao ato puro a potência pura que, de per si, naturalmente é irreal, é nada, mas pode tornar-se todas as coisas, e chama-se matéria.
1.6 A ÉTICA
Para
Santo Tomás, o fim último do homem é a felicidade, que consiste na
contemplação, na atividade do conhecimento. Para ele, as normas morais
baseiam-se na natureza humana, e, portanto, que seu conhecimento, concebido
teologicamente é o ponto de partida para a formulação da lei moral natural.
Tomás
se distingue do agostinianismo, pois a moral tomista é essencialmente
intelectualista, ao passo que a moral agostiniana é voluntarista, quer dizer, a
vontade não é condição de conhecimento, mas tem como fim o conhecimento. A
ordem moral, pois, não depende da vontade arbitrária de Deus, e sim da
necessidade racional da divina essência, isto é, a ordem moral é imanente,
essencial, inseparável da natureza humana, que é uma determinada imagem da
essência divina, que Deus quis realizar no mundo. Desta sorte, agir moralmente
significa agir racionalmente, em harmonia com a natureza racional do homem.
Entretanto,
se a vontade não determina a ordem moral, é a vontade todavia que executa
livremente esta ordem moral. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade,
recorrendo a um argumento metafísico fundamental. A vontade tende
necessariamente para o bem em geral. Se o intelecto tivesse a intuição do bem
absoluto, isto é, de Deus, a vontade seria determinada por este bem infinito,
conhecido intuitivamente pelo intelecto. Ao invés, no mundo a vontade está em
relação imediata apenas com seres e bens finitos que, portanto, não podem
determinar a sua infinita capacidade de bem; logo, é livre. Não é mister
acrescentar que, para a integridade do ato moral, são necessários dois
elementos: o elemento objetivo, a lei, que se atinge mediante a razão; e o
elemento subjetivo, a intenção, que depende da vontade.
Analisando
a natureza humana, resulta que o homem é um animal social (político) e portanto
forçado a viver em sociedade com os outros homens. A primeira forma da
sociedade humana é a família, de que depende a conservação do gênero humano; a
Segunda forma é o estado, de que depende o bem comum dos indivíduos. Sendo que
apenas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente, se compreende
como o indivíduo não é um meio para o estado, mas o estado um meio para o
indivíduo. Segundo Tomás de Aquino, o estado não tem apenas função negativa
(repressiva) e material (econômica), mas também positiva (organizadora) e espiritual
(moral). Embora o estado seja completo em seu gênero, fica, porém, subordinado,
em tudo quanto diz respeito à religião e à moral, à Igreja, que tem como escopo
o bem eterno das almas, ao passo que o estado tem apenas como escopo o bem
temporal dos indivíduos.
1.7 FILOSOFIA SOCIAL E
POLÍTICA
O
tema da política é abordado por Tomás em vários escritos. Dentre estes,
destaca-se a obra “Do Reino” a partir da qual é mister tecer algumas reflexões.
A política em Tomás tem um conteúdo ético. Está subordinada a valores
transcendentes e se ordena ao bem comum. Os bens particulares devem ser
ordenados ao bem comum, sejam eles as riquezas, a erudição ou a eloqüência.
O
que caracteriza a existência de uma vida política voltada para a realização do
bem comum. Para Tomás, a existência de duas ordens de coisas. A primeira, uma
estrutura jurídica que assegure a paz e possibilite levar uma vida virtuosa. A
segunda, serviços prestados à coletividade por meio dos governantes. É
obrigação dos governantes instaurar uma vida boa, conservá-la e melhorá-la.
O
bem comum terreno assegurado pelo governante está ordenado à bem-aventurança
eterna. O fim último da vida em comunidade não é viver segundo a virtude, mas
sim pela vida virtuosa chegar à vida eterna. Em outras palavras, o Estado não é
o fim último. É apenas um meio, ainda que imprescindível, para alcançar a
felicidade eterna.
A
concepção política de Tomás de Aquino ensina duas lições fundamentais. A
primeira é que não pode existir um bem particular que não esteja em função da
coletividade. Por exemplo, o conhecimento que um indivíduo possui só é legítimo
se ele for colocado a serviço de todos, ou seja, não se estuda para si, por um
prazer solitário do espírito.Estuda-se para melhorar a vida de todos. Só isso
já é uma crítica severíssima contra aqueles profissionais, estudantes e
professores que não se consideram obrigados a devolver para a sociedade a
ciência adquirida. A mesma crítica se aplica à idéia de propriedade particular.
Tomás de Aquino jamais admitiria que um indivíduo possuísse mais do que
necessita para sua própria subsistência. Toda acumulação de bens que
possibilita o usufruto do supérfluo e uma vida sem trabalho é um roubo do
direito de outros levarem uma vida digna. Na linguagem de hoje, pode-se dizer
que para Tomás a propriedade tem uma “função social”.
A
segunda lição é que o Estado não é a verdade última do homem da terra. O ser
racional está destinado à realização de finalidades superiores do que aquelas
que o Estado é capaz de assegurar. Isto é, a finalidade da existência humana
não se esgota com a realização de todas as necessidades materiais. O homem tem
uma abertura para o Absoluto e essa busca é uma sede infinita e infinda. Essa
idéia de Tomás é uma crítica aos governantes.
2. TOMISMO NO BRASIL
Foi
por meio da Ordem religiosa recém surgida quando da vinda de seus padres
missionários ao Brasil junto à armada do Governador Geral português Tomé de
Souza em 1549, a Companhia de Jesus originara-se num contexto cultural muito
fecundo da Europa da época. Com efeito, seus inícios aconteceram no âmbito de
um pequeno grupo de docentes e alunos da Universidade de Paris, local de
convergência da tradição medieval e dos novos fermentos do Humanismo e do
Renascimento; além disso, a identidade hispânica de seu fundador, Inácio de
Loyola, e de vários entre os primeiros adeptos, proporcionava a colocação da
Companhia no âmago de um dos mais importantes movimentos culturais da Europa da
época: a Segunda Escolástica ibérica, escola filosófica que tencionava
abarcar e discutir as novas teorias dos filósofos renascentistas e ao mesmo
tempo manter uma ligação estreita com a tradição filosófica cristã. Inclusive
alguns dos membros da Companhia foram entre os mais ilustres representantes
desta corrente de pensamento (Francisco Suarez, Pedro de Fonseca, Luís de
Molina). A proveniência portuguesa ou hispânica de grande parte dos jesuítas
que após 1549 chegaram no Brasil e o fato de sua formação espiritual e
intelectual ter sido realizada no Colégio das Artes de Coimbra que fora um dos
focos do referido movimento filosófico, reforça ainda mais a significação do
papel cultural que os jesuítas assumiram no Brasil: o de serem portadores e
transmissores da tradição medieval e renascentista da Europa no contexto da
colônia além mar, sendo que eles propiciaram e em parte encarregaram-se de
realizar o enxerto das idéias, sonhos e desilusões, riquezas e contradições do
Velho Mundo no terreno fecundo, virgem e desconhecido do Mundo Novo, onde irão
estabelecer sua morada. A educação é reconhecida pelos religiosos - imbuídos
pelo espírito da pedagogia humanista - como instrumento privilegiado para criar
um homem novo e uma nova sociedade no Novo Mundo. Por isto a educação das
crianças e a criação de escolas constituíram-se os objetivos prioritários do
plano missionário da Companhia, no Brasil. Este empreendimento acarretava a
necessidade de formular conhecimentos e práticas de caráter pedagógico e
psicológico.
Cabe
ressaltar outro motivo que justifica o interesse do estudo do saber dos jesuítas
do ponto de vista da historiografia das idéias psicológicas no Brasil: uma das
dimensões principais da espiritualidade da Companhia e de sua formação é a
ênfase no conhecimento de si mesmo e no diálogo interpessoal visando a
compreensão da própria dinâmica interior. O discernimento dos espíritos e a
direção espiritual, por exemplo, recursos utilizados na Companhia para a
formação de seus membros, são expressões de uma atenção toda moderna para com o
cuidado de si mesmo e tornam-se normas para a vida individual e social no
âmbito da Companhia. Estes recursos práticos eram aplicados à vida do
indivíduo, sendo porém funcionais ao bem-estar do grupo e destinados à
favorecer a adaptação aos diversos contextos de atuação missionária e neles
canalizam-se conceitos teóricos e receitas práticas próprias de toda a tradição
clássica e medieval
CONCLUSÃO
O
pensamento tomista afirma que, como a inteligência adere, necessária e
naturalmente, aos primeiros princípios, assim a vontade adere ao fim último.
Ora, existem verdades que não possuem relação necessária com os primeiros
princípios; tais são as proposições contingentes cuja negação não implica na
negação desses princípios. A inteligência não concede, necessariamente, seu
assentimento a tais verdades. Mas existem proposições necessárias que possuem
esta relação necessária; tais são as conclusões demonstrativas cuja negação
significa a negação dos princípios. A estas últimas a inteligência concede seu
assentimento necessariamente, na medida em que reconhece a conexão das
conclusões com os princípios por meio de uma demonstração. Faltando isto, o
assentimento não é necessário.
O
mesmo acontece com relação à vontade. Existem bens particulares que não possuem
relação necessária com a felicidade, visto que se pode ser feliz sem eles. A
tais bens, a vontade não adere necessariamente. Mas existem outros bens que
implicam nessa relação; são aqueles pelos quais o homem adere a Deus, pois é só
nele que se acha a verdadeira felicidade. Todavia, antes que essa conexão seja
demonstrada como necessária pela certeza da visão divina, a vontade não adere
necessariamente a Deus nem aos bens que a ele se relacionam. Mas a vontade
daquele que vê Deus em sua essência adere necessariamente a Ele, do mesmo modo
como agora nós queremos, necessariamente, ser felizes. Por conseguinte, é
evidente que a vontade não quer, por necessidade, tudo o que deseja.
A
vontade não pode tender para nenhum objeto, se este não se lhe apresenta como
um bem. Mas como existe uma infinidade de bens, ela não é necessariamente
determinada por um só.
A
causa motora produz, necessariamente, o movimento do móvel, no caso em que a
força dessa causa ultrapassa de tal maneira o móvel que toda capacidade que
este tem de agir fica submetida à causa. Mas a capacidade da vontade, na medida
em que se dirige para o bem universal e perfeito, não pode estar inteiramente
subordinada a qualquer bem particular. Desse modo, ela não é, necessariamente,
acionada por ele.
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