A nova moral do
funk
Gênero modificou a natureza clandestina da
pornografia
Marcia Tiburi
A afirmação adorniana de que após Auschwitz toda cultura é lixo não
perde sua atualidade. Se, de um lado, a frase implica que a cultura não vale
mais nada, de outro quer dizer que “lixo” é a melhor categoria explicativa da
cultura como “aquilo que se rejeita”.
Mas vem significar também que cultura é a experiência do que sobra para
os indivíduos levando em conta as condições socioeconômicas e políticas
marcadas pela divisão de classes, de trabalho, de sexos, da própria educação
dirigida de maneira diferente a pobres e ricos.
A partir da elevação do lixo à categoria de análise, podemos com
tranquilidade ecológica (aquela que faz a separação dos descartáveis por
categorias) partir para uma brevíssima investigação daquilo que se há de nomear
como “moralina funk”, a performance corporal-sonora que se apresenta como o
ópio do povo de nosso tempo.
Muito já se escreveu sobre o fenômeno que merece atenção filosófica
urgente desde que se tornou a “cultura” que resta para uma grande camada da
população de classes menos favorecidas econômica e politicamente.
Muitos afirmam que “o funk carioca também é cultura”, mas pouco comentam
sobre seu sentido como capital cultural justamente porque seu único capital
implica uma contradição: pobreza material e espiritual. Ou seja, capital
nenhum.
Na ausência desse capital sobressai o que resta aos marginalizados. Eles
descobriram o valor daquilo mesmo que lhes resta. Eis o capital sexual.
A performance da moralina funk depende desse capital sexual. Explorado,
ele é a única mercadoria da consciência e do corpo coisificado. Seu paradoxo é
parecer libertário quando, na verdade, é a nova moral.
Pornografia moralizante
Produto dos mais interessantes da sempre moralizante indústria cultural
da pornografia, a esperteza do funk carioca é transformar em regra aquilo que
foi, de modo irretocável, chamado por seus adeptos pela categoria do
“proibidão”. A versão da coisa que não é para todo mundo.
A fórmula do funk é tão imbatível quanto a lei do estupro das histórias
do Marquês de Sade. É o barulho como poder, ou melhor, violência. Nenhum ouvido
escapa da moralina funk na forma de disfarçadas ladainhas em que as mesmas
velhas “verdades” sexistas se expoem, como não poderia deixar de ser,
pornograficamente.
A economia do proibidão
Mandamento sagrado da performance é que ninguém ouse imputar marasmo ao
tão cultuado quanto profanado Deus Sexo.
Não existe uso da pornografia autorizado, pois a regra de sua moral é a
clandestinidade. Daí a função do proibidão na economia política do funk. A
história da pornografia oscila entre ser o outro lado da lei e ser apenas outra
lei.
Foi isso que fez seu sucesso político em sociedades autoritárias contra
o princípio publicitário que lhe deu origem. É o que está dado em sua letra:
porno (prostituta) e grafia (escrita) definem, na origem, a mulher que pode ser
vendida. E que, para ser vendida, precisa ser exposta.
A pornografia é, assim, uma espécie de exposição gráfica da mercadoria
humana. Não é errado dizer que a lógica que transforma tudo em mercadoria tem
seu cerne na “prostitutabilidade” de todas as coisas. Nada mais simples de
entender em um mundo de pessoas confundidas com coisas.
Que a pornografia esteja ao alcance dos olhos, dos ouvidos, de todos os
sentidos, exposta em todos os lugares, significa apenas que a regra do
ocultamento foi transgredida. Mas implica também sua efetivação como
publicidade universal. Isso explica por que ela não choca mais.
Na performance do funk carioca ela é altamente aceita em escala social.
Seja pela pulsão, seja pela acomodação, se o imoral torna-se suportável é
porque ele tomou o lugar da moral. É a nova moral.
A pornografia de nossos dias é tão bárbara quanto a romana pornocracia,
com a diferença de que não temos mais nada que se possa chamar de política em
um mundo comandado por regras meramente econômicas.
Daí que todo funkeiro ou seu empresário saibam que seu negócio é bom pra
todo mundo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário