INTRODUÇÃO
O Presente trabalho apresenta as concepções teológicas,
antropológicas e cosmológicas do pensamento Agostiniano. É mister destacar a
proeminência da Transcendência em sua doutrina, uma vez que Deus tornou-se,
após o evento de sua conversão, o núcleo de seu pensar e, por conseguinte do
seu existir. Antes, todavia, de apresentá-las, tem-se uma breve exposição de
sua biografia e doutrinas que incidiram sobre sua doutrina e personalidade.
Destarte, pode-se
perceber, por meio de uma leitura atenta de seus escritos, que,
indubitavelmente, Agostinho de Hipona fora um dos maiores pensadores da
história do cristianismo.
BIOGRAFIA
DE SANTO AGOSTINHO
Aurélio Agostinho nasceu
em Tagasta, cidade da Numídia, de uma família burguesa, a 13 de novembro de
354. Seu pai, Patrício, era pagão, e
recebeu o batismo pouco antes de morrer; sua mãe, Mônica, pelo contrário, era
uma cristã fervorosa. Em Catrgo, aderiu ao Maniqueísmo. Depois de maduro exame
crítico abandona o maniqueísmo, abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou
a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. Recebeu o batismo em Milão
das mãos de Santo Ambrósio, cuja conversão e eloqüência muito contribuíram para
sua conversão. Tinha trinta e três anos de idade. Ordenado padre em 391, e
consagrado bispo em 395, governou a igreja de Hipona até a morte, que se deu
durante o assédio da cidade pelos vândalos, a 28 de agosto do ano 430. tinha
setenta e cinco de idade.
Após sua conversão,
Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da sagrada escritura, da teologia
revelada, e a redação de suas obras, entre as quais têm lugar de destaque as
filosóficas. As obras de Agostinho, são de interesses filosóficos, nas quais
algumas serão destacadas neste trabalho, bem com: Sobre os costumes, Do livre arbítrio, Sobre as duas almas e Da natureza do bem.
Dadas, porém, a
mentalidade agostiniana, em que a filosofia e a teologia andam juntas,
compreendem-se que interessam à
filosofia também as obras teológicas e religiosas, especialmente: Da verdadeira
religião, As confissões, A cidade de Deus, Da trindade, Da mentira.
A
TEOLOGIA AGOSTINIANA
“Mais
o que eu amo amando-te? Não uma beleza corpórea, não uma graça transitória, não
um fulgor de uma luz, que agrado a estes olhos, não doces melodias de todo
tipo, não o suave perfume das flores [...] não são essas coisas que eu amo
amando meu Deus. No entanto, por assim dizer, amo uma luz, uma voz, um perfume,
um alimento e um amplexo quando amo o meu Deus [...] é isso que eu amo, quando
amo o meu Deus. (do livro confissões de Santo Agostinho)
Agostinho, Após sua
conversão ao cristianismo, descobre um novo horizonte, o filosofar na fé, ou
“filosofia cristã”, que já há algum tempo era preparada por padres da Grécia,
mas que se concretizava com ele. Para ele, o diálogo é o centro de todas as
disciplinas, pois transmite a sabedoria. Além disso, o pensamento teológico,
tornou-se o único fundamento, ou melhor, a única essência de seus estudos. Isso
não quer dizer que seja fideísta, pois ele não usou só da fé, mas também da
razão, uma vez que para ele “a fé não elimina a razão, ao contrário, estimula a
inteligência”. Ele tem como base o livro de Isaias onde diz que “SE NÃO
TIVERDES FÉ, NÃO PODEREIS COMPREENDER” (Is 7,9).
Agostinho usou das doutrinas
dos filósofos gregos, que vieram de Parmênides até Platão, passando por
Plotino, para falar de um Transcendente, cujo sua forma é imutável e
indivisível. Ele transformou a doutrina platônica no pensamento cristão.
Segundo sua teoria, Deus é verdade presente no espírito humano, que uma vez
descoberto, é percebido de forma mais perfeita e suprema, passando portanto, da
idéia externa para a interiorização do
espírito, dando um sentido totalmente teológico. Agostinho oferece provas da existência de
Deus que vale a pena serem ressaltadas. A primeira é a concepção de um mundo
perfeito, que já era conhecida pelos gregos. Pode-se perceber no livro “A
cidade de Deus” pelas palavras, “deixando de lado inclusive o testemunho dos
profetas, o próprio mundo, com sua ordenadíssima variedade [...] e feito por
Deus, inefável e invisivelmente grande, inefável e invisivelmente belo”; a
segunda é identificada como “Consensus gentium”, que é conhecida, também, pela
antiguidade, ou pelos pagãos.O “Deus verdadeiro” que o executa como criador do
universo; o terceiro é de Deus como ser supremo; e por último, um Deus amor
capaz de preencher o vazio do espírito humano. Tais conceitos requerem o
esvaziamento matafísico executado por Plotino, onde Deus como Transcendente,
que mesmo destituído da forma física é complemento da alma e do corpo. Deus não
sendo corpo, é substância, essência única e imutável.
Para Agostinho Deus é
“Pai, Filho e Espírito Santo”. Uma igualdade absoluta, sem hierarquia ou
acidente, pois, apesar de serem imutáveis, onde está um também se faz presente
os outros, na mesma essência. O que antes era do externo para o interno, com o
dogma da Trindade acontece o contrário,isto é, a fonte de todo bem e felicidade
humana encontra-se em Deus, autor de todo bem. Assim como o entendimento humano
é um só, sendo a imagem da Trindade , Eles também são um, sem separar sua essência.
Quem se conhece, conhece a Deus.
A
ANTROPOLOGIA AGOSTINIANA
“Que
profundo mistério é o homem! E, no entanto, tu Senhor, conheces até o número de
seus cabelos, que em ti não sofrem redução. E, entretanto, é mais fácil contar
os seus cabelos do que as sensações e os moventes do seu coração”. (confissões
de Santo Agostinho)
Com essas palavras,
Agostinho explica o homem. Segundo ele, o problema do indivíduo não está nos
cosmos, ou em um todo, mais no seu ego, como ser humano. Por isso é que ele
afirma ser o protagonista de sua própria filosofia, isto é, “ele observa e é ao
mesmo tempo observado”.
Enquanto os filósofos
gregos, sobretudo Platão, afirmavam que a alma era prisioneira do corpo, sendo
ela considerada perfeita e pertencente ao mundo das idéias, Agostinho dá um
novo significado a essa teoria, baseado no conceito criacionista e no dogma da
ressurreição, embora Plotino já desenvolvia essa idéia. Agostinho afirma que o
homem é uma alma que faz uso do seu corpo, pois, os sentidos mostram o imediato
e o particular, enquanto a alma aponta o universal, de forma pura em sua
compreensão.
Para Agostinho, o homem,
apesar de ser mortal e destrutivo, é capaz de atingir a verdade, não por si só,
mais, pelo uso da razão que vai além dela mesma, e que não tem origem do
próprio homem, e sim de Deus.
Segundo Agostinho, o homem
conhecendo-se a si mesmo passa a amar-se, mesmo que se engane, pois, quem se
engana é porque existe, e, uma vez existindo se ama, ou seja, apesar de o homem
possuir limitações já mencionadas a cima,ele é a imagem e semelhança de
Deus Trindade. É nesse mergulho interno
que ele encontra a verdade, o “Transcendente”. Essa descoberta é feita por meio
do raciocínio iluminado pela fé. Isso não significa que o ser humano tem a
verdade, mas que é preciso entrar em sintonia com a Transcendência para
descobri-la, uma vez que, essa só pode ser encontrada quando o homem purifica a
sua alma. Esta teoria já era defendida por Platão, mais foi cristianizada por
Agostinho como “pureza de coração”, pois, o que faz o homem prisioneiro da
matéria é o pecado, e esse faz o corpo dominar a alma, sendo necessário, para se libertar, aderir-se à religião e as
virtudes cristãs, como antídoto contra esse mal. Apenas deixar-se ser movido
pela graça de Deus.
O homem sendo condenado a
perdição, é recuperado pela graça divina. Agostinho apresenta ainda “as três
faculdades da alma”: a memória, que é a essência de Deus Pai; a inteligência,
que é a razão, ou revelação da verdade do Filho; e a vontade, que é a expressão
humana do amor, moção do Espírito Santo. Para ele o mais importante é a
vontade, pois ela constitui a pessoa humana, dando-lhe o livre e arbítrio, onde
a pessoa por sua natureza tende a afastar-se de Deus. Esse afastamento
significa buscar o não ser, ou seja o mal. Para Agostinho o mal não existe, e
sim a ausência do bem supremo, Deus. Assim, o verdadeiro conhecimento não seria
apreensão dos objetos externos ao sujeito, mas a descoberta de regras
imutáveis, como o princípio ético segundo o qual é necessário fazer o bem e
evitar o mal. E para isso esse indivíduo necessita da graça de Deus, pois só
ela é capaz de libertar o homem de suas concupiscências. Essa teoria foi a
responsável pela idéia de predestinação, ou seja, tal graça não é dada por Deus
a todos, mas para seus eleitos, que conseqüentemente irão ser salvos. Aí está
uma das contradições agostinianas, pois essas “verdades” não condiziam com a doutrina
cristã da época, mais que foi acolhida por Calvino – 1509-1564, que abraçou tal
idéia para a fundação de sua igreja, Calvinista. Agostinho conseguiu conciliar
a teoria da graça com a predestinação. Segundo ele, “a graça e a liberdade não
se excluem, antes se completam”.
Todas essas teorias
mencionadas foram o cerne da antropologia agostiniana, quando ele escreveu “a
cidade de Deus”, onde ele aborda, também, o pecado original fundamentado nos
primórdios da criação humana, na visão bíblica “aqueles que aderirem a eles
constroem a cidade humana, ou terrena[..] os eleitos pela graça divina edificam
a cidade de Deus e vivem em bem-aventuranças eternas”. Ele aborda outros
assuntos contidos no Pentateuco, afim de
estruturar melhor o cristianismo, e, baseando-se nas teorias de Plotino e
Platão, criar um novo pensamento que só depois foi acatado pela igreja,
tornando-se doutor da mesma.
CONCEITO
DE MUNDO EM AGOSTINHO
“De
nihilo enim ate, non de te facta sunt, non de aliqua non tua vel quae antea
fuerit, sed de concreata, id est simul a te creata matéria”
.
Para Agostinho Deus criou
todas as coisas do nada, mas o único ser que tem a essência do criador é o
homem, ademais foram criados pelo seu poder. Antes de tudo acontecer na forma
de matéria, já existia no pensamento de Deus, pois sua vontade livre
determina-se em si mesma, embora não contenha alma. Isso implica diferenças na
qual Agostinho frisa “todos os seres são bons porque criados por Deus; e todos
implicam uma certa imperfeição intrínseca porque feitos do nada”. Mais, se ele
criou tudo do nada, implica uma questão inquietante, o tempo.
De fato, os únicos seres
que vivem no tempo são os terrestres. Santo Agostinho explica que antes de o
mundo e suas criaturas existissem, não havia tempo. Baseado no livro dos
Gêneses, “no princípio criou Deus o céu a terá”, antes de tal início não havia
tempo; ele começou a existir justamente a partir daí, pois o tempo de Deus é a
eternidade. O tempo continua sendo um
enigma para os seres humanos, pois devido sua mutabilidade, isto é, ele é
reduzido ao indivisível, está sempre a deixar um passado e partir para o
futuro. Por isso é que as três dimensões do tempo resumem-se no momento de
agora. Para enfrentar esse problema a cabo, Agostinho busca respostas na
“distinção da alma”, ou seja, a única que pode medir o tempo, já que é
impossível que isso aconteça em si
mesmo, é o pensamento, pois uma vez que o tempo está em movimento, tudo fica a
penas no passado, e isso não pode ser medido, só percebido na forma de
“presença psíquica”. O mesmo ocorre com o futuro, que ainda não existindo, já
está na alma do homem. Contudo, além desse problema mencionado acima, existe o
metafísico, isto é, Deus não criou a matéria desprovida das formas, pois, para
essa existir precisaria da forma já concebida. Isso é o que chamamos de
“matéria espiritual”. Ao contrário, Deus em sua criação não teria primeiro
criado a luz e sim adentrado nas trevas.
Agostinho defende, também,
a idéia de que Deus ao criar todas as
coisas deixou os “germes originais” dos
seres vivos. Por isso é que no mundo acontece
uma constante evolução. Isso, em sua filosofia chama-se “rationes
seminales”, um movimento energético fazendo com que a terra sofra mudanças. Aí
está a diferença da teoria do criacionismo, de Santo Agostinho, para a de
Demiurgo de Platão, que era a teoria de fabricação do ser. Apesar de Platão já
ter criado esta teoria, o problema da criação do mundo não foi resolvido pelos
filósofos antigos.
Agostinho explica a criação do mundo como algo tirado da
própria essência de Deus. Sendo ele infinito, consegue criar tudo a partir do
nada, enquanto o homem, ser finito, só pode gerar ou produzir a partis de algo.
Segundo o pensamento
agostiniano, Deus ao criar o mundo do nada, criou também o tempo, que é ligado
ao movimento, pois, antes não existia. Tese já defendida por Platão no timeu,
mas que foi mais explícito e ganhou
fundamentos em Agostinho. “De paradigma da mente, passou-se a ser pensamento de Deus”. Para ele deus além
de criar, inseriu em tudo Semente, para que continuasse a sua obra. Ele diz
também que por trás de algo visível está o mistério da invisibilidade criada
por Deus baseado em Gêneses, ou seja, Deus criou e tudo evolui-se.
Nenhum dos filósofos
chegou a provar tais teorias, a penas Agostinho, unindo a fé com a razão provou
tal “verdade”.
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