domingo, 15 de julho de 2012

SANTO AGOSTINHO - VIDA E OBRA

INTRODUÇÃO

O Presente  trabalho apresenta as concepções teológicas, antropológicas e cosmológicas do pensamento Agostiniano. É mister destacar a proeminência da Transcendência em sua doutrina, uma vez que Deus tornou-se, após o evento de sua conversão, o núcleo de seu pensar e, por conseguinte do seu existir. Antes, todavia, de apresentá-las, tem-se uma breve exposição de sua biografia e doutrinas que incidiram sobre sua doutrina e personalidade.

Destarte, pode-se perceber, por meio de uma leitura atenta de seus escritos, que, indubitavelmente, Agostinho de Hipona fora um dos maiores pensadores da história do cristianismo.


BIOGRAFIA DE SANTO AGOSTINHO

Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta, cidade da Numídia, de uma família burguesa, a 13 de novembro de 354.  Seu pai, Patrício, era pagão, e recebeu o batismo pouco antes de morrer; sua mãe, Mônica, pelo contrário, era uma cristã fervorosa. Em Catrgo, aderiu ao Maniqueísmo. Depois de maduro exame crítico abandona o maniqueísmo, abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. Recebeu o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio, cuja conversão e eloqüência muito contribuíram para sua conversão. Tinha trinta e três anos de idade. Ordenado padre em 391, e consagrado bispo em 395, governou a igreja de Hipona até a morte, que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos, a 28 de agosto do ano 430. tinha setenta e cinco de idade.

Após sua conversão, Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da sagrada escritura, da teologia revelada, e a redação de suas obras, entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas. As obras de Agostinho, são de interesses filosóficos, nas quais algumas serão destacadas neste trabalho, bem com: Sobre os costumes, Do  livre arbítrio, Sobre as duas almas e Da  natureza do bem.

Dadas, porém, a mentalidade agostiniana, em que a filosofia e a teologia andam juntas, compreendem-se que interessam à  filosofia também as obras teológicas e religiosas, especialmente: Da verdadeira religião, As confissões, A cidade de Deus, Da trindade, Da mentira.

 A TEOLOGIA AGOSTINIANA

Mais o que eu amo amando-te? Não uma beleza corpórea, não uma graça transitória, não um fulgor de uma luz, que agrado a estes olhos, não doces melodias de todo tipo, não o suave perfume das flores [...] não são essas coisas que eu amo amando meu Deus. No entanto, por assim dizer, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um amplexo quando amo o meu Deus [...] é isso que eu amo, quando amo o meu Deus. (do livro confissões de Santo Agostinho)


Agostinho, Após sua conversão ao cristianismo, descobre um novo horizonte, o filosofar na fé, ou “filosofia cristã”, que já há algum tempo era preparada por padres da Grécia, mas que se concretizava com ele. Para ele, o diálogo é o centro de todas as disciplinas, pois transmite a sabedoria. Além disso, o pensamento teológico, tornou-se o único fundamento, ou melhor, a única essência de seus estudos. Isso não quer dizer que seja fideísta, pois ele não usou só da fé, mas também da razão, uma vez que para ele “a fé não elimina a razão, ao contrário, estimula a inteligência”. Ele tem como base o livro de Isaias onde diz que “SE NÃO TIVERDES FÉ, NÃO PODEREIS COMPREENDER” (Is 7,9).

Agostinho usou das doutrinas dos filósofos gregos, que vieram de Parmênides até Platão, passando por Plotino, para falar de um Transcendente, cujo sua forma é imutável e indivisível. Ele transformou a doutrina platônica no pensamento cristão. Segundo sua teoria, Deus é verdade presente no espírito humano, que uma vez descoberto, é percebido de forma mais perfeita e suprema, passando portanto, da idéia  externa para a interiorização do espírito, dando um sentido totalmente teológico.  Agostinho oferece provas da existência de Deus que vale a pena serem ressaltadas. A primeira é a concepção de um mundo perfeito, que já era conhecida pelos gregos. Pode-se perceber no livro “A cidade de Deus” pelas palavras, “deixando de lado inclusive o testemunho dos profetas, o próprio mundo, com sua ordenadíssima variedade [...] e feito por Deus, inefável e invisivelmente grande, inefável e invisivelmente belo”; a segunda é identificada como “Consensus gentium”, que é conhecida, também, pela antiguidade, ou pelos pagãos.O “Deus verdadeiro” que o executa como criador do universo; o terceiro é de Deus como ser supremo; e por último, um Deus amor capaz de preencher o vazio do espírito humano. Tais conceitos requerem o esvaziamento matafísico executado por Plotino, onde Deus como Transcendente, que mesmo destituído da forma física é complemento da alma e do corpo. Deus não sendo corpo, é substância, essência única e imutável.

Para Agostinho Deus é “Pai, Filho e Espírito Santo”. Uma igualdade absoluta, sem hierarquia ou acidente, pois, apesar de serem imutáveis, onde está um também se faz presente os outros, na mesma essência. O que antes era do externo para o interno, com o dogma da Trindade acontece o contrário,isto é, a fonte de todo bem e felicidade humana encontra-se em Deus, autor de todo bem. Assim como o entendimento humano é um só, sendo a imagem da Trindade , Eles também são um, sem separar sua essência. Quem se conhece, conhece a Deus.
  
A ANTROPOLOGIA AGOSTINIANA

“Que profundo mistério é o homem! E, no entanto, tu Senhor, conheces até o número de seus cabelos, que em ti não sofrem redução. E, entretanto, é mais fácil contar os seus cabelos do que as sensações e os moventes do seu coração”. (confissões de Santo Agostinho)


Com essas palavras, Agostinho explica o homem. Segundo ele, o problema do indivíduo não está nos cosmos, ou em um todo, mais no seu ego, como ser humano. Por isso é que ele afirma ser o protagonista de sua própria filosofia, isto é, “ele observa e é ao mesmo tempo observado”.

Enquanto os filósofos gregos, sobretudo Platão, afirmavam que a alma era prisioneira do corpo, sendo ela considerada perfeita e pertencente ao mundo das idéias, Agostinho dá um novo significado a essa teoria, baseado no conceito criacionista e no dogma da ressurreição, embora Plotino já desenvolvia essa idéia. Agostinho afirma que o homem é uma alma que faz uso do seu corpo, pois, os sentidos mostram o imediato e o particular, enquanto a alma aponta o universal, de forma pura em sua compreensão.

Para Agostinho, o homem, apesar de ser mortal e destrutivo, é capaz de atingir a verdade, não por si só, mais, pelo uso da razão que vai além dela mesma, e que não tem origem do próprio homem, e sim de Deus.

Segundo Agostinho, o homem conhecendo-se a si mesmo passa a amar-se, mesmo que se engane, pois, quem se engana é porque existe, e, uma vez existindo se ama, ou seja, apesar de o homem possuir limitações já mencionadas a cima,ele é a imagem e semelhança de Deus  Trindade. É nesse mergulho interno que ele encontra a verdade, o “Transcendente”. Essa descoberta é feita por meio do raciocínio iluminado pela fé. Isso não significa que o ser humano tem a verdade, mas que é preciso entrar em sintonia com a Transcendência para descobri-la, uma vez que, essa só pode ser encontrada quando o homem purifica a sua alma. Esta teoria já era defendida por Platão, mais foi cristianizada por Agostinho como “pureza de coração”, pois, o que faz o homem prisioneiro da matéria é o pecado, e esse faz o corpo dominar a alma, sendo necessário,  para se libertar, aderir-se à religião e as virtudes cristãs, como antídoto contra esse mal. Apenas deixar-se ser movido pela graça de Deus.

O homem sendo condenado a perdição, é recuperado pela graça divina. Agostinho apresenta ainda “as três faculdades da alma”: a memória, que é a essência de Deus Pai; a inteligência, que é a razão, ou revelação da verdade do Filho; e a vontade, que é a expressão humana do amor, moção do Espírito Santo. Para ele o mais importante é a vontade, pois ela constitui a pessoa humana, dando-lhe o livre e arbítrio, onde a pessoa por sua natureza tende a afastar-se de Deus. Esse afastamento significa buscar o não ser, ou seja o mal. Para Agostinho o mal não existe, e sim a ausência do bem supremo, Deus. Assim, o verdadeiro conhecimento não seria apreensão dos objetos externos ao sujeito, mas a descoberta de regras imutáveis, como o princípio ético segundo o qual é necessário fazer o bem e evitar o mal. E para isso esse indivíduo necessita da graça de Deus, pois só ela é capaz de libertar o homem de suas concupiscências. Essa teoria foi a responsável pela idéia de predestinação, ou seja, tal graça não é dada por Deus a todos, mas para seus eleitos, que conseqüentemente irão ser salvos. Aí está uma das contradições agostinianas, pois essas “verdades” não condiziam com a doutrina cristã da época, mais que foi acolhida por Calvino – 1509-1564, que abraçou tal idéia para a fundação de sua igreja, Calvinista. Agostinho conseguiu conciliar a teoria da graça com a predestinação. Segundo ele, “a graça e a liberdade não se excluem, antes se completam”.

Todas essas teorias mencionadas foram o cerne da antropologia agostiniana, quando ele escreveu “a cidade de Deus”, onde ele aborda, também, o pecado original fundamentado nos primórdios da criação humana, na visão bíblica “aqueles que aderirem a eles constroem a cidade humana, ou terrena[..] os eleitos pela graça divina edificam a cidade de Deus e vivem em bem-aventuranças eternas”. Ele aborda outros assuntos contidos  no Pentateuco, afim de estruturar melhor o cristianismo, e, baseando-se nas teorias de Plotino e Platão, criar um novo pensamento que só depois foi acatado pela igreja, tornando-se doutor da mesma.

CONCEITO DE MUNDO EM  AGOSTINHO


“De nihilo enim ate, non de te facta sunt, non de aliqua non tua vel quae antea fuerit, sed de concreata, id est simul a te creata matéria”
.

Para Agostinho Deus criou todas as coisas do nada, mas o único ser que tem a essência do criador é o homem, ademais foram criados pelo seu poder. Antes de tudo acontecer na forma de matéria, já existia no pensamento de Deus, pois sua vontade livre determina-se em si mesma, embora não contenha alma. Isso implica diferenças na qual Agostinho frisa “todos os seres são bons porque criados por Deus; e todos implicam uma certa imperfeição intrínseca porque feitos do nada”. Mais, se ele criou tudo do nada, implica uma questão inquietante, o tempo.

De fato, os únicos seres que vivem no tempo são os terrestres. Santo Agostinho explica que antes de o mundo e suas criaturas existissem, não havia tempo. Baseado no livro dos Gêneses, “no princípio criou Deus o céu a terá”, antes de tal início não havia tempo; ele começou a existir justamente a partir daí, pois o tempo de Deus é a eternidade. O tempo  continua sendo um enigma para os seres humanos, pois devido sua mutabilidade, isto é, ele é reduzido ao indivisível, está sempre a deixar um passado e partir para o futuro. Por isso é que as três dimensões do tempo resumem-se no momento de agora. Para enfrentar esse problema a cabo, Agostinho busca respostas na “distinção da alma”, ou seja, a única que pode medir o tempo, já que é impossível  que isso aconteça em si mesmo, é o pensamento, pois uma vez que o tempo está em movimento, tudo fica a penas no passado, e isso não pode ser medido, só percebido na forma de “presença psíquica”. O mesmo ocorre com o futuro, que ainda não existindo, já está na alma do homem. Contudo, além desse problema mencionado acima, existe o metafísico, isto é, Deus não criou a matéria desprovida das formas, pois, para essa existir precisaria da forma já concebida. Isso é o que chamamos de “matéria espiritual”. Ao contrário, Deus em sua criação não teria primeiro criado a luz e sim adentrado nas trevas.

Agostinho defende, também, a idéia  de que Deus ao criar todas as coisas deixou os “germes originais”  dos seres vivos. Por isso é que no mundo acontece  uma constante evolução. Isso, em sua filosofia chama-se “rationes seminales”, um movimento energético fazendo com que a terra sofra mudanças. Aí está a diferença da teoria do criacionismo, de Santo Agostinho, para a de Demiurgo de Platão, que era a teoria de fabricação do ser. Apesar de Platão já ter criado esta teoria, o problema da criação do mundo não foi resolvido pelos filósofos antigos.

Agostinho explica  a criação do mundo como algo tirado da própria essência de Deus. Sendo ele infinito, consegue criar tudo a partir do nada, enquanto o homem, ser finito, só pode gerar ou produzir a partis de algo.

Segundo o pensamento agostiniano, Deus ao criar o mundo do nada, criou também o tempo, que é ligado ao movimento, pois, antes não existia. Tese já defendida por Platão no timeu, mas que foi mais explícito  e ganhou fundamentos em Agostinho. “De paradigma da mente, passou-se  a ser pensamento de Deus”. Para ele deus além de criar, inseriu em tudo Semente, para que continuasse a sua obra. Ele diz também que por trás de algo visível está o mistério da invisibilidade criada por Deus baseado em Gêneses, ou seja, Deus criou e tudo evolui-se.

Nenhum dos filósofos chegou a provar tais teorias, a penas Agostinho, unindo a fé com a razão provou tal “verdade”.

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