O povo merece democracia?
*Fernando Coelho
Um mergulho, superficial, em qualquer estudo recente, mostra uma calamidade humana sem precedentes: nosso nível de elevação imoral chegou a proporções sufocantes. Há liberdade nos paises? Há governantes preparados? E onde está a democracia?
Se este fosse um artigo acadêmico, claro que citações, estudos, pesquisas e opiniões seriam complementares, até necessários. Mas não é. O que é fato é que para o povo, quase nada. Que o povo se lixe, é o que pensam acólitos e compadres de plantão em variado idioma.
Não há estátuas da democracia. Mas ela foi roubada? Roubada de quem? Roubada de nós, pobres mortais que navegamos nas águas turvas ainda de incertezas, entre discursos e teses, entre guerrilhas e guerras, entre países desafetos e desafetos dentro dos países.
Mas não há como evitar voltar milhares de passos atrás. Faz parte da alma subsidiária do conhecimento, rememorar. A Antiguidade clássica nos legou o surgimento da democracia. Atenas, na velha Grécia, seu berço, sua mãe, sua escola e seu maior exemplo.
Não era complicado definir a democracia. Foi gerada- não em uma incubadora latina-, como forma de governo para estampar em seus pórticos de largos ideais, a caracterização acabada da administração política dos interesses coletivos nas cidades-estados.
Claro que ela resistiu. Mas levando muita pedrada. Muito escorregão. Muita cotovelada no fígado. Muito palavrório de ditadores desequilibrados que passaram a vida ludibriando a gentalha. A democracia não tolera a ditadura. Nem tolera o totalitarismo.
Não vale a pena lembrar nem recorrer a grandes discursos que enalteceram a democracia. Nem aos infames textos de cordel enganoso que a subjugaram e a escamotearam em milhares de anos, em centenas de países e em todos os cantos do planeta.
Quando a democracia brasileira é ameaçada – e o é todo dia -, os guardas de plantão nem sequer imaginam que tão fundamental senhora começou a se desenvolver lá pelos lados da Península dos Bálcãs, na beirada do ocidente da Ásia Menor.
E isso lá vai interessar aos “iluminados” guias latino-americanos que se corrompem, que fecham jornais e calam a imprensa, que se apropriam das propriedades dos outros, que prendem, matam, mentem e ainda assim são autoridades?
E isso lá tem alguma importância para os “chefes do povo” que dominam países e regiões orientais do outro lado do mundo, usando Deus, usando religiões, usando pregações que lhes permitam o eterno poder, a eterna governança e a eterna lambança?
Está claríssimo que não. A democracia é o governo do povo. O objetivo da democracia é o povo. O seu bem, suas liberdades, a garantia de sua propriedade, de sua família, de suas opiniões, dos seus direitos e de sua palavra. Enfim, a democracia é para garantir a vida do povo.
Lamento dizer que não é bem assim. Na idade média, claro, o termo democracia caiu em desuso. Enferrujou. Era coisa do passado. Depois os povos do ocidente se engalfinharam em duas guerras miseráveis. Num morticínio sem precedentes nos atuais tempos.
Aí, alguém se lembrou, de novo, da democracia. Enxovalhada, emporcalhada, mutilada, de vestes esfarrapadas, ela ouviu e voltou. Vetusta, se recompôs pelas liberdades individuais, pela igualdade perante a Lei sem distinção de sexo, raça ou credo.
Todo mundo notou, aqui e acolá, que a democracia voltou. Trazendo nas mãos o direito ao voto, à educação e o direito incondicional, inconteste, inalienável ao livre exercício de qualquer trabalho ou profissão. É isso mesmo, ou estou enganado?
Estou certo. A democracia é isso. Mas todos os dias, nós todos, mudamos-lhe a severa e lúcida feição. Nós do mundo e nós brasileiros. Ora para acomodar uma corrupçãozinha doméstica, ora para beneficiar um grupo, ora para enganar um pouquinho, ora para transgredir o voto.
As democracias não se ajustam a interesses outros que não sejam aqueles oriundos e destinados ao povo. Mas o povo sabe disso? Não, não sabe. Finge que sabe, porque o povo finge. Porque há comissões especiais para auxiliar na criação de padrões de fingimento coletivo.
Quando não se compreende, de verdade, o sentido da democracia, dá nisso: ditadores defendendo estoques nucleares; ditadores “melhorando” prisões e ampliando suas dependências; ditadores criando leis para calar mulheres e minorias, ditadores verborrágicos.
Democracia é um bem comum. É isso? É. Mas isso permite que o povo, em sua compulsiva revolta interior, em seu despreparo presumido, em sua comicidade obtusa, eleja palhaços, homens sem honra, homens sem passado, homens sem educação e sem cultura?
Democracia é sabedoria. E não há sabedoria sem educação. E a educação é um indutor essencial da cultura, da civilidade e da cidadania. O povo brasileiro, se não sabe, precisa saber disso. Porque os governos do mundo sabem: se não há educação, manipula-se a democracia. E eles o fazem.
Um país analfabeto é um país sem dono. Um país sem educação é um pais-laboratório de leis. Um país com fome é um país sem esperança. E um país sem esperança é um país onde qualquer um pode fabricar democracia. Não aquela de Atenas, mas aquela pequena e cínica.
Os povos, quando nos preparamos para anular certas e indesejáveis fronteiras, precisam se convencer mais da solidariedade e que o bem comum é o que resta. Os grandes democratas sabem disso. Precisamos criar escolas para o futuro. E escolas de democracia. É a única receita.
Fernando Coelho é baiano de Conceição do Almeida radicado em São Paulo. Jornalista e poeta com 12 livros publicados tem marcante presença no jornalismo brasileiro. Trabalhou na Tv Globo de São Paulo e na Tv Cultura. Implantou e foi o diretor geral da Tv Legislativa, da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e da Câmara de Vereadores de São Paulo. Foi diretor de promoção e comunicação do IPHAN. Atualmente, é o diretor geral da Companhia de Comunicação, empresa especializada em marketing e assessoria de imprensa.
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