Odisseia – Uma análise
Analisado o livro
Odisséia, que Homero apresenta em forma de poemas mitológicos, mas que por trás
há uma realidade racional, nota-se um importante papel dentro da compreensão do
ser “Homem”. Quem é este ser pensante de contínua viagem intelectual e de buscas
acerca de uma verdadeira identidade, que muitas vezes confusa, é capaz de se
negar e tornar-se irracional, quando para sua sobrevivência? Pode-se usar como
ponto de partida o que Sócrates discute em sua problemática acerca da
descoberta da essência do homem: “Conhece-te a ti mesmo” (REALE, 1990, p. 88). O
homem, por ser o único animal capaz de raciocinar, quando para defender seus
próprios interesses, faz mal uso de sua razão, torna-se o pior de todos os
animais. Ele está em contínua busca de si mesmo, de respostas para seus
questionamentos diante da realidade que o rodeia.
Quando Telêmaco sai de
Ítaca em busca de notícias de Odisseu, seu pai, quer dar um sentido ao que
antes era de riqueza e organização incalculável e que naquele momento encontrava
em crise (Odisséia, p.14). Sair de Ítaca pode-se pensar no homem que sai de sua
ignorância, do seu comodismo intelectual e da sua forma, muitas vezes,
irracional de pensar e agir e vai ao encontro do saber, e, filosoficamente
falando, da “alétheia”, verdade. Em Telêmaco se ver, por um lado um
jovem ajuizado, desejoso de fazer algo para mudar a realidade ali apresentada
devido a ausência de Odisseu; por outro lado um menino incapaz de tomar se quer
suas próprias decisões. Que necessita da ajuda dos deuses. Um exemplo disto é a
intervenção da deusa Palas Atenas que está sempre à sua frente.
O personagem Odisseu
mostra-se um mortal, mas que é admirado pelos deuses pela sua inteligência,
astúcia e dedicação ao divino. E isto é percebível quando a deusa Atenas
suplica a Zeus, e ele responde: “minha filha, que palavras te escapam à beira
dos dentes! Como pudera eu ainda esquecer o divino Odisseu, que supera os
imortais na inteligência e na oferta de vítimas aos deuses imortais habitantes
da vastidão dos céus?” (Odisséia, p. 10). Ao mesmo tempo em que se mostra
corajoso, sábio e de boa fama, também para os mortais, ele se apresenta
astucioso para o mal. No seu diálogo com Polifêmo, Odisseu planeja como vencê-lo:
“Planejei, em meu altivo coração, aproximar-me, puxar de junto da coxa o gládio
aguçado e golpeá-lo no peito [...] tateando o lugar com a mão”. (Odisséia, p.
107)”.
Polifêmo era um homem
forte, até mais que os próprios deuses, mas que vivia em uma caverna “sem
justiça e sem leis” (Odisséia, p. 105). Apenas uma coisa tornara Odisseu mais
forte que o Ciclope, o uso da razão. O homem que vive em uma caverna não é
capaz de ver além da imagem, e, jamais se conhecerá, se dela não se libertar,
pois a ignorância não o permite. Este não consegue se relacionar ou dialogar,
pois dentro dele não há argumentos para se quer defender seus direitos.
Não possuindo esta ferramenta do intelecto,
resta apenas devorar, tal como fez o Ciclope. Neste contexto, mostra-se uma
problemática, que é perceber a diferença entre aquele que usa da razão e da
dialética e o que não exerce tal função, pois fazer esta distinção é um
trabalho árduo, uma vez que a razão muitas vezes, é confusa. Ou seja, a razão
que estabelece critérios de ordem, moral e ética para o bem comum, é a mesma
razão que maquina o mal, destrói e mata. Volta-se a pergunta: será que o ser
pensante se conhece como imagina? Percebe-se, principalmente no homem
contemporâneo, o vazio que há, na busca de sim mesmo. Vazio este que o leva
muitas vezes a recorrer a deuses modernos, que na procura do “EU”, ou sentido
da vida, tenta se preencher de coisas às vezes insignificante, que tem como
conseqüência a depressão, a ansiedade e o aumento de vazio interior. Nesta
intensa busca de si fora de si mesmo, continua a se questionar.
Monstros, deuses, e é
mister destacar a ninfa Calipso, que prendeu Odisseu na ilha, são estas
inquietações que acorrenta o homem em sua caverna, paralisado e ilhado-o.
Somente a razão pura e o auto conhecimento pode libertar o homem. Dizia
Sócrates, “o homem é a sua alma”. (REALE, 1990, p. 88). A alma distingue o
homem de qualquer outra coisa, e, sem esta consciência de personalidade moral e
intelectual o homem jamais se conhecerá. Isto significa que conhecer-se é
conhecer sua própria alma (inteligência). E cuidar da alma é uma virtude. Ao
contrario, com tantas evoluções, o homem, com certeza voltará às cavernas.
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