domingo, 15 de julho de 2012


 Odisseia – Uma análise

Analisado o livro Odisséia, que Homero apresenta em forma de poemas mitológicos, mas que por trás há uma realidade racional, nota-se um importante papel dentro da compreensão do ser “Homem”. Quem é este ser pensante de contínua viagem intelectual e de buscas acerca de uma verdadeira identidade, que muitas vezes confusa, é capaz de se negar e tornar-se irracional, quando para sua sobrevivência? Pode-se usar como ponto de partida o que Sócrates discute em sua problemática acerca da descoberta da essência do homem: “Conhece-te a ti mesmo” (REALE, 1990, p. 88). O homem, por ser o único animal capaz de raciocinar, quando para defender seus próprios interesses, faz mal uso de sua razão, torna-se o pior de todos os animais. Ele está em contínua busca de si mesmo, de respostas para seus questionamentos diante da realidade que o rodeia.
           
Quando Telêmaco sai de Ítaca em busca de notícias de Odisseu, seu pai, quer dar um sentido ao que antes era de riqueza e organização incalculável e que naquele momento encontrava em crise (Odisséia, p.14). Sair de Ítaca pode-se pensar no homem que sai de sua ignorância, do seu comodismo intelectual e da sua forma, muitas vezes, irracional de pensar e agir e vai ao encontro do saber, e, filosoficamente falando, da “alétheia”, verdade. Em Telêmaco se ver, por um lado um jovem ajuizado, desejoso de fazer algo para mudar a realidade ali apresentada devido a ausência de Odisseu; por outro lado um menino incapaz de tomar se quer suas próprias decisões. Que necessita da ajuda dos deuses. Um exemplo disto é a intervenção da deusa Palas Atenas que está sempre à sua frente.

O personagem Odisseu mostra-se um mortal, mas que é admirado pelos deuses pela sua inteligência, astúcia e dedicação ao divino. E isto é percebível quando a deusa Atenas suplica a Zeus, e ele responde: “minha filha, que palavras te escapam à beira dos dentes! Como pudera eu ainda esquecer o divino Odisseu, que supera os imortais na inteligência e na oferta de vítimas aos deuses imortais habitantes da vastidão dos céus?” (Odisséia, p. 10). Ao mesmo tempo em que se mostra corajoso, sábio e de boa fama, também para os mortais, ele se apresenta astucioso para o mal. No seu diálogo com Polifêmo, Odisseu planeja como vencê-lo: “Planejei, em meu altivo coração, aproximar-me, puxar de junto da coxa o gládio aguçado e golpeá-lo no peito [...] tateando o lugar com a mão”. (Odisséia, p. 107)”.

Polifêmo era um homem forte, até mais que os próprios deuses, mas que vivia em uma caverna “sem justiça e sem leis” (Odisséia, p. 105). Apenas uma coisa tornara Odisseu mais forte que o Ciclope, o uso da razão. O homem que vive em uma caverna não é capaz de ver além da imagem, e, jamais se conhecerá, se dela não se libertar, pois a ignorância não o permite. Este não consegue se relacionar ou dialogar, pois dentro dele não há argumentos para se quer defender seus direitos.

 Não possuindo esta ferramenta do intelecto, resta apenas devorar, tal como fez o Ciclope. Neste contexto, mostra-se uma problemática, que é perceber a diferença entre aquele que usa da razão e da dialética e o que não exerce tal função, pois fazer esta distinção é um trabalho árduo, uma vez que a razão muitas vezes, é confusa. Ou seja, a razão que estabelece critérios de ordem, moral e ética para o bem comum, é a mesma razão que maquina o mal, destrói e mata. Volta-se a pergunta: será que o ser pensante se conhece como imagina? Percebe-se, principalmente no homem contemporâneo, o vazio que há, na busca de sim mesmo. Vazio este que o leva muitas vezes a recorrer a deuses modernos, que na procura do “EU”, ou sentido da vida, tenta se preencher de coisas às vezes insignificante, que tem como conseqüência a depressão, a ansiedade e o aumento de vazio interior. Nesta intensa busca de si fora de si mesmo, continua a se questionar.

Monstros, deuses, e é mister destacar a ninfa Calipso, que prendeu Odisseu na ilha, são estas inquietações que acorrenta o homem em sua caverna, paralisado e ilhado-o. Somente a razão pura e o auto conhecimento pode libertar o homem. Dizia Sócrates, “o homem é a sua alma”. (REALE, 1990, p. 88). A alma distingue o homem de qualquer outra coisa, e, sem esta consciência de personalidade moral e intelectual o homem jamais se conhecerá. Isto significa que conhecer-se é conhecer sua própria alma (inteligência). E cuidar da alma é uma virtude. Ao contrario, com tantas evoluções, o homem, com certeza voltará às cavernas.

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