sábado, 14 de julho de 2012

TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO (TCC)


CENTRO UNIVERSITÁRIO SÃO CAMILO

Edriano de Santana da Cruz


O CONCEITO DE LIBERDADE NA PERSPECTIVA PERSONALISTA DE MOUNIER









São Paulo, 19 de Junho de 2012 





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Professor Orientador Dr. Benedito Eliseu Leite Cintra




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Professor Examinador Thiago Calçado





Agradecimentos

            Sei em quem depositei minha confiança*

       Agradeço a Deus pelo Dom da vida, pela força e coragem que Ele me concede a cada dia.  Aos meus pais, Antonio e Claret, que me deram a vida; a meus tios, Áurea e João Lima; a minha irmã Claudia e ao meu cunhado, Wagner, que muito me ajudou, de forma financeira, nos dois primeiros semestres; aos demais irmãos, Maria, Marília, Antonio, Kelly e aos demais familiares, que acreditaram no meu trabalho e na minha capacidade, colaborando e incentivando nos meus momentos difíceis.
      Ao meu amigo, padre Gutenberg, que me indicou o curso de filosofia, com certeza sem ele eu não teria chegado até aqui.
      Aos professores do Centro Universitário São Camilo, de maneira especial o Profº Dr. Benedito Elizeu Leite Cintra, meu orientador, pelo trabalho e dedicação, tanto no âmbito intelectual e profissional, quanto no humano, formando-me para a vida. Aos meus colegas de faculdade, em especial, Daniela Módena, Márcia Chagas e Keisle Ventura que muito colaboraram e me incentivaram para que eu jamais desistisse.
      Aos meus companheiros de trabalho da Escola Nicéia Albarello Ferrari. A todos aqueles que, de certa forma, colaboraram para o meu crescimento intelectual e humano.
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* Bíblia de Jerusalém, Epístola a Timóteo, 1,12.


CRUZ, Edriano de Santana. O conceito de liberdade na perspectiva personalista de Mounier. 2012. 40 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura Plena em Filosofia) – Centro Universitário São Camilo, São Paulo, 2012.



Neste projeto pretende-se abordar o conceito de liberdade na perspectiva personalista de Emmanuel Mounier. O termo liberdade tem sido discutido ao longo da história. Há diversas teorias e inúmeras formas de entendê-lo. Todas as ciências buscam, de alguma forma, entende-lo e direcioná-lo a um determinado fator, seja econômico, cultural ou biológico. Neste contexto, surge uma questão em pauta: é possível uma liberdade interior em um estado econômico injusto? Segundo o pensamento de Mounier, para se falar em liberdade é necessário considerar vários aspectos, seja no campo material, seja no campo espiritual, uma vez que o homem se constitui de matéria e espírito, “num todo indissociável”, e este se dá pela encarnação. Assim, a liberdade acontece pelo engajamento, ou seja, no comprometimento do “eu” com o “outro”. O objetivo deste trabalho é mostrar, em Mounier, a insuficiência do marxismo e da burguesia espiritualista diante da desordem estabelecida de seu tempo, e buscar entender a liberdade no personalismo filosófico cristão.

Palavras-chave: Personalismo. Matéria. Espírito. Encarnação. Liberdade.



CRUZ, Edriano de Santana. The concept of freedom in the perspective of personalist Mounier. 2012. 40 f. End of Course Work (Graduation) – Centro Universitário São Camilo, São Paulo, 2012.

This project is intended to address the concept of freedom in perspective the personalist of Emmanuel Mounier. The term freedom has been discussed throughout history. There are several theories and countless ways to understand it. All sciences seek to somehow understand and direct it to a given factor, be economical, cultural or biological. In this context, there is a question on the agenda: can an inner freedom in an unfair economic state? According to the thought of Mounier, to talk on freedom is necessary to consider various aspects, whether the field is on the material, spiritual field, since the man is constituted of matter and spirit, "indivisible", and this is accomplished by the incarnation. Thus, the freedom is by engagement, i.e. in the compromise of the "I" with the "other." The objective of this paper is to show the inadequacy of Marxism Mounier, and spiritualist bourgeoisie in the face of established disorder of his time. Soon after we strive to understand freedom in Christian philosophical personalism.

Keywords: Personalism. Matter. Spirit.  Incarnation. Freedon.




1
INTRODUÇÃO


      A liberdade sempre foi, para nós, um dos principais fatores para se viver a felicidade. Afinal, o que seria o homem sem a liberdade? Talvez, um mero objeto no mundo. Ao iniciar o curso de filosofia, percebendo a sociedade, e a história, busquei uma reflexão mais aprofundada acerca deste tema, uma vez que muitos falam de liberdade, mas na realidade, poucos são os que, de fato, percebem o quão é importante, não somente pensá-la, mas, sobretudo, vivê-la. Neste contexto, o presente trabalho tem como proposta abordar o conceito de liberdade na perspectiva do personalismo de Emmanuel Mounier.
A liberdade tem sido tema de discussão, em todo o mundo, ao longo da história. Há diversas teorias e inúmeras formas de se buscar entendê-la. A política, a ciência e, sobretudo, a religião, busca, de alguma forma, direcioná-la a um determinado fator, seja ele econômico, social, psicológico, cultural ou até mesmo biológico.
No campo da filosofia, há os humanistas, existencialista, espiritualistas e empiristas, que buscam uma melhor definição acerca deste tema. Contudo, somente Emmanuel Mounier, nos foi de interesse para este trabalho. Primeiro porque ele é o único filósofo a buscar uma reflexão mais aprofundada a partir do “personalismo” [1]. Em segundo lugar, por ele ter sido, não somente um filósofo técnico, teórico, mas, acima de tudo, um homem engajado na realidade humana de seu tempo.
Pode-se dizer que o personalismo mounieriano se atualiza no nosso tempo, uma vez que o homem continua na busca pela sua liberdade, seja ela política, socioeconômica, e, sobretudo, espiritual. Neste sentido, o problema da liberdade, ainda continua sendo motivo de discussão em todo o mundo.
Na tentativa de uma melhor definição do que seja a liberdade humana, a crítica que Mounier faz àqueles que, de alguma forma, querem coisificá-la se atualiza. E o filósofo os critica, justamente, porque para ele, “a liberdade é afirmação de pessoa, vive-se, não se vê” (MOUNIER, 2004, p. 43) [2].
 Neste contexto, para que o homem seja considerado livre é de suma necessidade uma “libertação”, tanto no aspecto da subjetividade, ou, espiritual, quanto no campo da objetividade, quer dizer, material. Neste contexto, surge a questão em pauta: é possível uma liberdade espiritual em um estado econômico e social injusto?
Na busca de um estudo mais coerente sobre a questão proposta, e, a partir do entendimento acerca do personalismo mounieriano, poderemos partir das seguintes questões: Até que ponto o socialismo marxista é ou não o suficiente no processo de libertação humana, e até que ponto, também, o homem pode ser considerado livre? Existe uma liberdade absoluta, ou esta é condicionada? O que fazer para que a sociedade tenha, no mínimo, meios suficientes para ser considerado livre? Após estas discussões, procuraremos uma melhor definição de liberdade, na filosofia personalista de Emmanuel Mounier.
Para melhor aprofundarmos no entendimento destas questões, partiremos da crítica do filósofo ao capitalismo, o qual ele chama de “desordem estabelecida”, e sua crítica ao marxismo e ao espiritualismo cristão, que ele considera como medidas “insuficientes” no processo de libertação humana (Idem, p. 12). Ou seja, para que haja liberdade não basta uma revolução materialista, ou também, somente espiritualista, uma vez que uma está entrelaçada a outra.


2
CAPÍTULO PRIMEIRO
O HOMEM E A LIBERDADE


2.1 A Filosofia personalista: o homem engajado na ação ecumênica
Para iniciarmos a nossa discussão acerca da liberdade em Mounier, faz-se necessário uma melhor definição do que seja o personalismo. O personalismo, que outrora era sinônimo de egocentrismo, mas que, em Mounier, passou a significar o “universo pessoal da pessoa”, não pode ser definido como objeto externo, uma vez que o homem não é um objeto a ser definido, ou seja, pronto e acabado, mas, como um “ser” “engajado”, pela “encarnação” [3]. Assim, o filósofo, a partir do contexto de sua época e de sua própria vida, buscou entender o homem na sua totalidade.
Na vida e na obra de Mounier, dois importantes aspectos marcaram a história de sua existência: A primeira foi a fundação da revista Espírit,[4] que marcou profundamente a sua época. A segunda foi ele ter se recusado a trabalhar em universidade para, dessa forma, se desvincular da tradição filosófica europeia.
 A filosofia personalista de Mounier não é uma filosofia metódica, que busca somente refletir e comunicar. Não obstante ele mesmo afirme que “o pensamento necessita de ordem” (MOUNIER, 2004, p. 5), para o filósofo Francês, a filosofia tradicional era “artificial”, pois se distanciava da vida e da existência humana. Por isso, ele criticou os jovens estudantes de filosofia de sua época, pois se dedicavam apenas com o seu desenvolvimento acadêmico, sem, contudo, se importar com os problemas que afetava a sociedade. Por essa razão, ele se dedicou ao pensamento voltado à interioridade e à realidade humana.
Neste contexto, afirma Mounier: ‘Sou incapaz da atitude objetiva desses moços que se colocam diante dos problemas como diante de uma peça de anatomia’(MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 19).
A sua filosofia é, sobretudo, uma vivencia de ação, que busca entender e respeitar o homem nos mais diversos pensamentos, e nas mais diversas culturas. Por isso, pode-se dizer que sua filosofia é “universal”.  
Porque define estruturas, o personalismo é uma filosofia, não é apenas uma atitude. É uma filosofia, não é um sistema [...] O personalismo é uma filosofia e não apenas um sistema [...] Por isso, e embora por comodidades falemos do personalismo, preferiríamos falar dos personalismos, respeitar seus diversos caminhos (MOUNIER, 2004, p. 5).

Mounier entendia a filosofia tradicional como aquela que se distanciava da realidade atual, “um pensamento artificial, bastante desligado da realidade existencial” (MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 19), e por isso, ele fora uma pessoa “engajada” na realidade da “miséria humana”, se dedicando a ser, não somente um pensador, mas, sobretudo, um filósofo de ação engajada, e como afirma Joaquim Severino, com “engajamento de pedagogia profética” (Idem, p.23). Jovem humilde, nascido de uma família modesta, na cidade de Grenoble, França, no dia 1º de abril de 1905, Mounier se considerava “um montanhês” [5] (MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 1).
Homem, de meditação, oração e, acima de tudo, de ação, Mounier sempre buscou na religião Cristã Católica, na qual sua família o educou, a coragem e a audácia para enfrentar seus sofrimentos, desde o da pobreza, até mesmo de sua saúde[6], e, a partir da experiência, encontrar a sua verdadeira “vocação”. Ou seja, unir-se ao sofrimento do outro, que viver a experiência da pobreza e da miséria buscando, dessa forma, a verdadeira liberdade, que para ele consiste em viver a dignidade, o amor e a justiça social.

Toda a sua vida fora dedicada apenas na luta pela “vida”, ou seja, entender o sofrimento e a miséria material e espiritual do outro, à qual ele chama de “batismo de fogo da miséria humana” (Ibidem p. 3), e se colocar a serviço do diálogo e da política – embora ele não seja um político partidário, em um mundo no qual ele considerava se encontrar em “crise” econômica e principalmente, espiritual, o mundo Ocidental. Mounier faleceu vítima de um colapso cardíaco, em 22 de março de 1950, com apenas 45 anos de idade (MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 7).
Segundo Mounier, a política de sua época era considerada errônea, “devoradora dos homens” e por isso, necessitava de uma “reforma”, uma vez que tal crise não era apenas material, mas, sobretudo, espiritual (MOUNIER apud MOIX, p. 16).
Assim sendo, Emmanuel Mounier, foi, em primeira instância, um cristão autêntico, contudo, nunca perdeu a sua visão, da ação filosófica e sociopolítica de seu tempo. Homem da práxis, preocupado com a sociedade, sempre esteve disposto a enfrentar todas as “correntes” contrárias, sem jamais perder a sua fé. Neste contexto pode-se afirmar que este filósofo cristão foi um homem de paradoxo. Influenciado pelo seu mestre e amigo Péguy[7], sempre buscou um personalismo de ação a partir da “existência engajada”.
O personalismo mounieriano propõe um conceito de liberdade a partir da necessidade de o homem sair de si mesmo, indo ao encontro do outro. Mas, para que isso aconteça é necessária uma conversão íntima, e a partir desta, este “novo homem” se integre na sociedade, como uma forma de engajamento, com um único objetivo: a liberdade. Como falara o filósofo: “Só liberta o mundo e os homens aquele que primeiramente se libertou de si próprio” (MOUNIER, 2004, P. 24).
2.2 A Desordem Estabelecida do século XX: Capitalismo e Individualismo

Para falarmos da desordem estabelecida segundo o pensamento mounieriano, é importante entendermos em que contexto de época Mounier atuou sobre a liberdade no contexto personalista. Foi na Europa, do século XX, quando de um lado se tinha o fascismo, que a dominava; por outro lado a guerra da Espanha; a primeira e a segunda guerra mundial que devastou todo o continente europeu. Em 1929 aconteceu uma crise econômica que abalou todo o mundo. Estes conjuntos de fatores, para Mounier, foi o que levou a Europa, em 1950, a uma “crise” não somente econômica e política, mas, sobretudo, espiritual.
Para o filósofo cristão, o sistema capitalista não recuperara de forma satisfatória o Ocidente, pois este não garantia a total estabilidade sociopolítica, e espiritual, por tudo isso, Mounier se mostra inquieto, diante de tais acontecimentos, e foi em 1949 que ele escreveu “O personalismo”.
Entre tantos outros, o maior problema que Mounier via no capitalismo era, justamente, o fato de ele criar uma “ordem” econômica fora da pessoa humana, ou seja, desencarnada. Tem-se, por um lado o capitalismo que gera a opressão e a morte do homem, por outro lado se tem o individualismo burguês, que Mounier considera como “decadência do indivíduo”, pois o isola da comunidade e também, por sua vez, separa o homem material do espiritual. Nas palavras de Moix, Mounier afirma:
Adversário de uma concepção humana do trabalho, da liberdade e da propriedade pessoal, o capitalismo luta, de fato, contra as necessidades essenciais do homem, materiais e espirituais (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 71).

Pode-se, neste sentido, afirmar que a tarefa do movimento personalista é assinalar os elementos éticos que possam favorecer esta experiência de ser humano enquanto pessoa, uma vez o ser pensante é completo de corpo e alma, este tem o seu valor enquanto matéria e espírito, numa união indissociável.

Assim sendo, Mounier pensou numa forma literalmente oposta ao capitalismo, ou seja, se no capitalismo a vida espiritual do homem é submetida à cultura do consumismo, deste consumismo à produção e da produção ao lucro, Mounier propõe que seja o oposto:
Uma economia personalista regula [...] o lucro sobre o serviço prestado na produção, a produção sobre o consumo, e o consumo sobre uma ética das necessidades humanas recolocadas nas perspectivas totais da pessoa (MOUNIER apud MOIX, 1968, p 71).

Mounier faz, também, uma crítica ao sistema burguês de sua época. O filósofo vê tal sistema, como aquele que somente cria fatores que causam, mais ainda, a desordem. Quer dizer, enquanto a pequena classe burguesa, que de todas as formas, goza de privilégios e bem estar econômico uma grande massa vive na miséria, trabalhando apenas para sobreviver. Neste sentido, a crise não é somente econômica, mas também política, e a política eram vista, por Mounier, como um jogo marcado pelos interesses pessoais, deixando, dessa maneira de ser uma “vocação”.
Em face ao “reino do egoísmo” burguês, nasce o fascismo e o nazismo, afirma Mounier, fortalecendo mais ainda a crise europeia ocidental. Esta por sua vez, gera um sistema de morte. Esta crise se dá pelo individualismo que, causa a desordem, tanto material, quanto espiritual. Neste sentido, Mounier vê o individualismo burguês como “a raiz do mal” (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 61).
O capitalismo, afirma o filósofo, gera a desordem econômica e também da desordem espiritual, uma vez que o corpo é a causa das guerras e do ódio, por conta da ganância. Assim, a crítica de Mounier vai além da crítica do Marx.
Do capitalismo nasce a opressão da parte dos ricos para com os mais pobres e miseráveis. Quer dizer, o homem como produto, uma grande concentração do lucro nas mãos de alguns, enquanto uma grande massa de miseráveis sobrevive apenas do trabalho. Dessa forma, o mundo, no pensamento mounieriano, se divide entre ricos, burgueses e políticos (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 64).


Entre várias críticas, Mounier se ocupou à questão da “desordem espiritual” que o sistema capitalista provocou. Para ele, o capitalismo é o grande inimigo do homem enquanto pessoa, pois gera apenas a morte visando somente o lucro:
Uma opressão interior da própria vida pessoal pelo esmagamento de todas as espontaneidades, de todos os valores e de todas as generosidades humanas ao peso dos valores do dinheiro e da consideração. Enfim, a impossibilidade, para a maior parte dos oprimidos, de acesso a uma vida mediocremente humana, e com mais forte razão, de acesso a uma vida interior[8] (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 69).


2.3 A desordem espiritual e o nascimento da revista Espirit
Mounier percebe que o cristianismo, também, passara a viver o abandono dos valores espirituais, e todos estes fatores fortaleceu mais ainda a desordem, e por isso ele lutou com todas as forças contra esta corrente. Sua crítica ao cristianismo, neste caso aos burgueses cristãos, dava a entender que, a maioria dos cristãos se corrompera, visando somente o lucro, não tendo mais como ponto central de suas vidas o serviço à Deus. Em consequência, houve uma degradação dos valores espirituais que serviu apenas para encobrir, mais ainda, tal desordem.
Nesta dupla vivência entre o deus dinheiro e o Deus cristão, cultivaram apenas a moralidade, esquecendo o mais importante, ou seja, a causa social, a causa da vida. Assim sendo, parece haver, para Mounier, um grande abismo entre a realidade da miséria humana e as “ideias” cristãs de sua época. Esses foram os fatores mais graves que, de certa forma, contribuíram, ainda mais, para a crise espiritual.
O dinheiro tornou-se o único sinal da grandeza e do poder, a linguagem de um mundo vazio de espiritualidade. O mestre incontestável deste ‘mundo sem alma’ (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 64).
Mounier vê a ganância do homem pelo dinheiro como uma “dupla tirania”, ou seja, dois elementos inimigos da vida espiritual, que são a riqueza e a miséria.
 Neste contexto, o ”capitalismo burguês” instala no interior do homem a ganância que, por sua vez, é o principal fator das “lutas de classes”.
Uma como a outra esterilidade dos verdadeiros esplendores humanos. O miserável não pensa mais nas transfigurações da sua alma, da sua vida, do mundo, o novo rico se satisfaz com a aparência superficial, fácil e enganadora. Ao mesmo tempo vemos fugir, a cada dia, a liberdade necessária para uma contemplação desinteressada do universo (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 65).

A partir dos problemas apresentados, Mounier decide, por assim dizer, “libertar” o cristianismo, Igreja católica, dessa desordem, criando a revista “Espirit”, buscando conscientizar os cristãos a uma nova maneira de pensar, ou seja, a uma nova forma de revolução em favor da “verdade”, combatendo, dessa forma a “mentira do capitalismo”, que ilude os homens.
Mounier vê o capitalismo como um enganador dos homens, pois os iludem em nome de uma civilização, enquanto apenas visa o lucro. O capital afirma que está ao lado da cultura da religião, mas na realidade não passa de um “inimigo direto dos valores”. “Do direito à responsabilidade, o capitalismo fez um direito ao lucro e à impunidade” (MOUNIER apud MOIX, 1968, p.68). No primeiro editorial de Espirit, Mounier critica o “repouso aparente” que para ele é visto, em todo o Ocidente, como superação da crise (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 61).
 Seguindo o seu mestre e amigo Péguy, Mounier se lança contra a “mentira” do capitalismo, para combater o que ele chama de “mitos internacionais”, denunciando os escândalos dos capitalistas, o desemprego que até então assolava a Europa e a corrupção da parte da imprensa e também dos cristãos e, principalmente, a opressão para com a pessoa humana. Sua luta consiste em, por meio da comunicação, libertar o homem, sobretudo os cristãos, do “sono”, levando-os ao reconhecimento dos valores espirituais até então perdidos. Neste contexto, para Mounier, há um mal entendido acerca de tais crises, uma vez que o homem não consegue ter consciência do estado no qual se encontra, ou seja, um estado de barbárie.



3
CAPÍTULO SEGUNDO
A CRÍTICA DE MOUNIER


3.1 A falsa libertação: crítica ao marxismo e ao espiritualismo

Mounier, na busca de uma “Libertação” econômica e, principalmente, espiritual, apoiou-se no personalismo, como ponto primordial na edificação de uma sociedade mais justa. Para o filósofo existencialista cristão, é preciso que o homem tome consciência de sua missão que é lutar pela liberdade, tanto espiritual, quanto material. Ou seja, não basta apenas criar meios de libertação a partir da revolução em massa, como pensara os marxistas. Não basta, somente, como pensara os espiritualistas, buscar uma liberdade interior, por meio da moral e dos costumes, esquecendo-se dos meios econômicos e sociais. É necessário que matéria e espírito estejam em unidade no processo libertador. Esta unidade se faz num processo, também, de unidade do homem com o outro. Somente pelo engajamento da pessoa humana pode-se falar no “reino da liberdade”.
Neste contexto, o filósofo levantou o problema e a importância do “engajamento do cristão na construção da cidade humana” (MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 16). Por isso, seu trabalho extenso partira com maior foco à “metafísica da pessoa”. O homem, segundo o filósofo, não é um objeto e por isso não pode ser tratado como tal. Sua crítica, também é aos modernos “espiritualismos” que separa o homem em duas substancias independentes, ou seja, entre matéria e espírito.
 No personalismo cristão de Mounier, “o homem é corpo exatamente como é espírito, é integralmente ‘corpo’ e é integralmente ‘espírito’”, ou seja, o corpo e a alma são indissolúveis (MOUNIER, 1949, p. 14).
Sendo assim, uma vez que este homem não é objeto condicionado à natureza, o problema não é somente material, e por isso, não pode ser visto apenas no ponto de vista econômico. Deve-se aqui, entender, que por participar dessas duas substâncias, matéria e espírito, faz-se necessário, uma revolução, acima de tudo, espiritual. Contudo, quando se fala em personalismo mounieriano, não se deve entender como um “espiritualismo”, uma vez que o comportamento humano é dominado por situações, tanto biológicas, quanto econômicas.
Neste contexto, para que haja uma libertação é necessário considerar o homem em sua totalidade, ou seja, corpo material e espírito:
Há muito tempo, sem dúvida desde que o homem é homem, que numerosos indivíduos e vastos movimentos tentam quebrar essa escravidão; só ou em grupo, o homem atinge num só lance os cumes da humanidade, antes de retomar lentamente as suas tentativas de aproximação. Mas o universo pessoal não existe ainda senão em linhas individuais e coletivas como promessa realizar. A sua progressiva conquista é a história do homem (MOUNIER, 1949, p. 17).

Percebe-se que a crítica de Mounier é direcionada tanto aos espiritualistas, quanto aos materialistas, pois, segundo ele, ambos apresentam uma forma insuficiente de libertação. De um lado se tem os espiritualistas e moralistas, que, na sua impotência, “desprezam o jugo do biológico e do econômico” (MOUNIER, 1949, p. 17), ou seja, os moralistas, espiritualistas acreditavam apenas na crise de valores, dos costumes. Assim, para estes, mudando o homem, muda-se, automaticamente a sociedade.
Por outro lado se tem o marxismo, que prega a necessidade de um movimento econômico e social no processo de libertação humana. Mounier não nega a importância do marxismo como lugar central no pensamento contemporâneo, contudo, sua crítica não é diretamente a Marx, pois este pensara numa revolução dialética, e para Mounier, o cristianismo se apropriara deste pensamento para criticar o “falso espiritualismo”, mas sua crítica foi aos seus “discípulos”, que de certa forma, deturparam o pensamento de Marx.
Nas palavras de Moix, Mounier criticou o marxismo, pois este vira o espiritual como um “produto das condições sociais e econômicas” (Idem, p. 242). Neste contexto, para o filósofo francês, o marxismo, visava apenas o desenvolvimento econômico, rejeitando, por assim dizer, o desenvolvimento espiritual, acreditando apenas no poder coletivo como essencial no processo de libertação.
Espírito, vida interior, Deus, são ideais mistificados nos quais o homem, espoliado pelo capitalismo, se evade, fugindo, assim, do seu destino concreto e desviando-se da consciência revolucionária de sua opressão. Assim, o marxismo recusa não somente o cristianismo, mas toda e qualquer forma de realismo espiritual (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 242).
Neste contexto Mounier é literalmente oposto ao marxismo, pois embora este, também, combata a alienação ideológica, recusa qualquer forma espiritual, e neste caso, o marxismo não vê o homem na sua totalidade, ou seja, matéria e espírito, mas apenas no âmbito materialista. No livro “Manifeste” Mounier escrevera sobre o marxismo: “Não reserva lugar algum na sua visão ou na sua organização do mundo a esta forma última da existência espiritual que é a pessoa, e aos seus valores próprios: a liberdade e o amor” [9] (Idem).
 Neste sentido, diferentemente do personalismo, que visa o homem na sua totalidade, corpo e espírito, e por isso para que este seja livre são necessárias as duas formas de libertação, o marxismo visa, na concepção de Mounier, a libertação humana de duas formas distintas:
 “pelo ateísmo”, que recusa qualquer visão “espiritualista”, ou pelo trabalho, ou seja, “esforço industrial”, pela qual o homem “transforma a natureza” (Ibidem). Neste sentido, para Mounier nesta liberdade não há “evolução humana”, e seria, dessa forma, uma “sociedade sem classe” [10].
Assim sendo, para os marxistas, a mudança social está relacionada apenas a mudança econômica. Não obstante os marxistas pensem somente no campo material, e isto seria, para Mounier, uma crença apenas na matéria, o filósofo Francês concorde em alguns pontos com o pensamento, pois para ele, é necessário considerar os dois aspectos: seja econômico, seja espiritual.
Mounier utilizando do pensamento de Hegel descreve:
Mas o materialismo, embora pela razão inversa, não o é o menos. Como disse o próprio Marx, ‘materialismo abstrato’ e ‘espiritualismo abstrato’, torna-se, e não se trata de escolher um ou outro, mas ‘a verdade que une os dois’ para aquém da sua separação. Cada vez mais a ciência e a reflexão nos revelam um mundo que não pode passar sem o homem e um homem que não pode passar sem um mundo (MOUNIER, 2004, p. 18).

Sendo assim, para Mounier, há uma insuficiência da parte dos materialistas, pois a infraestrutura necessita de uma ligação mais profunda acerca do plano ontológico humano. “O espiritual também é uma infraestrutura”, afirma (MOUNIER, 1949 p. 18). Neste caso, a desordem estabelecida, está relacionada a uma ligação entre o material econômico, e o espiritual.
As desordens psicológicas e espirituais, ligadas a uma desordem econômica, podem minar durante muito tempo as soluções adquiridas no campo da economia. E mesmo e mais racional estrutura econômica, se estabelecida com desprezo das exigências fundamentais da pessoa, traz dentro de si a própria ruína (MOUNIER, 2004, p. 18).

Sabe-se que a revolução marxista não foi apenas materialista. Ouve um pensamento voltado a crítica da “alienação idealista”, e isso Mounier soube reconhecer como valiosa importância, uma vez que, pela teoria e pela prática o marxismo travou uma luta contra a “decadência idealista”. Contudo, O personalismo se opõe ao marxismo uma vez que este somente visa uma manifestação de revolta da parte dos pobres e oprimidos, de forma desencarnada.
Mounier descreve o marxismo, no seu primeiro número da sua revista, como um “filho rebelde do capitalismo”, pois recebe “a fé apenas na matéria” [11]. Moix, citando Mounier relata:
O marxismo tem a confiança de uma grande parte das massas trabalhadoras: para estas é uma fé, um símbolo de libertação. O dramático do debate é quando a estas massas empolgadas por estas esperanças temos de responder por alguns non possumus sem ambiguidade (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 245).

Nas palavras de Candide Moix, Mounier viu o marxismo como um cooperador, no sentido da libertação espiritual do próprio homem:
O marxismo é uma poderosa análise do homem situado, e o personalismo se sente de acordo com ele neste ponto. Ambos relembram o valor do impessoal e das meditações. O marxismo é antes de tudo um notável método de análise e de ação. Em todas as suas etapas parte do exame minucioso dos fatos (MOUNIER apud MOIX, p. 246).
Neste sentido, embora haja diversas críticas do personalismo para com o marxismo, pois segundo Mounier a proposta marxista é insuficiente, no processo de liberdade humana, ambos andaram por caminhos semelhantes, ou seja, na tentativa de libertar o homem do seu sono seja espiritual, seja material. Ambas têm a mesma crítica ao capitalismo, no entanto, somente Mounier pensa o homem como um ser também, espiritual.
Para o filósofo cristão, acreditar que acabando com a miséria material, como pensam os marxistas, o homem viva plenamente a liberdade definitiva é uma ilusão.
A experiência volta sempre à mesma: nem o poder, nem a razão raciocinante satisfaz à vocação do homem; uma distração nova, uma civilização que passa, o prazo é adiado, e as cadeias apenas mudaram[12].

Para Mounier, “o marxista tomou o ponto de chegada pelo ponto de partida, e por isso não liberta o homem” (MOIX, 1968, p. 252) neste sentido, o filósofo vê a total insuficiência do marxismo está justamente por se prender num tempo dentro da história. Para Mounier, a dialética necessita de continuação, ela precisa ser “viva” no sentido de ter continuidade. Ao contrário de tudo isso, deixa de ser dialética, ou seja, “educação” e passa a ser “domesticação”. Nas palavras de Moix, Mounier vê o erro do marxismo, justamente em “querer dar sua explicação como válida para todos os tempos” (Idem).  Neste contexto, Mounier vê o marxismo como um mito e não como uma filosofia, pois “quem diz dialético diz para o futuro”. Nas palavras de Moix, afirma Mounier:
O determinismo puro é a própria negação da revolução, de toda ação e de todo conhecimento. Não haverá revolução concluída definitivamente enquanto uma iniciativa humana insistir em dela tirar significação. Toda ação autentica supõe a liberdade e, por isso mesmo, opõe-se ao determinismo absoluto[13]. Hoje não tem fundamento a crença no determinismo da matéria. As pesquisas dos sábios mostram que há nela um indeterminismo essencial (MOIX apud MOUNIER, 1968, p. 253).
O filósofo francês faz, também, uma crítica aos idealistas, pois estes, além de reduzir a matéria à aparência do espírito, por meio de uma atividade ideal, colocam o homem ao mesmo nível das “relações geométricas ou inteligíveis”, ou seja, o homem é visto apenas como objeto.
Por mais abundante e sutil que seja a luz que o espírito humano leva até às menores articulações do universo, a materialidade existe de uma existência irredutível, autônoma, hostil à consciência [...] O que é radicalmente estranho à consciência não é mais do que dispersão pura, cega e opaca. Não podemos falar de um objeto, e com maior da razão, não podemos falar de um mundo, senão em relação com a consciência que o apercebe [...] A minha existência encarnada é fator essencial da minha situação pessoal (MOUNIER, 2004, p. 18).

O homem, segundo Mounier, uma vez sendo constituído de corpo e espírito não pode ser pensado como objeto, ou resultado de condicionamentos físicos e naturais, mas como totalidade, ou seja, encarnado e chamado à liberdade pela “existência”.

3.2 A verdadeira revolução: o engajamento e a comunicação

 Mounier aponta a necessidade de uma revolução contra a desordem estabelecida de seu tempo. Para se falar em revolução, embora esta palavra não lhe evoque boas lembranças, pois traz consigo a “violência” e o “terror” faz-se necessário considerar que ela precisa acontecer em todos os sentidos que atinge o homem na sua totalidade, ou seja, lutar contra a desordem estabelecida requer uma transformação em todos os aspectos da vida humana. Para isso, é de suma importância que haja um engajamento, “o engajamento total a serviço da pessoa humana” (MOUNIER apud MOIX, 1968 p. 89).
No pensamento do filósofo, engajamo-nos com nossas próprias vidas e nossas “almas”, não somente pela palavra que ela contém, mas “pela prece humana que ela contém” (Idem).
A revolução, no pensamento personalista, parte daqueles que de certa forma, lutam pela causa dos oprimidos, e por esse motivo se reúnem com apenas uma finalidade: lutar pelos seus direitos. Isso exige, muitas vezes, um derramamento de sangue, ou, o martírio da parte destes sem voz e vez. Mounier pensou numa revolução “indissociavelmente material e espiritual” (Ibidem). Quer dizer, o homem não é “anjo” nem “animal”, mas é um e outro.

O homem é uma planta fixada na terra. Dela tira ele seus sucos, mantido rente ao chão pelo ritmo do seu destino. Mas sua destinação atravessa-lhe o destino como um fluxo de seiva e, sem arrancá-lo de seu solo, eleva-o cada dia mais alto (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 90) [14].

Sendo assim, a revolução deve acontecer na sua totalidade, quer dizer, na escarnação não somente pela “matéria”, mas, sobretudo, pelo “espírito” (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 90).
Nesse contexto, o filósofo Frances propõe, para cada aspecto, soluções diversas. “somos duplamente revolucionários, mas em nome do espírito” [15] (Idem), afirma Mounier. O filósofo pensou numa revolução que vá além, ou por assim dizer, uma conversão nas estruturas espirituais. De certo, pode-se pensar que, o homem que não possui o mínimo de subsistência não pode falar em revolução espiritual, pois, se assim fosse, tal, revolução seria apenas uma “máscara”, ou escapatória, e isso seria hipocrisia. Neste contexto, afirma Mounier:
Sempre dissemos: “o espiritual, para nós, não é uma máscara ou uma escapatória. Temos certo número de debates fundamentais a regular todo o mundo. Mas, antes disso, pão, trabalho, dignidade para aqueles que não têm. Antes de tudo, para poder falar do homem sem remorsos, a destruição de um regime desumano” [16] (MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 91).

Contudo, Mounier concorda que a revolução seja econômica, contanto que traga consigo a revolução espiritual. Uma entrelaçada à outra. Assim sendo, a revolução econômica enriquece o espírito e a revolução espiritual enriquece, por sua vez, a economia. O importante, em Mounier, é que haja, na política, a ordem e a justiça social.
 “O homem, afirma Mounier, não foi feito para a utilidade, mas para Deus” (MOUNIER apud MOIX, p. 97). Com essas palavras Mounier viu a necessidade de um profundo desabrochar interior.
 Ele não vê o destino feliz do homem, nem no âmbito social, muito menos no político, mas na capacidade de uma humanização. Nessas palavras escreve:
Nosso domínio é, em primeiro lugar, a busca de um humanismo. E se o político, o social e o econômico comandam hoje todas as pistas por onde passa uma libertação do homem, o que serão homem amanhã, interessa muito mais aqui do que aquilo que ele fabrica e vende, do que os jogos do poder ou as variedades dos partidos[17] (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 97).

Pode-se afirmar que, para Mounier, a liberdade humana, não obstante seja uma conquista árdua e difícil, é possível. Contudo, é necessário que este ser pensante, se empenhe nas mais diferentes estruturas, principalmente, na estrutura espiritual, pois para ele, “é a crise do espírito que é a causa da desordem econômica e política” (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 98), e que esta liberdade seja, de certa forma com condições.
Portanto, a revolução espiritual proposta por Mounier, consiste na restauração dos valores espirituais que foram, de certa maneira, traídos pela ganância humana. Ou seja, é uma revolução contínua, pois consiste em “trazê-los de retorno à sua pureza e engajá-los na reconstrução do mundo” (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 99).
Para se falar em revolução espiritual, é de suma importância, também, no processo personalista, uma comunicação. O homem, afirma Mounier, não pode viver em um mundo isolado.
Afinal um dos aspectos que o filósofo critica como causa de desordem estabelecida é, justamente, o individualismo. Neste sentido, o filósofo descreve:
Assim, a primeira preocupação do individualismo é centrar o indivíduo sobre si mesmo, e a primeira preocupação do personalismo é descentrá-lo para o colocar nas largas perspectivas abertas pela pessoa (MOUNIER, 2004, p. 23).

Percebe-se, neste contexto que Mounier propõe uma revolução que tenha como princípio essencial o encontro do Eu com o outro. Uma revolução comunitária, ou seja, na qual haja um engajamento a partir da experiência vivida, que o povo se una em só objetivo: revolucionar a história, não como pensara Marx, um “messianismo do proletariado”, pois para Mounier, “a ideia de uma classe oprimida tornando-se a classe que deterá todos os postos do poder passando ao oprimir, por sua vez, é coisa totalmente estranha” (Idem), mas como um todo, na luta pela humanização da humanidade. Para que esta revolução aconteça, é de suma necessidade forças políticas, que deem segurança no processo entre a teoria e a prática, e, principalmente, a união do povo, criando, dessa forma “um novo socialismo”, em busca de um personalismo comunitário.
 Mounier via a força do povo como “instrumento” primordial para a revolução. Como disse o próprio filósofo:
O organismo vitalizador de uma renovação espiritual só pode ser o organismo popular, o mesmo ferido, o mais profundamente sadio que um século de decadência nos deixou[18] (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 101).

            O filósofo personalista cristão propõe, neste sentido, que o homem tenha como “fator primitivo” a comunicação. Tal comunicação se dá no “Eu” num movimento para o “outro”, numa perspectiva universal.

 Sendo assim, neste movimento não há limites entre as pessoas, ou seja, a pessoa se coloca como existente enquanto para o outro, não há conhecimento de si senão pelo outro e, principalmente, não há encontro pessoal consigo mesmo senão no outro. Nas palavras do próprio filósofo podemos citar:
A experiência primitiva da pessoa é a experiência da segunda pessoa. O tu e, adentro dele, o nós, precede o eu, ou pelo menos acompanha-o. É na natureza material (e a ela estamos parcialmente submetidos) que a exclusão reina, porque um espaço não pode ser ocupado por duas vezes ao mesmo tempo. Mas a pessoa, no mesmo movimento que a faz ser, expõe-se. Por isso é por natureza comunicável e até mesmo só ela o é [...] Quando a comunicação se enfraquece ou se corrompe perco-me profundamente eu próprio: todas as loucuras são uma falha nas relações com os outros (MOUNIER, 2004, p. 24).

Nesse contexto, para Mounier, eu somente existo na medida em que eu me comunico com o outro, ou, por assim dizer, eu amo. Neste sentido, “ser é amar”. Aqui se encerra todo pensamento personalista cristão. O primeiro ponto central do personalismo se dá no ato de “sairmos de nós próprios” de temos a capacidade de se libertar de nós mesmos e a partir deste movimento nos colocarmos como “disponíveis” aos outros.
 O segundo ponto central personalista é a compreensão, ou seja, “deixar de me colocar sempre no meu próprio ponto de vista, para me situar no ponto de vista dos outros” (MOUNIER, 2004, p. 24), numa atitude de entrega, contudo, “ser todo para todos sem deixar de ser e de ser eu” (Idem).
O terceiro ponto do personalismo cristão é de tomar sobre si a angústia e o sofrimento e até mesmo as alegrias do outro. Nas palavras do filósofo, “sofrer na nossa própria carne” (Ibidem).
O quarto ponto essencial para que o homem seja verdadeiramente comunicável, no sentido cristão é a doação. Isso significa não servir pela “reivindicação”, que Mounier aponta o individualismo do pequeno burguês, ou seja, pelos próprios interesses pessoais, mas que seja pela “generosidade”, no ato da gratuidade cristã. Nesta, afirma o filósofo se encontra todo “valor libertador do perdão e da confiança” (MOUNIER, 2004, p. 25).
Por último, a proposta libertadora se dá pela fidelidade para com o outro. Para Mounier, “a aventura da pessoa é uma aventura constante desde o nascimento até a morte. As dedicações pessoais, amor, amizade, só podem ser perfeitas na continuidade” (Idem). Neste contexto, “a fidelidade pessoal é uma fidelidade criadora” [19].
            Estes movimentos de coletividade, na perspectiva personalista de Mounier gera o sentimento mais sublime, o amor. Este amor, quando realizado em sua totalidade, no encontro do eu com o outro, torna-se uma forma diferente, nova e transcendente, de ser.
Dirige-se ao sujeito para além da sua natureza; quer a sua realização como pessoa, como liberdade, quaisquer que sejam seus dons ou defeitos, que não são essenciais a seus olhos; o amor é cego, mas de uma cegueira extralúcida. Libertando aquele que é chamado, a comunhão liberta e confirma aquele que chama. O ato de amor é a mais forte certeza do homem, o ‘cogito’ existencial irrefutável: amo, logo o ser é, e a vida vale (a pena ser vivida) (MOUNIER, 2004, p. 25).

Pode-se dizer, neste contexto, que para Mounier, o indivíduo somente se torna pessoa a partir do momento em que se direciona ao outro numa atitude de disponibilidade gerando, dessa forma, a comunhão. Neste sentido, a comunidade é o elemento principal e fundamental, que proporciona a vida interpessoal.

3.3 A liberdade condicionada no personalismo de Mounier
                                                                                                                                  
Desde que o homem se entende como um “ser pensante” a liberdade é ponto fundamental nas suas discussões. Afinal, quem não deseja viver uma liberdade plena, absoluta. Sobretudo os liberais e existencialistas. O problema aqui se encontra, justamente, no fato de que, se formos viver esta liberdade absoluta, como seria o mundo se nós pensássemos apenas no nosso “eu”?
Ao pensar numa liberdade a partir do individualismo, pode-se dizer que o mundo se transformaria num caos. Esta liberdade individual, para Mounier é uma ilusão. Mounier, para falar de liberdade, inicia fazendo uma crítica àqueles que querem criar conceitos acerca da liberdade, tornando-a objeto.

A liberdade tem muitos apaniguados: liberais [...] marxistas Existencialistas e Cristãos [...] Por que tanta confusão? Porque cada vez que a isolamos da estrutura total da pessoa, exilamos a liberdade para alguma aberração (MOUNIER, 2004, p. 43).

Na busca de uma melhor definição do que seja a liberdade, a partir de sua experiência, pois para ele era impossível separar as ideias da prática do dia a dia, Mounier busca entender, nos mais diversos aspectos, o “reino da liberdade”. Logo após, ele critica o conceito que os modernos tinham acerca da liberdade e por isso, faz uma crítica severa a estes que, de alguma forma, querem coisificá-la.
 Segundo o filósofo, “A liberdade não é uma coisa, um objeto”. Assim sendo, ela não pode ser entendida como tal. “A liberdade”, afirma o filósofo, “é a afirmação de pessoa, vive-se, não se vê” (MOUNIER, 2004, p. 43).
Para se falar de liberdade, no personalismo, é necessário entender que, em Mounier, uma liberdade absoluta é ilusória, uma vez que somos condicionados por um determinado tempo, espaço e outros fatores.
 Assim, melhor seria uma discussão, a partir do contexto no qual vive a pessoa, uma vez que somente pode existir liberdade se o homem entender todo o processo de libertação material e espiritual. Nesse contexto, a liberdade se depara com um grave problema, ou seja, como falar de liberdade em um mundo no qual ainda se vive a luta de classes? De um lado se tem o opressor que a cada dia se enriquece às custas do pobre; por outro lado há esta grande massa de oprimidos que lutam apenas para sobreviver. Estes fatores, já citados anteriormente não condizem, com o “reino da liberdade”.
A liberdade humana, no pensamento mounierniano, sempre foi ameaçada, e no contexto de sua época por capitalistas, individualistas, pessoas que, pela sua ganância pela riqueza material, empobrecem-se espiritualmente causando, dessa forma, a desordem espiritual.
A este último, como já sabemos, ele chama de “desordem estabelecida”. Em suas palavras, “só o espírito comunitário pode ‘libertar’ a liberdade dos liberais’” [20].
Neste sentido, Mounier, seguindo os passos do seu mestre Péguy, luta com todas as forças para combater esta desordem que leva o homem ao estado de morte.
         Mounier, há duas formas equivocadas de se pensar a liberdade: a primeira é a liberdade da indiferença, ou seja, uma liberdade que não é boa nem ruim, apática, sem qualquer tipo de determinação, seja do pensamento quanto da ação. A segunda forma de liberdade é a que, nós “mendigamos ao indeterminismo físico”, quer dizer, pensar que os físicos modernos vão prová-la pela física.
 Mais uma vez tem-se uma errada idéia de liberdade. Por isso ele afirma que “a liberdade do homem não é o resto de uma adição universal” (MOUNIER, 2004, p. 45). A liberdade, para Mounier, não pode ser conquistada “contra os determinismos naturais, conquista-se por cima deles, mas com eles” (idem).
O filósofo destaca dois pontos que podem ser levados em consideração: primeiro é que, a ciência não pode determinar o universo, ou seja, não pode chegar a uma perfeita sistematização, e, se é assim, caso não tenha nada a dizer a favor da liberdade, também não pode contestá-la; Segundo é que, “a natureza revela uma preparação lenta e contínua condições do que se pode chamar de liberdade” (Ibidem, p. 44). Neste sentido, para Mounier, a liberdade não pode ser determinada materialmente, mas ela atua no mundo no qual a autonomia corporal a que se movimenta, se nutre de outras possibilidades e regulamenta a autonomia espiritual da liberdade. Nas palavras do filósofo:

É a pessoa que se faz livre, depois de ter escolhido ser livre. Em parte nenhuma encontrará a liberdade dada e constituída. Nada no mundo lhe garantirá que ela é livre se não entrar audaciosamente na experiência da liberdade (MOUNIER, 2004, p. 44).


Sendo assim, Mounier afirma que, a liberdade não resulta dos preparativos da natureza, mas, ela resulta das iniciativas das pessoas.


Portanto, a liberdade mounieriana não pode, de forma alguma, ser espontânea, nem absoluta, sem limites. Neste contexto, a liberdade absoluta, para Mounier é um “mito”, pois se estamos inseridos numa realidade, temos que considerar as condições que esta realidade nos impõe, e se “somos condenados à liberdade” corremos o risco de nos tornarmos escravos de nós mesmos. Neste caso, não se encontra a liberdade dada e constituída, mas somente pela experiência, ou seja, a liberdade garantida é aquela que o indivíduo tem pela experiência. Segundo Marcel, para Mounier, ‘o homem livre é o homem que pode prometer entre o homem que pode trair (MOUNIER, 2004, p, 45).

Mounier afirma que a existência livre é uma pura subjetividade. Quer dizer, subjetivamente é possível uma liberdade total, pois não a alcançamos senão por dentro de nós mesmos. Ela é “fonte viva de ser” [21] e somente a encontramos se já nascermos com ela.

 “É a liberdade do condenado, a transcendente liberdade da consciência pessoal. Liberdade que então não depende das liberdades concretas” (MOUNIER apud SEVERINO, 1968, p. 69). “A liberdade de uma pessoa e desta pessoa assim constituída e situada em si mesma, no mundo e diante dos valores” [22]. Neste contexto, a liberdade é entendida como um chamado, uma vocação, pois se assim não fosse não seria liberdade. Contudo, quando se parte para a questão da objetividade esta se limita dentro das questões materiais, ou seja, sociais econômicas, psicológicas, biológicas e políticas. A liberdade personalista cristã é condicionada. Afirma Mounier:

Isso implica que ela é, na maioria dos casos, estreitamente condicionada e limitada pela nossa situação concreta. Ser livre é primeiramente aceitar esta condição, para dela partir. Nem tudo é possível, nem tudo é possível em todos os momentos. (MOUNIER, 2004. p.47)


Mounier coloca a liberdade condicionada no tempo e no espaço, de acordo com a situação a qual o homem se encontra. Pode-se dizer que no campo econômico e político, o filósofo vê a liberdade somente numa condição voltada no processo de libertação, não como pensara Marx, ou seja, que pela revolução material ou até mesmo ideológica se encontre a liberdade, mas que esta seja, primeiramente, interior, depois esta liberdade deve se expandir para o outro. É a personalização do eu com o outro.
Assim sendo, a liberdade é uma ação autônoma e esta deve ser uma libertação da opressão que afeta qualquer situação, seja material, seja espiritual.

“libertação que não é eliminação dos laços condicionantes, mas apoio no condicionamento para melhor avançar [...] esta personalização libertadora é a medida da liberdade como autonomia humana espiritual” [23].


Portanto, a liberdade personalista de Mounier é um movimento em que se faz forte e ao mesmo tempo frágil.

 Ela é condicionada de todas as formas e de todos os lados, e por esse motivo, é uma liberdade que deve ser, a cada instante “reconquistada”, muitas vezes com luta, e assim, ela se torna forte quando esta conquista se faz vitoriosa.

 Nas palavras de Severino, Mounier descreve:

Nesta luta constante da liberdade contra as alienações, cada etapa é consolidada pelo batismo da escolha. Escolha que parece, primeiramente, como um poder. Cria também uma nova ordem e uma nova intergibilidade nas fatalidades rompidas, em nome de um novo valor visto e assumido. Também a pessoa sai com uma nova maturidade. Faz o mundo avançar e forma o homem. Enfim agindo como ser livre, a pessoa é fonte contínua de criatividade. Nisto a pessoa jamais poderá ser substituída pela técnica[24] (MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 71).
Em suma, a liberdade condicionada, segundo o personalismo, traz consigo o movimento da responsabilidade, uma vez que há liberdades e liberdade. E se temos a liberdade de escolha, deve-se entender a própria liberdade como a capacidade de criar, revolucionar, libertar, enfim, de fazer a melhor opção destas escolhas, que seja para o próprio bem e para o bem de todos. Ao contrário ter uma liberdade somente subjetiva, pode acarretar o risco de esta se tornar um meio de alienação, ou por assim dizer, escravidão. Neste contexto afirma Mounier:

O homem livre é um homem que o mundo interroga e que responde; é o homem responsável. A liberdade, assim entendida, não isola, mas une, não permite a anarquia, mas é, na verdadeira acepção destas palavras, religião, devoção. Não é o ser da pessoa, mas o modo como a pessoa é tudo o que é, o é mais plenamente do que por necessidade (MOUNIER, 2004, p. 48).


Por fim, a liberdade personalista cristã parte, primeiramente, da subjetividade humana, como um chamado a ser livre e este chamamento parte, por assim dizer, de Deus, e transcende o outro de forma responsável e eficaz. Não basta sonhar com uma liberdade absoluta. É importante perceber que, no campo objetivo e concreto, embora a liberdade não possa ser no pensamento de Mounier, de forma alguma, objetivada, a liberdade é condicionada.


4
CONSIDERAÇÕES FINAIS


O caminho percorrido até aqui, mostra o conceito de liberdade segundo o pensamento do filósofo existencialista cristão Emmanuel Mounier. Para isso, foi necessário contextualizar, no seu tempo, sua crítica, aos demais filósofos de sua época, sobretudo aos marxistas, que afirmavam ser a liberdade fruto de uma revolução materialista e idealista.
 Neste contexto, a partir do tema proposto, surgiu um problema em relação a liberdade: é possível uma liberdade interior, ou seja, espiritual, em um sistema econômico injusto? A problemática que se levantou teve como objetivo abordar a crítica do filósofo francês ao capitalismo, que ele chama de “desordem estabelecida”, que trouxe consigo a crise espiritual do século XX, e também, aos marxistas e espiritualistas burgueses, que apresentavam propostas que Mounier considera insuficientes no processo de libertação humana. A primeira por ser apenas uma revolução materialista e por esse motivo não gera total liberdade, uma vez que somos matéria e espírito; e a segunda por ser, de certa forma, voltada apenas para o moral e o religioso, não se envolvendo com a realidade do outro.
Mounier propôs uma revolução a partir do personalismo, ou seja, voltada para todos os aspectos da pessoa. Uma revolução que parte primeiramente do eu e depois para o outro, que seja engajada, pela encarnação, pois somente pelo engajamento a pessoa pode ser considerada livre. Contudo, a liberdade personalista cristã não é pronta e acabada, tal como também o homem não o é, mas é uma liberdade conquistada, todos os dias, e por isso é uma liberdade condicionada ao tempo e ao espaço no qual se encontra o homem. A liberdade mounieriana traz consigo a responsabilidade. Assim, o homem não pode pensar numa liberdade individual, mas sim, coletiva, comunitária.




REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicolas: Dicionário de Filosofia; Trad. Alfredo Bosi, São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MOIX, Candide: O pensamento de Emmanuel Mounier, Trad. Frei Marcelo L. Simões O. P. Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1968.

MOUNIER, Emmanuel: O personalismo, Trad. São Paulo: Martins Fontes: Santos, 2004.

SEVERINO, A. Joaquim: A Antropologia Personalista de Emmanuel Mounier, ed. Saraiva; São Paulo, 1974.






[1] (MOUNIER, Emmanuel: O personalismo, ed. Martins Fontes; Santos, 1964). O termo Personalismo, embora já tenha sido empregado anteriormente por outros autores, somente a partir de 1930, é retomado na França na filosofia personalista de Emmanuel Mounier em seu lançamento da revista Espirit, como o Universo pessoal do homem, ou seja, o sujeito na sua total realização vocacional, chamado à ação. Este homem que se coloca como um ser único no mundo, não é um sujeito acabado, mas um sujeito que se constrói pelo engajamento com o outro. Um sujeito encarnado, composto de corpo e espírito, acima de qualquer coletividade ou instituição. Contudo, ele é atuante que aje no mundo, não como objeto, mas como aquele que é chamado a agir como pessoa humana na luta pela humanização da humanidade. É importante levar em Consideração que Mounier foi um autêntico Cristão, e por isso, ele considera o ser humano segundo o pensamento cristão, não como um “cruzamento” de matérias e ideias, mas como um todo, indissolúvel, criado pelo Ser Supremo, que por amor o fez, e Este precede toda a existência. Para Mounier, o “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates, foi a primeira revolução personalista conhecida. 
[2] ABBAGNANO, Nicolas: Dicionário de Filosofia; Tr. Alfredo Bosi, 1 ª ed. Martins Fontes, São Paulo, 2007 Liderdade: (gr. èteu6epía; lat. Libertas; in. Freedom, Liberty; fr. Liberte; ai. Freiheit; it. Liberta). Esse termo tem três significados fundamentais, correspondentes a três concepções que se sobrepuseram ao longo de sua história e que podem ser caracterizadas da seguinte maneira: l1 L. como autodeterminação ou autocausalidade, segundo a qual a L. é ausência de condições e de limites; 2a L. como necessidade, que se baseia no mesmo conceito da precedente, a autodeterminação, mas atribuindo-a à totalidade a que o homem pertence (Mundo, Substância, Estado); 3a L. como possibilidade ou escolha, segundo a qual a L. é limitada e condicionada, isto é, fínita. Não constituem conceitos diferentes as formas que a L. assume nos vários campos, como p. ex. L. metafísica, L. moral, L. política, L. econômica, etc. As disputas metafísicas, morais, políticas, econômicas, etc. em torno da L. são dominadas pelos três conceitos em questão, aos quais, portanto, podem ser remetidas as formas específicas de L. sobre as quais essas disputas versam.
[3] Cf. MOUNIER, 2004, p. 8. O termo “encarnação”, pode ser entendido no sentido cristão, ou seja, para Mounier, “o homem não é o cruzamento de várias participações em mais gerais realidades – Matéria, ideias”, mas este é um “todo indissociável, cuja unidade, porque no absoluto assente, precede a multiplicidade” [...] Assim sendo, afirma o filósofo, “a encarnação continua a unidade da terra e do céu, da carne e do espírito, continua o valor redentor da obra humana logo que assumida pela graça”. Neste contexto, “cada pessoa é criada à imagem e semelhança de Deus, cada pessoa é chamada para formar um imenso Corpo místico e carnal na Caridade de Cristo”.
[4] A revista “Esprit” foi fundada em outubro de 1932, por um movimento criado por Mounier e outros jovens: Georges Izard, Déléage, Jean Lacroix, Nicolas Berdiaeff, Denis de Rougemont e Réné Biot. Espirit foi porta voz do movimento espiritual personalista. Estes jovens, inconformados com a realidade de seu tempo, denunciavam os problemas do Ocidente e apontavam a necessidade de uma “nova geração”.
[5] SEVERINO A, Joaquim, 1974, p. 1 A partir da leitura de “Mounier et as génération, lV, pág. 411” Mounier fora criado, até os 19 anos de idade com seus pais, avós e uma irmã mais velha que ele, Madeleine Mounier, em sua cidade natal. Desta origem e de sua infância, guarda uma grata recordação. Assim dizia Mounier: “Eu sou um montanhês”.
[6] SEVERINO, A. Joaquim. Cf. Béguin, A., “Une vie”, Espírit, nº 12, dez. 1950, págs. 936-937. Mounier, na sua juventude, sofrera dois acidentes que afetaram sua audição e sua visão. Acabara perdendo uma vista e um ouvido. Desta experiência, ficar-lhe-ia muito do sentido da fragilidade da vida. 
[7] Cf. MOIX, Candide. O pensamento de Emmanuel Mounier. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1997. p. 12. Marcel Péguy foi um Cristão e “o filósofo do século XIX”. Contemporâneo, mestre e, sobretudo, amigo de Mounier, foi um homem que lutou contra a desordem estabelecida de seu tempo por meio de um pensamento voltado ao espiritual e político. Pertencia ao grupo de jovens Católicos que “revolucionou” a França dos séculos XIX - XX e também foi fundador dos “Cahiers”. Inconformado com os problemas de sua época, seu trabalho, juntamente com outros filósofos, entre eles, Georges Izard e o próprio Mounier, no qual juntos publicaram em 1931, “La pensèe de Charles Pèguy”, foi de conscientizar os jovens a buscar uma nova forma de pensar o mundo moderno Ocidental. Péguy foi um homem “engajado”, que pensou a realidade de seu século e agiu. “Um homem saído do povo”, afirma Luiz Eduardo Wanderley. Homem preocupado apenas em servir, renunciou a riqueza e se opôs severamente ao capitalismo. Admirado por Católicos, Protestantes e outros pensadores, Péguy, torna-se respeitado por todos aqueles que lutam contra a “desordem estabelecida” da Europa, entre estes Mounier, que o tem como “referência” à criação da revista “Espirit”.
[8] Espírit, nº 21, junho, 1934, in Révl. Pers., p. 197
[9] MOUNIER, Manifeste, p. 50
[10] MOIX, p. 245 Moix mostra a importância de lembrarmos que as críticas de Mounier a Marx foram feitas lá pelas décadas de 30, publicado na França os escritos da juventude de Marx. Não sabemos, por certo, se Mounier faria as mesmas críticas aos escritos de Marx mais velho.
[11] MOIX aoud MOUNIER, p. 244. Citação de Mounier et génération, p. 83
[12] MOIX, MOUNIER, Manifeste, p. 59
[13] MOIX, MOUNIER, Cf. Espirit, nº126 outubro, 1946, págs. 483-484. Relação restituída da obra de J. P. Sartre , Matérialisme et révolution, temps modernes.
[14] MOIX. Espirit, nº 26, novembro, 1934, págs. 258-259.
[15] MOIX. Espírit , nº 1 outubro, 1932 in Révol. Perso, p. 30, “Refazer a renascença”.
[16] MOIX. Espírit, nº 45, junho, 1936, p. 444, “Ajuntamento popular”.
[17] MOIX, Espírit, nº 110, maio, 1945, p. 920, “A nossos leitores.
[18] Cahiers protestants, nº 6, setembro-outubro, 1938, p. 351, “Sobre o destino espiritual do mundo operário”. A mesma ideia é frequentemente exprimida: cf. Espírit, nº 38, novembro, 1935, p. 280; Liberté sous conditions, p. 270; Les certitudes difficiles, págs. 139, 190, 191; Mounier ET as génération, págs. 196, 390; Le personalisme, págs.121-122.
[19] MOUNIER, Sobre o tema da fidelidade, ver G. Marcel: Etre  et avoir, Du refus à I’invication.
[20] Qu’est-ce que Le personalisme? Pág. 72
[21] MOUNIER, Le personalisme, III, pág. 480
[22] Ibid, p. 480
[23] MOUNIER apud SEVERINO, p. 70
[24] Severino, p. 71 “A tendência da psicologia tradicional a respeito da liberdade é insistir muito sobre a caracterização como poder, como vontade contra os obstáculos. Mas Mounier alude também, criticando-o, ao espontaneismo existencialista”.

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