TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO (TCC)
CENTRO UNIVERSITÁRIO SÃO CAMILO
Edriano de Santana da Cruz
O CONCEITO DE LIBERDADE NA PERSPECTIVA
PERSONALISTA DE MOUNIER
São
Paulo, 19 de Junho de 2012
__________________________________________________________________
Professor
Orientador Dr. Benedito Eliseu Leite Cintra
___________________________________________________________________
Professor
Examinador Thiago Calçado
Agradecimentos
Sei em quem
depositei minha confiança*
Agradeço
a Deus pelo Dom da vida, pela força e coragem que Ele me concede a cada dia. Aos meus pais, Antonio e Claret, que me deram
a vida; a meus tios, Áurea e João Lima; a minha irmã Claudia e ao meu cunhado,
Wagner, que muito me ajudou, de forma financeira, nos dois primeiros semestres;
aos demais irmãos, Maria, Marília, Antonio, Kelly e aos demais familiares, que
acreditaram no meu trabalho e na minha capacidade, colaborando e incentivando
nos meus momentos difíceis.
Ao meu amigo, padre Gutenberg, que me
indicou o curso de filosofia, com certeza sem ele eu não teria chegado até
aqui.
Aos professores do Centro Universitário
São Camilo, de maneira especial o Profº
Dr. Benedito Elizeu Leite Cintra, meu orientador, pelo trabalho e
dedicação, tanto no âmbito intelectual e profissional, quanto no humano,
formando-me para a vida. Aos meus colegas de faculdade, em especial, Daniela
Módena, Márcia Chagas e Keisle Ventura que muito colaboraram e me incentivaram
para que eu jamais desistisse.
Aos meus companheiros de trabalho da
Escola Nicéia Albarello Ferrari. A todos aqueles que, de certa forma, colaboraram
para o meu crescimento intelectual e humano.
_________________
* Bíblia de Jerusalém, Epístola a Timóteo, 1,12.
CRUZ, Edriano de Santana. O conceito de liberdade na perspectiva personalista de Mounier. 2012.
40 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura Plena em Filosofia) – Centro
Universitário São Camilo, São Paulo, 2012.
Neste projeto pretende-se abordar o conceito de liberdade
na perspectiva personalista de Emmanuel Mounier. O termo liberdade tem sido
discutido ao longo da história. Há diversas teorias e inúmeras formas de
entendê-lo. Todas as ciências buscam, de alguma forma, entende-lo e
direcioná-lo a um determinado fator, seja econômico, cultural ou biológico.
Neste contexto, surge uma questão em pauta: é possível uma liberdade interior
em um estado econômico injusto? Segundo o pensamento de Mounier, para se falar
em liberdade é necessário considerar vários aspectos, seja no campo material,
seja no campo espiritual, uma vez que o homem se constitui de matéria e
espírito, “num todo indissociável”, e este se dá pela encarnação. Assim, a
liberdade acontece pelo engajamento, ou seja, no comprometimento do “eu” com o
“outro”. O objetivo deste trabalho é mostrar, em Mounier, a insuficiência do
marxismo e da burguesia espiritualista diante da desordem estabelecida de seu
tempo, e buscar entender a liberdade no personalismo filosófico cristão.
Palavras-chave: Personalismo.
Matéria. Espírito. Encarnação. Liberdade.
CRUZ, Edriano de Santana. The concept of freedom in the perspective
of personalist Mounier. 2012.
40 f. End of Course Work (Graduation) – Centro Universitário São Camilo, São
Paulo, 2012.
This project is intended to address the concept of freedom in
perspective the personalist of Emmanuel Mounier. The term freedom has been discussed throughout
history. There are several theories and countless ways to understand it. All
sciences seek to somehow understand and direct it to a given factor, be
economical, cultural or biological. In this context, there is a question on the
agenda: can an inner freedom in an unfair economic state? According to the
thought of Mounier, to talk on freedom is necessary to consider various
aspects, whether the field is on the material, spiritual field, since the man
is constituted of matter and spirit, "indivisible", and this is
accomplished by the incarnation. Thus, the freedom is by engagement, i.e. in
the compromise of the "I" with the "other." The objective
of this paper is to show the inadequacy of Marxism Mounier, and spiritualist
bourgeoisie in the face of established disorder of his time. Soon after we
strive to understand freedom in Christian philosophical personalism.
Keywords: Personalism. Matter. Spirit. Incarnation. Freedon.
1
INTRODUÇÃO
A liberdade sempre foi, para nós, um dos principais fatores
para se viver a felicidade. Afinal, o que seria o homem sem a liberdade?
Talvez, um mero objeto no mundo. Ao iniciar o curso de filosofia, percebendo a
sociedade, e a história, busquei uma reflexão mais aprofundada acerca deste
tema, uma vez que muitos falam de liberdade, mas na realidade, poucos são os que,
de fato, percebem o quão é importante, não somente pensá-la, mas, sobretudo,
vivê-la. Neste contexto, o presente trabalho tem como proposta abordar o
conceito de liberdade na perspectiva do personalismo de Emmanuel Mounier.
A
liberdade tem sido tema de discussão, em todo o mundo, ao longo da história. Há
diversas teorias e inúmeras formas de se buscar entendê-la. A política, a
ciência e, sobretudo, a religião, busca, de alguma forma, direcioná-la a um
determinado fator, seja ele econômico, social, psicológico, cultural ou até
mesmo biológico.
No
campo da filosofia, há os humanistas, existencialista, espiritualistas e
empiristas, que buscam uma melhor definição acerca deste tema. Contudo, somente
Emmanuel Mounier, nos foi de interesse para este trabalho. Primeiro porque ele é
o único filósofo a buscar uma reflexão mais aprofundada a partir do “personalismo”
[1].
Em segundo lugar, por ele ter sido, não somente um filósofo técnico, teórico,
mas, acima de tudo, um homem engajado na realidade humana de seu tempo.
Pode-se dizer que o personalismo mounieriano se atualiza
no nosso tempo, uma vez que o homem continua na busca pela sua liberdade, seja
ela política, socioeconômica, e, sobretudo, espiritual. Neste sentido, o problema
da liberdade, ainda continua sendo motivo de discussão em todo o mundo.
Na tentativa de uma melhor definição do que seja a liberdade
humana, a crítica que Mounier faz àqueles que, de alguma forma, querem
coisificá-la se atualiza. E o filósofo os critica, justamente, porque para ele,
“a liberdade é afirmação de pessoa, vive-se, não se vê” (MOUNIER, 2004, p. 43) [2].
Neste contexto, para
que o homem seja considerado livre é de suma necessidade uma “libertação”,
tanto no aspecto da subjetividade, ou, espiritual, quanto no campo da
objetividade, quer dizer, material. Neste contexto, surge a questão em pauta: é
possível uma liberdade espiritual em um estado econômico e social injusto?
Na busca de um estudo mais coerente sobre a questão
proposta, e, a partir do entendimento acerca do personalismo mounieriano,
poderemos partir das seguintes questões: Até que ponto o socialismo marxista é ou
não o suficiente no processo de libertação humana, e até que ponto, também, o
homem pode ser considerado livre? Existe uma liberdade absoluta, ou esta é
condicionada? O que fazer para que a sociedade tenha, no mínimo, meios
suficientes para ser considerado livre? Após estas discussões, procuraremos uma
melhor definição de liberdade, na filosofia personalista de Emmanuel Mounier.
Para melhor aprofundarmos no entendimento destas questões,
partiremos da crítica do filósofo ao capitalismo, o qual ele chama de “desordem
estabelecida”, e sua crítica ao marxismo e ao espiritualismo cristão, que ele
considera como medidas “insuficientes” no processo de libertação humana (Idem,
p. 12). Ou seja, para que haja liberdade não basta uma revolução materialista,
ou também, somente espiritualista, uma vez que uma está entrelaçada a outra.
2
CAPÍTULO PRIMEIRO
O HOMEM E A LIBERDADE
2.1 A Filosofia personalista: o homem
engajado na ação ecumênica
Para
iniciarmos a nossa discussão acerca da liberdade em Mounier, faz-se necessário
uma melhor definição do que seja o personalismo. O personalismo, que outrora
era sinônimo de egocentrismo, mas que, em Mounier, passou a significar o “universo
pessoal da pessoa”, não pode ser definido como objeto externo, uma vez que o
homem não é um objeto a ser definido, ou seja, pronto e acabado, mas, como um
“ser” “engajado”, pela “encarnação” [3].
Assim, o filósofo, a partir do contexto de sua época e de sua própria vida,
buscou entender o homem na sua totalidade.
Na vida e na obra de Mounier, dois importantes aspectos
marcaram a história de sua existência: A primeira foi a fundação da revista Espírit,[4]
que marcou profundamente a sua época. A segunda foi ele ter se recusado a trabalhar
em universidade para, dessa forma, se desvincular da tradição filosófica europeia.
A filosofia
personalista de Mounier não é uma filosofia metódica, que busca somente
refletir e comunicar. Não obstante ele mesmo afirme que “o pensamento necessita
de ordem” (MOUNIER, 2004, p. 5), para o filósofo Francês, a filosofia
tradicional era “artificial”, pois se distanciava da vida e da existência
humana. Por isso, ele criticou os jovens estudantes de filosofia de sua época,
pois se dedicavam apenas com o seu desenvolvimento acadêmico, sem, contudo, se
importar com os problemas que afetava a sociedade. Por essa razão, ele se
dedicou ao pensamento voltado à interioridade e à realidade humana.
Neste contexto, afirma Mounier: ‘Sou incapaz da atitude
objetiva desses moços que se colocam diante dos problemas como diante de uma
peça de anatomia’(MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 19).
A sua filosofia é, sobretudo, uma vivencia de ação, que busca
entender e respeitar o homem nos mais diversos pensamentos, e nas mais diversas
culturas. Por isso, pode-se dizer que sua filosofia é “universal”.
Porque
define estruturas, o personalismo é uma filosofia, não é apenas uma atitude. É
uma filosofia, não é um sistema [...] O personalismo é uma filosofia e não
apenas um sistema [...] Por isso, e embora por comodidades falemos do personalismo,
preferiríamos falar dos
personalismos,
respeitar seus diversos caminhos (MOUNIER, 2004, p. 5).
Mounier entendia a filosofia tradicional como aquela que
se distanciava da realidade atual, “um pensamento artificial, bastante
desligado da realidade existencial” (MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 19), e por isso, ele fora uma pessoa “engajada”
na realidade da “miséria humana”, se dedicando a ser, não somente um pensador, mas,
sobretudo, um filósofo de ação engajada, e como afirma Joaquim Severino, com
“engajamento de pedagogia profética” (Idem, p.23).
Jovem humilde, nascido de uma família modesta, na cidade de Grenoble,
França, no dia 1º de abril de 1905, Mounier se considerava “um montanhês” [5]
(MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 1).
Homem, de meditação, oração e, acima de tudo, de ação, Mounier
sempre buscou na religião Cristã Católica, na qual sua família o educou, a coragem
e a audácia para enfrentar seus sofrimentos, desde o da pobreza, até mesmo de sua
saúde[6],
e, a partir da experiência, encontrar a sua verdadeira “vocação”. Ou seja,
unir-se ao sofrimento do outro, que viver a experiência da pobreza e da miséria
buscando, dessa forma, a verdadeira liberdade, que para ele consiste em viver a
dignidade, o amor e a justiça social.
Toda a sua vida fora dedicada apenas na luta pela “vida”,
ou seja, entender o sofrimento e a miséria material e espiritual do outro, à
qual ele chama de “batismo de fogo da miséria humana” (Ibidem p. 3), e se
colocar a serviço do diálogo e da política – embora ele não seja um político
partidário, em um mundo no qual ele considerava se encontrar em “crise”
econômica e principalmente, espiritual, o mundo Ocidental. Mounier faleceu
vítima de um colapso cardíaco, em 22 de março de 1950, com apenas 45 anos de idade
(MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 7).
Segundo Mounier, a política de sua época era considerada
errônea, “devoradora dos homens” e por isso, necessitava de uma “reforma”, uma
vez que tal crise não era apenas material, mas, sobretudo, espiritual (MOUNIER
apud MOIX, p. 16).
Assim sendo, Emmanuel Mounier, foi, em primeira instância,
um cristão autêntico, contudo, nunca perdeu a sua visão, da ação filosófica e sociopolítica
de seu tempo. Homem da práxis, preocupado com a sociedade, sempre esteve disposto
a enfrentar todas as “correntes” contrárias, sem jamais perder a sua fé. Neste
contexto pode-se afirmar que este filósofo cristão foi um homem de paradoxo. Influenciado
pelo seu mestre e amigo Péguy[7],
sempre buscou um personalismo de ação a partir da “existência engajada”.
O personalismo mounieriano propõe um conceito de
liberdade a partir da necessidade de o homem sair de si mesmo, indo ao encontro
do outro. Mas, para que isso aconteça é necessária uma conversão íntima, e a
partir desta, este “novo homem” se integre na sociedade, como uma forma de
engajamento, com um único objetivo: a liberdade. Como falara o filósofo: “Só liberta o mundo e os homens aquele que
primeiramente se libertou de si próprio” (MOUNIER, 2004, P. 24).
2.2 A Desordem Estabelecida do século
XX: Capitalismo e Individualismo
Para falarmos da desordem estabelecida segundo o
pensamento mounieriano, é importante entendermos em que contexto de época Mounier
atuou sobre a liberdade no contexto personalista. Foi na Europa, do século XX,
quando de um lado se tinha o fascismo, que a dominava; por outro lado a guerra
da Espanha; a primeira e a segunda guerra mundial que devastou todo o
continente europeu. Em 1929 aconteceu uma crise econômica que abalou todo o
mundo. Estes conjuntos de fatores, para Mounier, foi o que levou a Europa, em
1950, a uma “crise” não somente econômica e política, mas, sobretudo,
espiritual.
Para o filósofo cristão, o sistema capitalista não
recuperara de forma satisfatória o Ocidente, pois este não garantia a total
estabilidade sociopolítica, e espiritual, por tudo isso, Mounier se mostra
inquieto, diante de tais acontecimentos, e foi em 1949 que ele escreveu “O personalismo”.
Entre tantos outros, o maior problema que Mounier via no
capitalismo era, justamente, o fato de ele criar uma “ordem” econômica fora da
pessoa humana, ou seja, desencarnada. Tem-se, por um lado o capitalismo que
gera a opressão e a morte do homem, por outro lado se tem o individualismo
burguês, que Mounier considera como “decadência do indivíduo”, pois o isola da
comunidade e também, por sua vez, separa o homem material do espiritual. Nas
palavras de Moix, Mounier afirma:
Adversário
de uma concepção humana do trabalho, da liberdade e da propriedade pessoal, o
capitalismo luta, de fato, contra as necessidades essenciais do homem,
materiais e espirituais (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 71).
Pode-se, neste sentido, afirmar que a tarefa do movimento
personalista é assinalar os elementos éticos que possam favorecer esta
experiência de ser humano enquanto pessoa, uma vez o ser pensante é completo de
corpo e alma, este tem o seu valor enquanto matéria e espírito, numa união
indissociável.
Assim sendo, Mounier pensou numa forma literalmente
oposta ao capitalismo, ou seja, se no capitalismo a vida espiritual do homem é
submetida à cultura do consumismo, deste consumismo à produção e da produção ao
lucro, Mounier propõe que seja o oposto:
Uma
economia personalista regula [...] o lucro sobre o serviço prestado na
produção, a produção sobre o consumo, e o consumo sobre uma ética das necessidades
humanas recolocadas nas perspectivas totais da pessoa (MOUNIER apud MOIX, 1968,
p 71).
Mounier faz, também, uma crítica ao sistema burguês de
sua época. O filósofo vê tal sistema, como aquele que somente cria fatores que
causam, mais ainda, a desordem. Quer dizer, enquanto a pequena classe burguesa,
que de todas as formas, goza de privilégios e bem estar econômico uma grande
massa vive na miséria, trabalhando apenas para sobreviver. Neste sentido, a
crise não é somente econômica, mas também política, e a política eram vista,
por Mounier, como um jogo marcado pelos interesses pessoais, deixando, dessa
maneira de ser uma “vocação”.
Em face ao “reino do egoísmo” burguês, nasce o fascismo e
o nazismo, afirma Mounier, fortalecendo mais ainda a crise europeia ocidental.
Esta por sua vez, gera um sistema de morte. Esta crise se dá pelo
individualismo que, causa a desordem, tanto material, quanto espiritual. Neste
sentido, Mounier vê o individualismo burguês como “a raiz do mal” (MOUNIER apud
MOIX, 1968, p. 61).
O capitalismo, afirma o filósofo, gera a desordem
econômica e também da desordem espiritual, uma vez que o corpo é a causa das
guerras e do ódio, por conta da ganância. Assim, a crítica de Mounier vai além
da crítica do Marx.
Do capitalismo nasce a opressão da parte dos ricos para
com os mais pobres e miseráveis. Quer dizer, o homem como produto, uma grande
concentração do lucro nas mãos de alguns, enquanto uma grande massa de
miseráveis sobrevive apenas do trabalho. Dessa forma, o mundo, no pensamento
mounieriano, se divide entre ricos, burgueses e políticos (MOUNIER apud MOIX, 1968,
p. 64).
Entre várias críticas, Mounier se ocupou à questão da
“desordem espiritual” que o sistema capitalista provocou. Para ele, o
capitalismo é o grande inimigo do homem enquanto pessoa, pois gera apenas a
morte visando somente o lucro:
Uma
opressão interior da própria vida pessoal pelo esmagamento de todas as
espontaneidades, de todos os valores e de todas as generosidades humanas ao
peso dos valores do dinheiro e da consideração. Enfim, a impossibilidade, para
a maior parte dos oprimidos, de acesso a uma vida mediocremente humana, e com
mais forte razão, de acesso a uma vida interior[8]
(MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 69).
2.3 A desordem espiritual e o nascimento
da revista Espirit
Mounier percebe que o cristianismo, também, passara a viver
o abandono dos valores espirituais, e todos estes fatores fortaleceu mais ainda
a desordem, e por isso ele lutou com todas as forças contra esta corrente. Sua
crítica ao cristianismo, neste caso aos burgueses cristãos, dava a entender
que, a maioria dos cristãos se corrompera, visando somente o lucro, não tendo
mais como ponto central de suas vidas o serviço à Deus. Em consequência, houve
uma degradação dos valores espirituais que serviu apenas para encobrir, mais
ainda, tal desordem.
Nesta dupla vivência entre o deus dinheiro e o Deus
cristão, cultivaram apenas a moralidade, esquecendo o mais importante, ou seja,
a causa social, a causa da vida. Assim sendo, parece haver, para Mounier, um grande
abismo entre a realidade da miséria humana e as “ideias” cristãs de sua época. Esses
foram os fatores mais graves que, de certa forma, contribuíram, ainda mais, para
a crise espiritual.
O
dinheiro tornou-se o único sinal da grandeza e do poder, a linguagem de um
mundo vazio de espiritualidade. O mestre incontestável deste ‘mundo sem alma’
(MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 64).
Mounier vê a ganância do homem pelo dinheiro como uma
“dupla tirania”, ou seja, dois elementos inimigos da vida espiritual, que são a
riqueza e a miséria.
Neste contexto, o
”capitalismo burguês” instala no interior do homem a ganância que, por sua vez,
é o principal fator das “lutas de classes”.
Uma como a outra
esterilidade dos verdadeiros esplendores humanos. O miserável não pensa mais
nas transfigurações da sua alma, da sua vida, do mundo, o novo rico se satisfaz
com a aparência superficial, fácil e enganadora. Ao mesmo tempo vemos fugir, a cada
dia, a liberdade necessária para uma contemplação desinteressada do universo
(MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 65).
A partir dos problemas apresentados, Mounier decide, por
assim dizer, “libertar” o cristianismo, Igreja católica, dessa desordem,
criando a revista “Espirit”, buscando conscientizar os cristãos a uma nova
maneira de pensar, ou seja, a uma nova forma de revolução em favor da
“verdade”, combatendo, dessa forma a “mentira do capitalismo”, que ilude os
homens.
Mounier vê o capitalismo como um enganador dos homens,
pois os iludem em nome de uma civilização, enquanto apenas visa o lucro. O
capital afirma que está ao lado da cultura da religião, mas na realidade não
passa de um “inimigo direto dos valores”. “Do direito à responsabilidade, o
capitalismo fez um direito ao lucro e à impunidade” (MOUNIER apud MOIX, 1968,
p.68). No primeiro editorial de Espirit,
Mounier critica o “repouso aparente” que para ele é visto, em todo o Ocidente,
como superação da crise (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 61).
Seguindo o seu
mestre e amigo Péguy, Mounier se lança contra a “mentira” do capitalismo, para
combater o que ele chama de “mitos internacionais”, denunciando os escândalos
dos capitalistas, o desemprego que até então assolava a Europa e a corrupção da
parte da imprensa e também dos cristãos e, principalmente, a opressão para com
a pessoa humana. Sua luta consiste em, por meio da comunicação, libertar o
homem, sobretudo os cristãos, do “sono”, levando-os ao reconhecimento dos
valores espirituais até então perdidos. Neste contexto, para Mounier, há um mal
entendido acerca de tais crises, uma vez que o homem não consegue ter
consciência do estado no qual se encontra, ou seja, um estado de barbárie.
3
CAPÍTULO SEGUNDO
A CRÍTICA DE MOUNIER
3.1 A falsa libertação: crítica ao
marxismo e ao espiritualismo
Mounier, na busca de uma “Libertação” econômica e,
principalmente, espiritual, apoiou-se no personalismo, como ponto primordial na
edificação de uma sociedade mais justa. Para o filósofo existencialista
cristão, é preciso que o homem tome consciência de sua missão que é lutar pela
liberdade, tanto espiritual, quanto material. Ou seja, não basta apenas criar
meios de libertação a partir da revolução em massa, como pensara os marxistas.
Não basta, somente, como pensara os espiritualistas, buscar uma liberdade
interior, por meio da moral e dos costumes, esquecendo-se dos meios econômicos
e sociais. É necessário que matéria e espírito estejam em unidade no processo
libertador. Esta unidade se faz num processo, também, de unidade do homem com o
outro. Somente pelo engajamento da pessoa humana pode-se falar no “reino da
liberdade”.
Neste contexto, o filósofo levantou o problema e a
importância do “engajamento do cristão na construção da cidade humana” (MOUNIER
apud SEVERINO, 1974, p. 16). Por isso, seu trabalho extenso partira com maior
foco à “metafísica da pessoa”. O homem, segundo o filósofo, não é um objeto e
por isso não pode ser tratado como tal. Sua crítica, também é aos modernos
“espiritualismos” que separa o homem em duas substancias independentes, ou
seja, entre matéria e espírito.
No personalismo
cristão de Mounier, “o homem é corpo exatamente como é espírito, é
integralmente ‘corpo’ e é integralmente ‘espírito’”, ou seja, o corpo e a alma
são indissolúveis (MOUNIER, 1949, p. 14).
Sendo assim, uma vez que este homem não é objeto
condicionado à natureza, o problema não é somente material, e por isso, não
pode ser visto apenas no ponto de vista econômico. Deve-se aqui, entender, que
por participar dessas duas substâncias, matéria e espírito, faz-se necessário,
uma revolução, acima de tudo, espiritual. Contudo, quando se fala em
personalismo mounieriano, não se deve entender como um “espiritualismo”, uma
vez que o comportamento humano é dominado por situações, tanto biológicas,
quanto econômicas.
Neste contexto, para que haja uma libertação é necessário
considerar o homem em sua totalidade, ou seja, corpo material e espírito:
Há
muito tempo, sem dúvida desde que o homem é homem, que numerosos indivíduos e
vastos movimentos tentam quebrar essa escravidão; só ou em grupo, o homem atinge
num só lance os cumes da humanidade, antes de retomar lentamente as suas
tentativas de aproximação. Mas o universo pessoal não existe ainda senão em
linhas individuais e coletivas como promessa realizar. A sua progressiva
conquista é a história do homem (MOUNIER, 1949, p. 17).
Percebe-se que a crítica de Mounier é direcionada tanto
aos espiritualistas, quanto aos materialistas, pois, segundo ele, ambos
apresentam uma forma insuficiente de libertação. De um lado se tem os
espiritualistas e moralistas, que, na sua impotência, “desprezam o jugo do
biológico e do econômico” (MOUNIER, 1949, p. 17), ou seja, os moralistas,
espiritualistas acreditavam apenas na crise de valores, dos costumes. Assim,
para estes, mudando o homem, muda-se, automaticamente a sociedade.
Por outro lado se tem o marxismo, que prega a necessidade
de um movimento econômico e social no processo de libertação humana. Mounier
não nega a importância do marxismo como lugar central no pensamento
contemporâneo, contudo, sua crítica não é diretamente a Marx, pois este pensara
numa revolução dialética, e para Mounier, o cristianismo se apropriara deste
pensamento para criticar o “falso espiritualismo”, mas sua crítica foi aos seus
“discípulos”, que de certa forma, deturparam o pensamento de Marx.
Nas palavras de Moix, Mounier criticou o marxismo, pois
este vira o espiritual como um “produto das condições sociais e econômicas”
(Idem, p. 242). Neste contexto, para o filósofo francês, o marxismo, visava
apenas o desenvolvimento econômico, rejeitando, por assim dizer, o desenvolvimento
espiritual, acreditando apenas no poder coletivo como essencial no processo de
libertação.
Espírito,
vida interior, Deus, são ideais mistificados nos quais o homem, espoliado pelo
capitalismo, se evade, fugindo, assim, do seu destino concreto e desviando-se
da consciência revolucionária de sua opressão. Assim, o marxismo recusa não
somente o cristianismo, mas toda e qualquer forma de realismo espiritual
(MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 242).
Neste contexto Mounier é literalmente oposto ao marxismo,
pois embora este, também, combata a alienação ideológica, recusa qualquer forma
espiritual, e neste caso, o marxismo não vê o homem na sua totalidade, ou seja,
matéria e espírito, mas apenas no âmbito materialista. No livro “Manifeste”
Mounier escrevera sobre o marxismo: “Não reserva lugar algum na sua visão ou na
sua organização do mundo a esta forma última da existência espiritual que é a
pessoa, e aos seus valores próprios: a liberdade e o amor” [9]
(Idem).
Neste sentido,
diferentemente do personalismo, que visa o homem na sua totalidade, corpo e
espírito, e por isso para que este seja livre são necessárias as duas formas de
libertação, o marxismo visa, na concepção de Mounier, a libertação humana de
duas formas distintas:
“pelo ateísmo”,
que recusa qualquer visão “espiritualista”, ou pelo trabalho, ou seja, “esforço
industrial”, pela qual o homem “transforma a natureza” (Ibidem). Neste sentido,
para Mounier nesta liberdade não há “evolução humana”, e seria, dessa forma,
uma “sociedade sem classe” [10].
Assim sendo, para os marxistas, a mudança social está
relacionada apenas a mudança econômica. Não obstante os marxistas pensem
somente no campo material, e isto seria, para Mounier, uma crença apenas na
matéria, o filósofo Francês concorde em alguns pontos com o pensamento, pois
para ele, é necessário considerar os dois aspectos: seja econômico, seja espiritual.
Mounier utilizando do pensamento de Hegel descreve:
Mas
o materialismo, embora pela razão inversa, não o é o menos. Como disse o
próprio Marx, ‘materialismo abstrato’ e ‘espiritualismo abstrato’, torna-se, e
não se trata de escolher um ou outro, mas ‘a verdade que une os dois’ para
aquém da sua separação. Cada vez mais a ciência e a reflexão nos revelam um
mundo que não pode passar sem o homem e um homem que não pode passar sem um
mundo (MOUNIER, 2004, p. 18).
Sendo assim, para Mounier, há uma insuficiência da parte
dos materialistas, pois a infraestrutura necessita de uma ligação mais profunda
acerca do plano ontológico humano. “O espiritual também é uma infraestrutura”,
afirma (MOUNIER, 1949 p. 18). Neste caso, a desordem estabelecida, está
relacionada a uma ligação entre o material econômico, e o espiritual.
As
desordens psicológicas e espirituais, ligadas a uma desordem econômica, podem
minar durante muito tempo as soluções adquiridas no campo da economia. E mesmo
e mais racional estrutura econômica, se estabelecida com desprezo das
exigências fundamentais da pessoa, traz dentro de si a própria ruína (MOUNIER, 2004,
p. 18).
Sabe-se que a revolução marxista não foi apenas
materialista. Ouve um pensamento voltado a crítica da “alienação idealista”, e
isso Mounier soube reconhecer como valiosa importância, uma vez que, pela
teoria e pela prática o marxismo travou uma luta contra a “decadência
idealista”. Contudo, O personalismo se opõe ao marxismo uma vez que este
somente visa uma manifestação de revolta da parte dos pobres e oprimidos, de
forma desencarnada.
Mounier descreve o marxismo, no seu primeiro número da
sua revista, como um “filho rebelde do capitalismo”, pois recebe “a fé apenas
na matéria” [11].
Moix, citando Mounier relata:
O
marxismo tem a confiança de uma grande parte das massas trabalhadoras: para
estas é uma fé, um símbolo de libertação. O dramático do debate é quando a
estas massas empolgadas por estas esperanças temos de responder por alguns non
possumus sem ambiguidade (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 245).
Nas palavras de Candide Moix, Mounier viu o marxismo como
um cooperador, no sentido da libertação espiritual do próprio homem:
O
marxismo é uma poderosa análise do homem situado, e o personalismo se sente de
acordo com ele neste ponto. Ambos relembram o valor do impessoal e das
meditações. O marxismo é antes de tudo um notável método de análise e de ação.
Em todas as suas etapas parte do exame minucioso dos fatos (MOUNIER apud MOIX,
p. 246).
Neste sentido, embora haja diversas críticas do
personalismo para com o marxismo, pois segundo Mounier a proposta marxista é
insuficiente, no processo de liberdade humana, ambos andaram por caminhos
semelhantes, ou seja, na tentativa de libertar o homem do seu sono seja
espiritual, seja material. Ambas têm a mesma crítica ao capitalismo, no
entanto, somente Mounier pensa o homem como um ser também, espiritual.
Para o filósofo cristão, acreditar que acabando com a
miséria material, como pensam os marxistas, o homem viva plenamente a liberdade
definitiva é uma ilusão.
A
experiência volta sempre à mesma: nem o poder, nem a razão raciocinante
satisfaz à vocação do homem; uma distração nova, uma civilização que passa, o
prazo é adiado, e as cadeias apenas mudaram[12].
Para
Mounier, “o marxista tomou o ponto de chegada pelo ponto de partida, e por isso
não liberta o homem” (MOIX, 1968, p. 252) neste sentido, o filósofo vê a total
insuficiência do marxismo está justamente por se prender num tempo dentro da
história. Para Mounier, a dialética necessita de continuação, ela precisa ser
“viva” no sentido de ter continuidade. Ao contrário de tudo isso, deixa de ser
dialética, ou seja, “educação” e passa a ser “domesticação”. Nas palavras de
Moix, Mounier vê o erro do marxismo, justamente em “querer dar sua explicação
como válida para todos os tempos” (Idem). Neste contexto, Mounier vê o marxismo como um
mito e não como uma filosofia, pois “quem diz dialético diz para o futuro”. Nas
palavras de Moix, afirma Mounier:
O
determinismo puro é a própria negação da revolução, de toda ação e de todo
conhecimento. Não haverá revolução concluída definitivamente enquanto uma
iniciativa humana insistir em dela tirar significação. Toda ação autentica
supõe a liberdade e, por isso mesmo, opõe-se ao determinismo absoluto[13].
Hoje não tem fundamento a crença no determinismo da matéria. As pesquisas dos
sábios mostram que há nela um indeterminismo essencial (MOIX apud MOUNIER, 1968,
p. 253).
O filósofo francês faz, também, uma crítica aos
idealistas, pois estes, além de reduzir a matéria à aparência do espírito, por
meio de uma atividade ideal, colocam o homem ao mesmo nível das “relações
geométricas ou inteligíveis”, ou seja, o homem é visto apenas como objeto.
Por
mais abundante e sutil que seja a luz que o espírito humano leva até às menores
articulações do universo, a materialidade existe de uma existência irredutível,
autônoma, hostil à consciência [...] O que é radicalmente estranho à
consciência não é mais do que dispersão pura, cega e opaca. Não podemos falar
de um objeto, e com maior da razão, não podemos falar de um mundo, senão em
relação com a consciência que o apercebe [...] A minha existência encarnada é
fator essencial da minha situação pessoal (MOUNIER, 2004, p. 18).
O homem, segundo Mounier, uma vez sendo constituído de
corpo e espírito não pode ser pensado como objeto, ou resultado de
condicionamentos físicos e naturais, mas como totalidade, ou seja, encarnado e
chamado à liberdade pela “existência”.
3.2 A verdadeira revolução: o engajamento
e a comunicação
Mounier aponta a
necessidade de uma revolução contra a desordem estabelecida de seu tempo. Para
se falar em revolução, embora esta palavra não lhe evoque boas lembranças, pois
traz consigo a “violência” e o “terror” faz-se necessário considerar que ela
precisa acontecer em todos os sentidos que atinge o homem na sua totalidade, ou
seja, lutar contra a desordem estabelecida requer uma transformação em todos os
aspectos da vida humana. Para isso, é de suma importância que haja um
engajamento, “o engajamento total a serviço da pessoa humana” (MOUNIER apud MOIX,
1968 p. 89).
No pensamento do filósofo, engajamo-nos com nossas
próprias vidas e nossas “almas”, não somente pela palavra que ela contém, mas
“pela prece humana que ela contém” (Idem).
A revolução, no pensamento personalista, parte daqueles
que de certa forma, lutam pela causa dos oprimidos, e por esse motivo se reúnem
com apenas uma finalidade: lutar pelos seus direitos. Isso exige, muitas vezes,
um derramamento de sangue, ou, o martírio da parte destes sem voz e vez. Mounier
pensou numa revolução “indissociavelmente material e espiritual” (Ibidem). Quer
dizer, o homem não é “anjo” nem “animal”, mas é um e outro.
O homem é uma planta
fixada na terra. Dela tira ele seus sucos, mantido rente ao chão pelo ritmo do
seu destino. Mas sua destinação atravessa-lhe o destino como um fluxo de seiva
e, sem arrancá-lo de seu solo, eleva-o cada dia mais alto (MOUNIER apud MOIX, 1968,
p. 90) [14].
Sendo
assim, a revolução deve acontecer na sua totalidade, quer dizer, na escarnação
não somente pela “matéria”, mas, sobretudo, pelo “espírito” (MOUNIER apud MOIX,
1968, p. 90).
Nesse
contexto, o filósofo Frances propõe, para cada aspecto, soluções diversas. “somos
duplamente revolucionários, mas em nome do espírito” [15]
(Idem), afirma Mounier. O filósofo pensou numa revolução que vá além, ou por
assim dizer, uma conversão nas estruturas espirituais. De certo, pode-se pensar
que, o homem que não possui o mínimo de subsistência não pode falar em revolução
espiritual, pois, se assim fosse, tal, revolução seria apenas uma “máscara”, ou
escapatória, e isso seria hipocrisia. Neste contexto, afirma Mounier:
Sempre dissemos: “o
espiritual, para nós, não é uma máscara ou uma escapatória. Temos certo número
de debates fundamentais a regular todo o mundo. Mas, antes disso, pão,
trabalho, dignidade para aqueles que não têm. Antes de tudo, para poder falar
do homem sem remorsos, a destruição de um regime desumano” [16]
(MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 91).
Contudo,
Mounier concorda que a revolução seja econômica, contanto que traga consigo a
revolução espiritual. Uma entrelaçada à outra. Assim sendo, a revolução
econômica enriquece o espírito e a revolução espiritual enriquece, por sua vez,
a economia. O importante, em Mounier, é que haja, na política, a ordem e a
justiça social.
“O homem, afirma Mounier, não foi feito para a
utilidade, mas para Deus” (MOUNIER apud MOIX, p. 97). Com essas palavras
Mounier viu a necessidade de um profundo desabrochar interior.
Ele não vê o destino feliz do homem, nem no
âmbito social, muito menos no político, mas na capacidade de uma humanização.
Nessas palavras escreve:
Nosso domínio é, em
primeiro lugar, a busca de um humanismo. E se o político, o social e o
econômico comandam hoje todas as pistas por onde passa uma libertação do homem,
o que serão homem amanhã, interessa muito mais aqui do que aquilo que ele
fabrica e vende, do que os jogos do poder ou as variedades dos partidos[17]
(MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 97).
Pode-se
afirmar que, para Mounier, a liberdade humana, não obstante seja uma conquista
árdua e difícil, é possível. Contudo, é necessário que este ser pensante, se
empenhe nas mais diferentes estruturas, principalmente, na estrutura
espiritual, pois para ele, “é a crise do espírito que é a causa da desordem
econômica e política” (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 98), e que esta liberdade
seja, de certa forma com condições.
Portanto,
a revolução espiritual proposta por Mounier, consiste na restauração dos
valores espirituais que foram, de certa maneira, traídos pela ganância humana.
Ou seja, é uma revolução contínua, pois consiste em “trazê-los de retorno à sua
pureza e engajá-los na reconstrução do mundo” (MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 99).
Para
se falar em revolução espiritual, é de suma importância, também, no processo
personalista, uma comunicação. O homem, afirma Mounier, não pode viver em um
mundo isolado.
Afinal
um dos aspectos que o filósofo critica como causa de desordem estabelecida é,
justamente, o individualismo. Neste sentido, o filósofo descreve:
Assim,
a primeira preocupação do individualismo é centrar o indivíduo sobre si mesmo,
e a primeira preocupação do personalismo é descentrá-lo para o colocar nas
largas perspectivas abertas pela pessoa (MOUNIER, 2004, p. 23).
Percebe-se,
neste contexto que Mounier propõe uma revolução que tenha como princípio
essencial o encontro do Eu com o outro. Uma revolução comunitária, ou seja, na
qual haja um engajamento a partir da experiência vivida, que o povo se una em
só objetivo: revolucionar a história, não como pensara Marx, um “messianismo do
proletariado”, pois para Mounier, “a ideia de uma classe oprimida tornando-se a
classe que deterá todos os postos do poder passando ao oprimir, por sua vez, é
coisa totalmente estranha” (Idem), mas como um todo, na luta pela humanização
da humanidade. Para que esta revolução aconteça, é de suma necessidade forças
políticas, que deem segurança no processo entre a teoria e a prática, e, principalmente,
a união do povo, criando, dessa forma “um novo socialismo”, em busca de um
personalismo comunitário.
Mounier via a força do povo como “instrumento”
primordial para a revolução. Como disse o próprio filósofo:
O organismo vitalizador
de uma renovação espiritual só pode ser o organismo popular, o mesmo ferido, o
mais profundamente sadio que um século de decadência nos deixou[18]
(MOUNIER apud MOIX, 1968, p. 101).
O
filósofo personalista cristão propõe, neste sentido, que o homem tenha como
“fator primitivo” a comunicação. Tal comunicação se dá no “Eu” num movimento
para o “outro”, numa perspectiva universal.
Sendo assim, neste movimento não há limites
entre as pessoas, ou seja, a pessoa se coloca como existente enquanto para o
outro, não há conhecimento de si senão pelo outro e, principalmente, não há
encontro pessoal consigo mesmo senão no outro. Nas palavras do próprio filósofo
podemos citar:
A experiência primitiva
da pessoa é a experiência da segunda pessoa. O tu e, adentro dele, o nós,
precede o eu, ou pelo menos acompanha-o. É na natureza material (e a ela
estamos parcialmente submetidos) que a exclusão reina, porque um espaço não
pode ser ocupado por duas vezes ao mesmo tempo. Mas a pessoa, no mesmo
movimento que a faz ser, expõe-se. Por isso é por natureza comunicável e até
mesmo só ela o é [...] Quando a comunicação se enfraquece ou se corrompe
perco-me profundamente eu próprio: todas as loucuras são uma falha nas relações
com os outros (MOUNIER, 2004, p. 24).
Nesse
contexto, para Mounier, eu somente existo na medida em que eu me comunico com o
outro, ou, por assim dizer, eu amo. Neste sentido, “ser é amar”. Aqui se
encerra todo pensamento personalista cristão. O primeiro ponto central do
personalismo se dá no ato de “sairmos de nós próprios” de temos a capacidade de
se libertar de nós mesmos e a partir deste movimento nos colocarmos como
“disponíveis” aos outros.
O segundo ponto central personalista é a
compreensão, ou seja, “deixar de me colocar sempre no meu próprio ponto de
vista, para me situar no ponto de vista dos outros” (MOUNIER, 2004, p. 24),
numa atitude de entrega, contudo, “ser todo para todos sem deixar de ser e de
ser eu” (Idem).
O
terceiro ponto do personalismo cristão é de tomar sobre si a angústia e o
sofrimento e até mesmo as alegrias do outro. Nas palavras do filósofo, “sofrer
na nossa própria carne” (Ibidem).
O
quarto ponto essencial para que o homem seja verdadeiramente comunicável, no
sentido cristão é a doação. Isso significa não servir pela “reivindicação”, que
Mounier aponta o individualismo do pequeno burguês, ou seja, pelos próprios
interesses pessoais, mas que seja pela “generosidade”, no ato da gratuidade
cristã. Nesta, afirma o filósofo se encontra todo “valor libertador do perdão e
da confiança” (MOUNIER, 2004, p. 25).
Por
último, a proposta libertadora se dá pela fidelidade para com o outro. Para
Mounier, “a aventura da pessoa é uma aventura constante desde o nascimento até
a morte. As dedicações pessoais, amor, amizade, só podem ser perfeitas na
continuidade” (Idem). Neste contexto, “a fidelidade pessoal é uma fidelidade
criadora” [19].
Estes movimentos de coletividade, na
perspectiva personalista de Mounier gera o sentimento mais sublime, o amor.
Este amor, quando realizado em sua totalidade, no encontro do eu com o outro,
torna-se uma forma diferente, nova e transcendente, de ser.
Dirige-se ao sujeito
para além da sua natureza; quer a sua realização como pessoa, como liberdade,
quaisquer que sejam seus dons ou defeitos, que não são essenciais a seus olhos;
o amor é cego, mas de uma cegueira extralúcida. Libertando aquele que é
chamado, a comunhão liberta e confirma aquele que chama. O ato de amor é a mais
forte certeza do homem, o ‘cogito’
existencial irrefutável: amo, logo o ser é, e a vida vale (a pena ser vivida) (MOUNIER, 2004, p. 25).
Pode-se
dizer, neste contexto, que para Mounier, o indivíduo somente se torna pessoa a
partir do momento em que se direciona ao outro numa atitude de disponibilidade
gerando, dessa forma, a comunhão. Neste sentido, a comunidade é o elemento
principal e fundamental, que proporciona a vida interpessoal.
3.3 A liberdade condicionada no
personalismo de Mounier
Desde que o homem se
entende como um “ser pensante” a liberdade é ponto fundamental nas suas
discussões. Afinal, quem não deseja viver uma liberdade plena, absoluta. Sobretudo
os liberais e existencialistas. O problema aqui se encontra, justamente, no
fato de que, se formos viver esta liberdade absoluta, como seria o mundo se nós
pensássemos apenas no nosso “eu”?
Ao pensar numa
liberdade a partir do individualismo, pode-se dizer que o mundo se
transformaria num caos. Esta liberdade individual, para Mounier é uma ilusão. Mounier,
para falar de liberdade, inicia fazendo uma crítica àqueles que querem criar
conceitos acerca da liberdade, tornando-a objeto.
A
liberdade tem muitos apaniguados: liberais [...] marxistas Existencialistas e
Cristãos [...] Por que tanta confusão? Porque cada vez que a isolamos da
estrutura total da pessoa, exilamos a liberdade para alguma aberração (MOUNIER,
2004, p. 43).
Na
busca de uma melhor definição do que seja a liberdade, a partir de sua
experiência, pois para ele era impossível separar as ideias da prática do dia a
dia, Mounier busca entender, nos mais diversos aspectos, o “reino da liberdade”.
Logo após, ele critica o conceito que os modernos tinham acerca da liberdade e
por isso, faz uma crítica severa a estes que, de alguma forma, querem coisificá-la.
Segundo o filósofo, “A liberdade não é uma
coisa, um objeto”. Assim sendo, ela não pode ser entendida como tal. “A
liberdade”, afirma o filósofo, “é a afirmação de pessoa, vive-se, não se vê”
(MOUNIER, 2004, p. 43).
Para
se falar de liberdade, no personalismo, é necessário entender que, em Mounier,
uma liberdade absoluta é ilusória, uma vez que somos condicionados por um
determinado tempo, espaço e outros fatores.
Assim, melhor seria uma discussão, a partir do
contexto no qual vive a pessoa, uma vez que somente pode existir liberdade se o
homem entender todo o processo de libertação material e espiritual. Nesse
contexto, a liberdade se depara com um grave problema, ou seja, como falar de
liberdade em um mundo no qual ainda se vive a luta de classes? De um lado se
tem o opressor que a cada dia se enriquece às custas do pobre; por outro lado
há esta grande massa de oprimidos que lutam apenas para sobreviver. Estes
fatores, já citados anteriormente não condizem, com o “reino da liberdade”.
A
liberdade humana, no pensamento mounierniano, sempre foi ameaçada, e no contexto
de sua época por capitalistas, individualistas, pessoas que, pela sua ganância
pela riqueza material, empobrecem-se espiritualmente causando, dessa forma, a
desordem espiritual.
A
este último, como já sabemos, ele chama de “desordem estabelecida”. Em suas
palavras, “só o espírito comunitário pode ‘libertar’ a liberdade dos liberais’”
[20].
Neste
sentido, Mounier, seguindo os passos do seu mestre Péguy, luta com todas as
forças para combater esta desordem que leva o homem ao estado de morte.
Mounier, há duas formas
equivocadas de se pensar a liberdade: a primeira é a liberdade da indiferença,
ou seja, uma liberdade que não é boa nem ruim, apática, sem qualquer tipo de
determinação, seja do pensamento quanto da ação. A segunda forma de liberdade é
a que, nós “mendigamos ao indeterminismo físico”, quer dizer, pensar que os
físicos modernos vão prová-la pela física.
Mais uma vez tem-se uma errada idéia de
liberdade. Por isso ele afirma que “a liberdade do homem não é o resto de uma
adição universal” (MOUNIER, 2004, p. 45). A liberdade, para Mounier, não pode
ser conquistada “contra os determinismos naturais, conquista-se por cima deles,
mas com eles” (idem).
O filósofo destaca dois
pontos que podem ser levados em consideração: primeiro é que, a ciência não
pode determinar o universo, ou seja, não pode chegar a uma perfeita
sistematização, e, se é assim, caso não tenha nada a dizer a favor da
liberdade, também não pode contestá-la; Segundo é que, “a natureza revela uma
preparação lenta e contínua condições do que se pode chamar de liberdade”
(Ibidem, p. 44). Neste sentido, para Mounier, a liberdade não pode ser
determinada materialmente, mas ela atua no mundo no qual a autonomia corporal a
que se movimenta, se nutre de outras possibilidades e regulamenta a autonomia
espiritual da liberdade. Nas palavras do filósofo:
É
a pessoa que se faz livre, depois de ter escolhido ser livre. Em parte nenhuma
encontrará a liberdade dada e constituída. Nada no mundo lhe garantirá que ela
é livre se não entrar audaciosamente na experiência da liberdade (MOUNIER, 2004,
p. 44).
Sendo assim, Mounier afirma que, a liberdade não
resulta dos preparativos da natureza, mas, ela resulta das iniciativas das
pessoas.
Portanto, a liberdade
mounieriana não pode, de forma alguma, ser espontânea, nem absoluta, sem
limites. Neste contexto, a liberdade absoluta, para Mounier é um “mito”, pois
se estamos inseridos numa realidade, temos que considerar as condições que esta
realidade nos impõe, e se “somos condenados à liberdade” corremos o risco de
nos tornarmos escravos de nós mesmos. Neste caso, não se encontra a liberdade
dada e constituída, mas somente pela experiência, ou seja, a liberdade garantida
é aquela que o indivíduo tem pela experiência. Segundo Marcel, para Mounier, ‘o
homem livre é o homem que pode prometer entre o homem que pode trair (MOUNIER, 2004,
p, 45).
Mounier afirma que a
existência livre é uma pura subjetividade. Quer dizer, subjetivamente é
possível uma liberdade total, pois não a alcançamos senão por dentro de nós
mesmos. Ela é “fonte viva de ser” [21]
e somente a encontramos se já nascermos com ela.
“É a liberdade do condenado, a transcendente
liberdade da consciência pessoal. Liberdade que então não depende das
liberdades concretas” (MOUNIER apud SEVERINO, 1968, p. 69). “A liberdade de uma
pessoa e desta pessoa assim constituída e situada em si mesma, no mundo e
diante dos valores” [22].
Neste contexto, a liberdade é entendida como um chamado, uma vocação, pois se
assim não fosse não seria liberdade. Contudo, quando se parte para a questão da
objetividade esta se limita dentro das questões materiais, ou seja, sociais
econômicas, psicológicas, biológicas e políticas. A liberdade personalista
cristã é condicionada. Afirma Mounier:
Isso
implica que ela é, na maioria dos casos, estreitamente condicionada e limitada
pela nossa situação concreta. Ser livre é primeiramente aceitar esta condição,
para dela partir. Nem tudo é possível, nem tudo é possível em todos os momentos.
(MOUNIER, 2004. p.47)
Mounier coloca a liberdade
condicionada no tempo e no espaço, de acordo com a situação a qual o homem se
encontra. Pode-se dizer que no campo econômico e político, o filósofo vê a
liberdade somente numa condição voltada no processo de libertação, não como
pensara Marx, ou seja, que pela revolução material ou até mesmo ideológica se
encontre a liberdade, mas que esta seja, primeiramente, interior, depois esta
liberdade deve se expandir para o outro. É a personalização do eu com o outro.
Assim sendo, a
liberdade é uma ação autônoma e esta deve ser uma libertação da opressão que
afeta qualquer situação, seja material, seja espiritual.
“libertação
que não é eliminação dos laços condicionantes, mas apoio no condicionamento
para melhor avançar [...] esta personalização libertadora é a medida da
liberdade como autonomia humana espiritual” [23].
Portanto, a liberdade
personalista de Mounier é um movimento em que se faz forte e ao mesmo tempo
frágil.
Ela é condicionada de todas as formas e de
todos os lados, e por esse motivo, é uma liberdade que deve ser, a cada
instante “reconquistada”, muitas vezes com luta, e assim, ela se torna forte
quando esta conquista se faz vitoriosa.
Nas palavras de Severino, Mounier descreve:
Nesta
luta constante da liberdade contra as alienações, cada etapa é consolidada pelo
batismo da escolha. Escolha que parece, primeiramente, como um poder. Cria
também uma nova ordem e uma nova intergibilidade nas fatalidades rompidas, em
nome de um novo valor visto e assumido. Também a pessoa sai com uma nova maturidade.
Faz o mundo avançar e forma o homem. Enfim agindo como ser livre, a pessoa é
fonte contínua de criatividade. Nisto a pessoa jamais poderá ser substituída
pela técnica[24]
(MOUNIER apud SEVERINO, 1974, p. 71).
Em suma, a liberdade
condicionada, segundo o personalismo, traz consigo o movimento da
responsabilidade, uma vez que há liberdades e liberdade. E se temos a liberdade
de escolha, deve-se entender a própria liberdade como a capacidade de criar, revolucionar,
libertar, enfim, de fazer a melhor opção destas escolhas, que seja para o
próprio bem e para o bem de todos. Ao contrário ter uma liberdade somente subjetiva,
pode acarretar o risco de esta se tornar um meio de alienação, ou por assim
dizer, escravidão. Neste contexto afirma Mounier:
O
homem livre é um homem que o mundo interroga e que responde; é o homem
responsável. A liberdade, assim entendida, não isola, mas une, não permite a
anarquia, mas é, na verdadeira acepção destas palavras, religião, devoção. Não
é o ser da pessoa, mas o modo como a pessoa é tudo o que é, o é mais plenamente
do que por necessidade (MOUNIER, 2004, p. 48).
Por fim, a liberdade
personalista cristã parte, primeiramente, da subjetividade humana, como um
chamado a ser livre e este chamamento parte, por assim dizer, de Deus, e
transcende o outro de forma responsável e eficaz. Não basta sonhar com uma
liberdade absoluta. É importante perceber que, no campo objetivo e concreto,
embora a liberdade não possa ser no pensamento de Mounier, de forma alguma,
objetivada, a liberdade é condicionada.
4
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
O caminho percorrido
até aqui, mostra o conceito de liberdade segundo o pensamento do filósofo
existencialista cristão Emmanuel Mounier. Para isso, foi necessário contextualizar,
no seu tempo, sua crítica, aos demais filósofos de sua época, sobretudo aos
marxistas, que afirmavam ser a liberdade fruto de uma revolução materialista e
idealista.
Neste contexto, a partir do tema proposto,
surgiu um problema em relação a liberdade: é possível uma liberdade interior,
ou seja, espiritual, em um sistema econômico injusto? A problemática que se levantou
teve como objetivo abordar a crítica do filósofo francês ao capitalismo, que
ele chama de “desordem estabelecida”, que trouxe consigo a crise espiritual do
século XX, e também, aos marxistas e espiritualistas burgueses, que apresentavam
propostas que Mounier considera insuficientes no processo de libertação humana.
A primeira por ser apenas uma revolução materialista e por esse motivo não gera
total liberdade, uma vez que somos matéria e espírito; e a segunda por ser, de
certa forma, voltada apenas para o moral e o religioso, não se envolvendo com a
realidade do outro.
Mounier propôs uma
revolução a partir do personalismo, ou seja, voltada para todos os aspectos da
pessoa. Uma revolução que parte primeiramente do eu e depois para o outro, que
seja engajada, pela encarnação, pois somente pelo engajamento a pessoa pode ser
considerada livre. Contudo, a liberdade personalista cristã não é pronta e
acabada, tal como também o homem não o é, mas é uma liberdade conquistada,
todos os dias, e por isso é uma liberdade condicionada ao tempo e ao espaço no
qual se encontra o homem. A liberdade mounieriana traz consigo a
responsabilidade. Assim, o homem não pode pensar numa liberdade individual, mas
sim, coletiva, comunitária.
REFERÊNCIAS
ABBAGNANO, Nicolas: Dicionário de Filosofia; Trad. Alfredo Bosi, São Paulo: Martins
Fontes, 2007.
MOIX, Candide: O pensamento de Emmanuel Mounier,
Trad. Frei Marcelo L. Simões O. P. Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro,
1968.
MOUNIER, Emmanuel: O personalismo, Trad. São Paulo: Martins Fontes: Santos, 2004.
SEVERINO, A. Joaquim: A Antropologia
Personalista de Emmanuel Mounier, ed.
Saraiva; São Paulo, 1974.
[1] (MOUNIER, Emmanuel: O personalismo, ed. Martins Fontes;
Santos, 1964). O termo Personalismo, embora já tenha sido empregado
anteriormente por outros autores, somente a partir de 1930, é retomado na
França na filosofia personalista de Emmanuel Mounier em seu lançamento da
revista Espirit, como o Universo pessoal do homem, ou seja, o sujeito na sua total
realização vocacional, chamado à ação. Este homem que se coloca como um ser
único no mundo, não é um sujeito acabado, mas um sujeito que se constrói pelo
engajamento com o outro. Um sujeito encarnado, composto de corpo e espírito,
acima de qualquer coletividade ou instituição. Contudo, ele é atuante que aje
no mundo, não como objeto, mas como aquele que é chamado a agir como pessoa
humana na luta pela humanização da humanidade. É importante levar em
Consideração que Mounier foi um autêntico Cristão, e por isso, ele considera o
ser humano segundo o pensamento cristão, não como um “cruzamento” de matérias e
ideias, mas como um todo, indissolúvel, criado pelo Ser Supremo, que por amor o
fez, e Este precede toda a existência. Para Mounier, o “conhece-te a ti mesmo”
de Sócrates, foi a primeira revolução personalista conhecida.
[2] ABBAGNANO, Nicolas: Dicionário
de Filosofia; Tr. Alfredo Bosi, 1 ª ed. Martins Fontes, São Paulo, 2007
Liderdade: (gr. èteu6epía; lat. Libertas; in. Freedom, Liberty; fr. Liberte;
ai. Freiheit; it. Liberta). Esse termo tem três significados
fundamentais, correspondentes a três concepções que se sobrepuseram ao longo de
sua história e que podem ser caracterizadas da seguinte maneira: l1 L. como
autodeterminação ou autocausalidade, segundo a qual a L. é ausência de
condições e de limites; 2a L. como necessidade, que se baseia no mesmo conceito
da precedente, a autodeterminação, mas atribuindo-a à totalidade a que o homem
pertence (Mundo, Substância, Estado); 3a L. como possibilidade ou escolha,
segundo a qual a L. é limitada e condicionada, isto é, fínita. Não
constituem conceitos diferentes as formas que a L. assume nos vários campos, como
p. ex. L. metafísica, L. moral, L. política, L. econômica, etc. As disputas
metafísicas, morais, políticas, econômicas, etc. em torno da L. são dominadas pelos
três conceitos em questão, aos quais, portanto, podem ser remetidas as formas
específicas de L. sobre as quais essas disputas versam.
[3] Cf. MOUNIER, 2004, p. 8. O termo “encarnação”,
pode ser entendido no sentido cristão, ou seja, para Mounier, “o homem não é o
cruzamento de várias participações em mais gerais realidades – Matéria,
ideias”, mas este é um “todo indissociável, cuja unidade, porque no absoluto
assente, precede a multiplicidade” [...] Assim sendo, afirma o filósofo, “a
encarnação continua a unidade da terra e do céu, da carne e do espírito,
continua o valor redentor da obra humana logo que assumida pela graça”. Neste
contexto, “cada pessoa é criada à imagem e semelhança de Deus, cada pessoa é
chamada para formar um imenso Corpo místico e carnal na Caridade de Cristo”.
[4] A revista “Esprit” foi fundada em
outubro de 1932, por um movimento criado por Mounier e outros jovens: Georges
Izard, Déléage, Jean Lacroix, Nicolas Berdiaeff, Denis de Rougemont e Réné
Biot. Espirit foi porta voz do movimento espiritual personalista. Estes jovens,
inconformados com a realidade de seu tempo, denunciavam os problemas do
Ocidente e apontavam a necessidade de uma “nova geração”.
[5] SEVERINO A, Joaquim, 1974, p. 1 A
partir da leitura de “Mounier et as génération, lV, pág. 411” Mounier fora
criado, até os 19 anos de idade com seus pais, avós e uma irmã mais velha que
ele, Madeleine Mounier, em sua cidade natal. Desta origem e de sua infância,
guarda uma grata recordação. Assim dizia Mounier: “Eu sou um montanhês”.
[6] SEVERINO, A. Joaquim. Cf. Béguin, A.,
“Une vie”, Espírit, nº 12, dez. 1950, págs. 936-937. Mounier, na sua juventude,
sofrera dois acidentes que afetaram sua audição e sua visão. Acabara perdendo
uma vista e um ouvido. Desta experiência, ficar-lhe-ia muito do sentido da
fragilidade da vida.
[7] Cf. MOIX, Candide. O pensamento de Emmanuel Mounier. Rio
de janeiro: Paz e Terra, 1997. p. 12. Marcel Péguy foi um Cristão e “o filósofo
do século XIX”. Contemporâneo, mestre e, sobretudo, amigo de Mounier, foi um
homem que lutou contra a desordem estabelecida de seu tempo por meio de um
pensamento voltado ao espiritual e político. Pertencia ao grupo de jovens
Católicos que “revolucionou” a França dos séculos XIX - XX e também foi
fundador dos “Cahiers”. Inconformado com os problemas de sua época, seu
trabalho, juntamente com outros filósofos, entre eles, Georges Izard e o
próprio Mounier, no qual juntos publicaram em 1931, “La pensèe de Charles
Pèguy”, foi de conscientizar os jovens a buscar uma nova forma de pensar o
mundo moderno Ocidental. Péguy foi um homem “engajado”, que pensou a realidade
de seu século e agiu. “Um homem saído do povo”, afirma Luiz Eduardo Wanderley.
Homem preocupado apenas em servir, renunciou a riqueza e se opôs severamente ao
capitalismo. Admirado por Católicos, Protestantes e outros pensadores, Péguy,
torna-se respeitado por todos aqueles que lutam contra a “desordem
estabelecida” da Europa, entre estes Mounier, que o tem como “referência” à
criação da revista “Espirit”.
[8] Espírit, nº 21, junho, 1934, in Révl.
Pers., p. 197
[9] MOUNIER, Manifeste, p. 50
[10] MOIX, p. 245 Moix mostra a importância
de lembrarmos que as críticas de Mounier a Marx foram feitas lá pelas décadas
de 30, publicado na França os escritos da juventude de Marx. Não sabemos, por
certo, se Mounier faria as mesmas críticas aos escritos de Marx mais velho.
[11] MOIX aoud MOUNIER, p. 244. Citação de
Mounier et génération, p. 83
[12] MOIX, MOUNIER, Manifeste, p. 59
[13] MOIX, MOUNIER, Cf. Espirit, nº126
outubro, 1946, págs. 483-484. Relação restituída da obra de J. P. Sartre ,
Matérialisme et révolution, temps modernes.
[14]
MOIX. Espirit, nº 26, novembro, 1934, págs. 258-259.
[15] MOIX. Espírit , nº 1 outubro, 1932 in
Révol. Perso, p. 30, “Refazer a renascença”.
[16] MOIX. Espírit, nº 45, junho, 1936, p.
444, “Ajuntamento popular”.
[17] MOIX, Espírit, nº 110, maio, 1945, p.
920, “A nossos leitores.
[18] Cahiers protestants, nº 6,
setembro-outubro, 1938, p. 351, “Sobre o destino espiritual do mundo operário”.
A mesma ideia é frequentemente exprimida: cf. Espírit, nº 38, novembro, 1935,
p. 280; Liberté sous conditions, p. 270; Les certitudes difficiles, págs. 139,
190, 191; Mounier ET as génération, págs. 196, 390; Le personalisme,
págs.121-122.
[19] MOUNIER, Sobre o tema da fidelidade,
ver G. Marcel: Etre et avoir, Du refus à
I’invication.
[20] Qu’est-ce que Le personalisme? Pág.
72
[21] MOUNIER, Le personalisme, III, pág. 480
[22] Ibid, p. 480
[23] MOUNIER apud SEVERINO, p. 70
[24] Severino, p. 71 “A tendência da
psicologia tradicional a respeito da liberdade é insistir muito sobre a
caracterização como poder, como vontade contra os obstáculos. Mas Mounier alude
também, criticando-o, ao espontaneismo existencialista”.
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