domingo, 15 de julho de 2012


Descartes e o nascimento da Filosofia moderna



Introdução:
       O presente trabalho leva-nos a adentrar nos pensamentos desse grande pensador, que foi René Descartes, de maneira a traçarmos o mesmo caminho que fizera ele. Pois, esse grande e pensador racionalista moderno procura a verdade, verdade essa que o leva a duvidar de todos os seus conhecimentos que eram pautados nas realidades recebidas até então pela sua formação, pois suas indagações faz com que também nós o sigamos de maneira a sempre estarmos como  questionando a respeito da verdade. De início, Descarte elabora um método, no qual possa ele ser conduzido a tal verdade. Suas dúvidadas vão crescendo paulatinamente, de modo a suspender juízos, ou seja, “Epoché” pode ser que seja verdade, pode ser que não seja verdade. Em seu itinerário, crê até mesmo na existência de um gênio maligno e num Deus enganador, sendo esse gênio um estado psicológico, conotação semelhante que também levara o Deus enganador. Com isso, traçaremos esse percurso de Descartes, questionando sempre tudo, com um só intuito a verdade.

PALAVRAS – CHAVE: Filosofia Moderna, Método, Meditações - Cogito-Deus.    


Descartes e o nascimento da Filosofia moderna

      René Descartes nasceu no de 1596 e faleceu no ano de 1650. Sendo ele de família nobre, de modo que os seus dedicavam a medicina e ao comércio. Sua família estendeu raiz em La Haye, Tourene. Seu pai se chamava Joaquim e era conselheiro do parlamento britânico. Sendo Descartes de saúde muito frágil e era sua avó que o cuidava. Entrou no colégio Jesuíta de Le Fleché, no qual havia sido fundado dois anos antes, mas já adquirira notoriedade. A partir disso, seus conhecimentos foram progredindo tanto na realidade filosófica quanto na cientifica. Mesmo sendo um bom aluno, porém ainda nele havia indagações de maneira a não encontrar a verdade que tanto procurava, de maneira a mencionar isso no Discurso do Método. Foi ele, grande apreciador da matemática, por dar respostas exatas.

   Sua filosofia provinha da metodologia escolástica. Apesar de ter suas raízes no catolicismo, sua inquietação aí estava, pois as antigas doutrinas se iam perdendo seu vigor, de maneira que o renascentismo estava a todo o vapor, no qual as inovações científicas e culturais traçavam a realidade da época.

     Em meio ao ensino escolástico que Descartes recebera, além de ser quase que obsoletas devido a grande mudança renascentista, também havia aí um tipo de submissão as instituições políticas da época. Muito decepcionado com o colégio, ele saiu e resolveu entrar para a universidade de Poitiers, no curso de direito, e se formou. Porém, sua frustração continuara, de modo que entro para o exército, se alistando nas tropas holandesas de Maurício de Nassau, pois o pensador racionalista vínculos com a Holanda indo combater os espanhóis. Nisso faz laços de amizade com Isaac Beckman, médico holandês  que se afeiçoava com a Física e com a matemática.

     Suas teorias se a filosóficas se afeiçoavam cada vez mais com a matemática, de modo a associar as leis numéricas com as leis do mundo resgatando a antiga doutrina pitagórica. Por meio de principal teoria afirmava-se na eficácia da razão. Sua pretensão era refletir sobre a questão da doutrina da ciência e objetividade da razão frente ao Deus todo poderoso. As novas teorias científicas contrariavam as Sagradas Escrituras.

     O pensamento de Descartes desafiava as mentalidades feudalistas da época que sempre estava sobre a influência da Igreja que sobrepunha seus valores religiosos, pois a produção de conhecimento deixava muito a desejar, de maneira que, o saber era monopolizado pela Igreja. Também, uma boa parte das obras de Aristóteles se encontrava na custódia da mesma.

      Esse gênio da racionalidade viveu em épocas que, as guerras religiosas faziam o cenário da realidade dessa época na Europa. Em muitas de suas viagens pode-o presenciar os muitos tipos de religião e crenças em meio a sociedades diferentes. Pois, o que lhe chamou também a atenção, foram os modos diferentes de doutrinas que contrapunha as demais. Também, Descarte observara que, tudo de religioso, cultural etc, que está em meio a um povo, tem grande peso naquilo que as mesmas pensam e acreditam. De maneira revolucionária, o pensador racionalista procura descartar todos esses costumes, de modo a criar um método pautado naquilo que possa ser mais verdadeiro possível, descartando todo pensamentos permeados de mitos e crenças1.

O primeiro pensador moderno:
   
   Considerado Descartes, como o primeiro Filósofo moderno, foi também de grande essencialidade a sua contribuição a epistemologia, também as ciências naturais por ter estabelecido um método que ajudou o seu desenvolvimento.

       Em meio as suas obras surgiu o Discurso sobre o método e Meditações, sendo ambas escritas no vernáculo, ao invés do latin tradicional dos trabalhos de Filosofia – as bases da ciência contemporânea.

      O método cartesiano consiste no Ceticismo Metodológico: duvida-se de cada idéia que pode ser duvidada. Contrapondo os gregos antigos e os escolásticos, que acreditavam que as coisas existem simplesmente porque precisam existir, ou porque assim deve ser. Descarte instituiu a dúvida: só se pode dizer que existe aquilo que se pode ser provado. Descarte consegue provar a existência do próprio eu (que duvida, portanto, é sujeito de algo – cogito ergo sum, penso logo existo) e de Deus. O ato de duvidar como indubitável.

    Também consiste o método na realização de quatro tarefas básicas; verificar se existe evidência real e indubitável acerca do fenômeno ou coisa estudada; analisar, ou seja, dividir ao máximo as coisas em suas unidades de composição, fundamentais e estudar essas coisas mais simples que aparecem; sintetizar, ou seja, agrupar novamente as unidades estudadas em um todo verdadeiro; e enumerar todas as conclusões e princípios utilizados, a fim de manter a ordem do pensamento. Em relação a Ciência, O pensador desenvolveu uma Filosofia que influenciou muitos, até ser passada pela metodologia de Newton. Ele mantinha, por exemplo, que o universo era pleno e não poderia haver vácuo. Descarte acreditara que a matéria não possuía qualidades inerentes, mas era simplesmente o material bruto que ocupava o espaço. Ele dividia a realidade em res cogitans (consciência, mente) e res extensa (matéria). Acreditava também que Deus criou o universo como um perfeito mecanismo de moção vortical e que funcionava deterministicamente sem intervenção desde então. Descarte quer estabelecer um método universal inspirado no rigor matemático e em suas “longas cadeias de razão2”.

   A primeira regra é a evidência: não admitir “nenhuma coisa como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal”. Em outras palavras, evitar toda “precipitação” e toda “prevenção” (preconceitos) e só ter por verdadeiro o que for claro e distinto, isto é, o que “eu não tenho a menor oportunidade de duvidar”. Por conseguinte, a evidência é o que salta aos olhos, é aquilo de que não posso duvidar, apesar de todos os meus esforços, é o que resiste a todos os assaltos da dúvida, apesar de todos os resíduos, o produto do espírito crítico. Não como diz bem Jankélévitch, “uma evidência juvenil, mas quadragenária”.

    A segunda é a regra da análise: “dividir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis”. A terceira é a regra da síntese: “concluir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer para aos poucos, ascender, como que por meio de degraus, aos mais complexos”. A última a dos “desmembramentos tão complexos a ponto de estar certo de nada ter omitido” 3.

   Se esse método tornou-se muito célebre, foi porque os séculos posteriores viram nele manifestações do livre exame e do racionalismo.

      Ele não afirma a independência da razão e a rejeição de qualquer autoridade? Só contam a clareza e a distinção das idéias. Os filósofos do século XVIII estenderão esse método a dois domínios de que Descartes é importante ressaltar, o excluiu expressamente: o político e o religioso.          O método é racionalista porque a evidência de que Descarte parte não é, de modo algum a evidência sensível e empírica. Os sentidos nos enganam, suas indicações são confusas e obscuras, só as idéias da razão são claras e distintas. O ato da razão que percebe diretamente os primeiros princípios é a intuição. A dedução limita-se a vincular, ao longo das belas cadeias da razão, a evidência intuitiva das “naturezas simples”. A dedução nada mais é do que uma intuição continuada.

     No pensamento de René Descarte, tem que relacionar a probabilidade do conhecer como ciência (matemática, posto que as certezas matemáticas não possam pelos sentidos e assim, não podem por eles ser falsificada). A Possibilidade do conhecimento que ele desenvolveu apresenta caráter muito metafísico, extremamente subjetivista, ou seja, coloca o conhecimento com as bases firmadas no sujeito e não mais no objeto, como era realizada até então (o sujeito do conhecimento, aliás, é uma descoberta, com isso Kant utilizara para as suas teorias sobre o assunto). Descarte apresenta e desenvolve a possibilidade do conhecimento verdadeiro em suas Meditações Metafísicas (seis, ao todo), assim como em outras obras (Discurso do método, por exemplo), como sendo algo que se chega pelo processo chamado dúvida metódica (também conhecida por dúvida hiperbólica ou cartesiana).

   A metodologia que constitui a dúvida metódica objetiva a investigação do alcance do conhecimento e se a sua fundamentação está na razão ou na empiria. É um processo geométrico que, lida com alto grau de abstração, pois constrói e reconstrói a realidade em toda a sua amplitude. É certo que não se trata apenas de duvidar por duvidar, mas de perfilhar que é inútil àquele que conhece manter aguçado o seu instrumento de análise se ele não fosse capaz de atingir um alvo real; a dúvida quer levar à verdade e é acentuada para que seja questionada a objetividade do conhecimento porque, se não se observe desde o início a utilidade de uma dúvida tão geral, é ela muito grande, “porque nos liberta de todo tipo de preconceito e nos abre um caminho muito fácil para habituar nosso  espírito a abstrair dos sentidos, e enfim, naquilo que nos impossibilita ter qualquer dúvida no que concerne ao que mais tarde descobriremos ser verdadeiras.”  

    A possibilidade do conhecimento destarte inicia-se com a busca pela certeza, partindo daquela dúvida que não é a dos céticos, mas a metódica, dado que está alicerçada em um método científico. O método de Descartes para a investigação acerca do conhecimento consiste nestas etapas, a saber: 1) Evidência: característica mais importante do Método, fala que o sujeito que busca o verdadeiro conhecimento, somente é permitido admitir como verdadeiras as idéias evidentes, fazendo com que aí a evidência racional seja o critério de verdade, a partir, então daquilo que ele chamou de “idéias claras e distintas” ”acredito que já posso determinar como regra geral que todas as coisas que concebemos muito clara e distintamente são verdadeiras” (Descartes, Meditações, 3ª Meditação); 2) Análise: consiste em dividir um objeto do conhecimento em partes simples, porque isto aumenta a chance de ter maior clareza e distinção; 3) Síntese; trata-se reconstituição do objeto (processo inverso a análise), da realidade, como uma racionalização com objeto por inteiro; 4) Revisão: por fim, passadas essas três etapas primeiras, faz-se uma revisão meticulosa desses processos anteriores. O método procura colocar o conhecimento sobre um alicerce seguro e, para esse feito, aquele que queira utilizar-se deverá repudiar os seus juízos, quaisquer que eles sejam, sobre qualquer conjetura cuja verdade possa ser questionada, ainda que unicamente como possibilidade remota. Os critérios para o que pode ser aceito tornam-se paulatinamente mais restrito ao passo que a dúvida metódica se vai desenvolvendo e se começa a questionar, duvidar mesmo aquilo que nos é dado pela memória, pela imaginação, pelos sentidos e até pela própria razão, porque tudo isso pode nos enganar e, aí, há uma nova questão a ser resolvida. O gênio maligno. Neste ponto de esforço de fundamentação da certeza cientifica, obtida pelo Método, Descartes abre a investigação sobre a possível ação do gênio maligno, ou seja:

[...] um certo gênio maligno, não menos astucioso e enganador do que poderoso, que dedicou todo o seu tempo a enganar-me? [...] cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e preparei tão bem meu espírito contra todas as artimanhas desse grande enganador que, por poderoso que seja jamais poderá impor-me alguma coisa.
                                       (Meditações metafísicas, 1973, pp. 96- 97)

    O objetivo desse gênio maligno que Descarte luta tanto quer então nos enganar, de tal modo que nossos sentidos, lembranças, raciocínios, enfim, todas as possibilidades de real conhecimento anteriores nos conduzam sempre ao erro. O desígnio, a partir disso, é encontrar um ponto de certeza que esteja livre da ação do gênio maligno. É então que vem a formulação ilustre “Cogito ergu sum”, (Penso, logo existo), é o cogito cartesiano. Se da máxima incerteza a respeito da própria subjetividade (penso). A dinâmica intrínseca às séries de vocabulários dispostos racionalmente leva a fatal explicitação do que está contido no “Se duvido, penso”. Levo ao cogito. Surge assim depois da dúvida, uma primeira certeza sobre um existente: o eu, que se pensa e, daí, é res cogitans (coisa pensante). Está localizada a certeza na própria consciência do sujeito que conhece, e introduz um certo ar de primeira pessoa na possibilidade do conhecimento. Esta certeza, nesse passo, deve convir para ser modelo e critério para outras certezas que possam vir a ser alcançada. O critério de verdade é a evidência, oferecida pela intuição.

      O instrumento para o verdadeiro conhecimento é então a razão, o pensamento. A dúvida é um aspecto do intelecto e este não pode haver fora de um ser que realmente exista. O sujeito que duvida, pensa e se pensa, está garantida a sua existência. É prova da clareza e da distinção do pensamento do homem; é real. É daí que Descarte demonstra como utilizar o uso correto das faculdades humanas, e construir sobre este alicerce um real conhecimento, sem invocar aqueles teores que não estejam a salvo do gênio maligno, e que por isso, não são capazes de atender aos preceitos que tinha apresentado no Método.

      O gênio maligno, contudo, não poderia continuar a perseguir a capacidade cognoscitiva do homem, mas é preciso haver uma intervenção divina para garantir a existência de quaisquer proposições de conhecimento. É o que cabe a Deus, que em Descartes é “uma substância infinita, eterna, imutável, independente, onisciente, onipotente e pela qual eu próprio e todas as coisas que são (se é verdade que há coisas que existem) foram criados e produzidos” (DESCARTES, 3ª Meditação), é aceitável assegurar que as “idéias claras e distintas” são utilizadas para demonstração e do eu pensante e de Deus, cuja bondade explica a utilização das idéias obtidas como claras e distintas. O eu, res cogitans, sabe que existe e é uma substância e a existência é uma perfeição e esta, obrigatoriamente deve preceder de uma substância perfeita que realmente existe e é Deus, cujas provas de existência o argumento ontológico, entre outras. Deus não pode de modo algum, ser a perfeição, pois não poderia ser Ele um fator de engano. Assim, está eliminada a possibilidade do gênio maligno (Deus não é enganador) e as dúvidas vão aos poucos dissipadas, pois a certeza da existência inclusive do Cogito, não mais depende unicamente do pensamento, porém é assegurada por Deus, em sua bondade e verdade.

    As “idéias claras e distintas”, matemáticas, mostram-se reais, válidas, e vê-se que a ilusão, de fato era o gênio maligno (cuja existência é negada pela presença e ação de Deus, bom). Deus é proposto a partir da consciência do próprio homem. A razão humana não é divina, pois o homem não é Deus, mas é abonada em sua atividade pelo Deus que a criou. O pensamento racional, o eu como coisa pensante (que duvida, concebe, sente, etc.), revelado por meio da dúvida hiperbólica e garantindo por Deus, de modo que o gênio maligno algum poderá enganá-la, isto garante que o conhecimento que nela alicerçar-se, repercutindo a sua clareza e distinção, (únicos pontos do saber novo, que são incanceláveis), estará seguro, mesmo que seja aquele dado, por exemplo, pelos sentidos, como os corpos, uma vez que esse resista ao exame do método e sobre ele se possa construir uma idéia clara e distinta, verdadeira, portanto, ao menos no que se refere as suas propriedades geométricas, ele, distinto do Cogito por ser dotado de extensão, o espírito é separado do corpo (são claros e distintos entre si), ( largura, comprimento e altura, como o exemplo do pedaço de cera), constitui a res extensa, ou substância extensa4.





1  REALLI, Giovani ANTISERI, Dario. História da Filosofia: v 2. São Pulo: Paulus,1990, p. 350.


2 ibid., p. 362.
3 ibid., p. 363.
4 DESCARTES, René. Meditações Metafísicas.Nova Abril Cultural: São Paulo, 1973.

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