domingo, 15 de julho de 2012


O SAGRADO E O PROFANO NA RELIGIÃO


EDRIANO CRUZ 

          Tudo pode ser sagrado. O objeto do sagrado é determinado pela religião, em que o homem nada tem de sagrado ocupando um lugar inferior ao sagrado. Assim, quando existe uma relação de inferioridade, não significa que o que está em lugar superior seja uma coisa sagrada em relação ao que ocupa uma posição inferior. No profano existe uma estratificação, que varia consoante a dignidade e o poder do homem.
A relação existente entre o sagrado e o profano é uma heterogeneidade absoluta. Nada há de comum entre eles, são duas partes completamente opostas uma da outra, embora por outro lado se verifique uma dualidade entre elas; dualidade essa que permite a passagem de um campo para o outro, ou seja, uma passagem do profano para o sagrado, mudança essa que implica uma modificação de ordem moral. Além de existir uma relação de oposição entre o sagrado e o profano, existe também uma relação de rivalidade. Não se pode pertencer aos dois campos em simultâneo, ou se pertence ao sagrado ou ao profano.
A maneira como um sujeito concebe o sagrado parece determinar a posição que ele vai ocupar no mundo e também a sua maneira de hierarquizar suas experiências religiosas e mitológicas. A vinculação com o sagrado estabelecida pelo indivíduo não é necessariamente aquela que ele conscientemente afirma ter através da sua relação com uma dada religião ou mesmo na ausência dela.
O sagrado é o traço essencial dos fenômenos religiosos, trata-se de um sentido que se define pela oposição ao profano. Sagrado e profano falariam de dois mundos contrários, em torno dos quais gravita a vida religiosa. As coisas e seres sagrados protegem o indivíduo e a comunidade das interdições, enquanto os seres e coisas profanas seriam os elementos submetidos às interdições, e só entrariam em contato com os primeiros através de ritos prescritos pela crença que sustenta essa divisão do mundo. Há uma diferença em relação do sentimento religioso com o do sentimento do sagrado. No sentimento religioso encontramos, freqüentemente, um sentimento de reverência, de solenidade diante do Outro Absoluto. Na vivência do sagrado, o indivíduo pressente a Presença do Divino, e vive uma transformação em seu ser.
            Essas questões são essenciais, pois a perda do sentido de sacralidade leva o homem à perda de aspectos fundamentais ao devir de seu ser. Trata-se de uma situação que, em seu extremo, pode levar a coisificação da pessoa humana, à perda da criatividade primária. O processo de cura, na situação clínica, busca o estabelecimento do sentido do sagrado mediante a recuperação da capacidade criativa. A partir dela, o indivíduo transfigura o mundo pela realidade pessoal e subjetiva.

 O QUE É RELIGIÃO?

A palavra religião provém do verbo latino religare (ligar, juntar, unir), o que acentua uma das vertentes fundamentais da religião: a união entre o homem e o divino. A religião pressupõe a existência de duas dimensões do real: a profana e a sagrada.
A primeira dimensão corresponde ao mundo em que vivemos ( terreno, material), e que é encarada como carecendo de sentido, de explicação. Porque é que existe o mundo e não o nada? Esta é umas das perguntas que permanece sem resposta; A segunda assenta na crença que existe um outro mundo povoado de seres imateriais que possuem a explicação que o nosso mundo e as nossas existências carecem. É por esta razão que estes seres tendem a ser considerados perfeitos e superiores aos humanos.
 Cada religião não é apenas uma comunidade de crentes que se reúnem para prestar o culto às mesmas divindades, mas é, sobretudo um conjunto de "conhecimentos" que são assumidos pelos seus fiéis como verdadeiros, e que lhes permitem, por exemplo, saber qual o sentido do mundo, como se processa a relação entre o homem e o sagrado, a forma como este se manifesta no mundo e como podemos interpretar os seus sinais. A religião tem pois o seu fundamento na noção de sagrado, isto é, naquilo que é de uma natureza sobrenatural, misteriosa que inspira temor e respeito.
Toda religião tem representações que exprimem a natureza das coisas sagradas e profanas, bem como a relação entre elas. Os ritos são regras de como o homem se deverá comportar em relação ao sagrado.Com isso ela torna-se um sistema de crenças, organizado e coeso. Verifica-se, assim, que a religião não assenta apenas numa idéia base, mas num grupo homogêneo, onde á volta dele giram grupos de crenças; na religião encontra-se sempre uma multiplicidade de coisas sagradas. Com esta multiplicidade constata-se que não existe apenas um só culto, mas sim vários cultos, sendo estes cultos autônomos.
Mas nem sempre esses cultos (fenômenos religiosos) aparecem ligados a uma religião, por vezes estes fenômenos são autônomos, mas essa autonomia origina uma desintegração desse fenômeno. Nestes casos não existe um culto, nos fenômenos autônomos verifica-se uma cerimônia religiosa. Além da dualidade existente entre o sagrado e o profano, há que referir dois conceitos bem distintos: a magia e a religião: Ambas são constituídas por crenças e ritos, possuem mitos e dogmas (verdade de fé). Os dois têm cerimônias, sacrifícios, orações, cantos e danças; por vezes até mesmo os seres religiosos invocados são os mesmos. Apesar de existir tanta coisa em comum é impossível juntar estes dois conceitos. A religião rejeita a magia, e a magia opõe-se á religião.

      CRENÇAS RELIGIOSAS

Todas as religiões apresentam-se como um sistema de crenças e ritos. As crenças são representações sobre o sagrado elaborado de forma mais ou menos complexa, podendo ou não ser escritas. Estas crenças definem uma concepção particular do sagrado, os seus poderes e virtudes.
Cada religião privilegia certas formas de contato com o sagrado em detrimento de outras. Apresenta também uma dada explicação para o sentido do mundo e a existência do próprio homem (vida, morte, etc), em geral codificada sobre a forma de um conjunto de crenças. Entre as crenças associadas ao aparecimento de manifestações religiosas podemos destacar as seguintes:
A crença na existência de forças superiores ao Homem, cujo poder este estaria submetido. Estes seres que manifestam a sua vontade e desígnios no mundo em que vivemos, são assumidos como absolutos, incondicionados, divinos, transcendentes, não compostos, oniscientes, etc. Sozinhos ou em grupo constituem uma outra dimensão da realidade, sendo freqüentemente considerada como a única que é verdadeira. O mundo em que vivemos é encarado como uma mera ilusão, sonho.
A crença numa ordem e justiça sobre-humana. Esta crença permite ao Homem suportar não apenas o sofrimento e as injustiças que experimenta no seu quotidiano, mas também esperar uma espécie de recompensa após a morte do seu corpo.

RITOS RELIGIOSOS

Os ritos são um conjunto de práticas simbólicas através das quais o Homem entra em contato com o sagrado, transcendendo a sua condição profana. Estes ritos devem ser executados com grande rigor, caso contrário poderão advir funestas conseqüências.
Os ritos evocam quase sempre acontecimentos sobrenaturais ligados à origem do mundo ou da própria religião. A sua repetição é vivida como uma atualização desses acontecimentos memoráveis. Repetem-se os mesmos gestos ou pronunciam-se as mesmas palavras que em tempos imemoriais uma personagem divina realizou.
Os rituais são testemunhos públicos das crenças de uma dada comunidade, que ao praticá-los não apenas reforça a sua unidade, também os sentimentos de pertença dos seus membros É em torno destas crenças e ritos que se estruturam as diversas comunidades de fiéis, acabando por diferenciá-las entre si em termos culturais e sociais.

RELIGIÃO E SOCIEDADE

As principais religiões estão profundamente ligadas a sociedades onde estão implantadas, os seus percursos históricos confundem-se. Em algumas sociedades, a religião assume tais proporções que o Estado se tornou a expressão direta da própria religião dominante, como acontece no Irã. Os chefes religiosos são também chefes políticos (Estado teocrático). Apesar da crescente dessacralização, a influência social da religião continua sendo enorme. Os acontecimentos religiosos são freqüentemente assumidos como acontecimentos sociais. . Dois exemplos: - Ao longo do ano podemos observar como os momentos de descanso ou de festa estão ligados a dias que assinalam acontecimentos de natureza religiosa (Domingo, Natal, Carnaval, Páscoa e outros dias feriados). - Os momentos marcantes da vida das pessoas, como o nascimento, o batismo, o casamento ou a morte, continuam sendo assinalados por cerimônias religiosas. A moral é outro aspecto revelador da influência social da religião, nomeadamente como um poderoso meio de controle social através da difusão das suas normas de conduta moral.

RELIGIOSIDADE POPULAR

As grandes religiões são quase sempre percorridas por duas correntes religiosas: a "oficial" e a "popular". A "oficial está ligada à elite dos sacerdotes. Caracteriza-se por uma elevada racionalização das crenças e ritos religiosos, transformando-as num corpo doutrinal muito intelectualizado, depurado de outras tradições religiosas. Apresenta-se quase sempre numa linguagem abstrata e universal. O divino apresenta-se enquadrado numa estrutura teórica muito complexa. O comum dos crentes raramente compreende ou sente a religião desta forma. A corrente” popular “está ligada à forma como a maioria das pessoas encara a religião: a emoção sobrepõe-se à razão. O vivido ao pensado. O desvio da norma oficial é por vezes total. Caracteriza-se por uma visão espontânea, emotiva, sincrética e concreta da religião. Esta religiosidade popular é herdeira de tradições ancestrais,  onde encontra-se crenças e ritos de antigas religiões já extintas.

..RELIGIÃO, CIÊNCIA E ATEÍSMO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO.

As sociedades ocidentais sofreram nos últimos dois séculos, um enorme processo de intensa secularização. Entre as causas apontadas para explicar esta erosão do sagrado, apontam-se as seguintes:
Um sistema econômico (capitalismo) que privilegia os valores materiais em detrimento dos valores espirituais..
A ciência que progressivamente ocupou o lugar da religião como fonte de verdade. O cientismo transformou-se numa nova religião que se assume como capaz responder a todas as questões.
A crítica de filósofos como K. Marx, F. Nietzsche, S. Freud ou J. -P. Sartre que minaram os fundamentos da própria religião, em particular do Cristianismo, mostrando que a mesma não passa de uma ilusão. Muitos regimes políticos de matriz marxista-leninista difundiram uma visão materialista da realidade e combateram ativamente a religião, identificada com o obscurantismo. Devido a estas e outras causas, as religiões tradicionais, como o cristianismo, sofreram diminuição dos seus crentes e viram também diminuir a sua influência na sociedade.
Apesar disto o fenômeno religioso não desapareceu, defende-se até que o mesmo terá recrudescido nos últimos tempos. O homem moderno, mesmo com as avançadas tecnologias, busca nas religiões algo que dê sentido a sua existência.
 
COMENTÁRIO PESSOAL
A religião pode ser definida como um conjunto de crenças e práticas (ritos), relativos a certos sentimentos manifestados perante o divino por uma comunidade de fiéis, que agem segundo uma lei divina para poderem ser salvos, libertos ou atingirem a perfeição. Cada religião defende um conjunto de valores cuja validade pretende ser universal. As manifestações religiosas são tão antigas e está de tal modo difundidas que nos é difícil imaginar o Homem sem Religião.
Os homens sempre esperam das religiões respostas para os enigmas com que se deparam: O que é homem? Qual o sentido da sua existência? Qual a origem e o fim do sofrimento? Como podemos atingir a felicidade? O que é a morte? Existe uma justiça sobre-humana que castigue os que fizeram outros sofrer e recompense as suas vítimas? Não encontrando respostas na ciência para estas questões, buscam-nas com freqüência na religião. Mas o sentimento religioso emerge também a partir da própria consciência que o Homem é um ser finito, limitado, imperfeito, que se descobre num mundo que não criou e cujo sentido desconhece.
A experiência religiosa está igualmente associada a vivências particulares, como os fenômenos sobrenaturais, que despertam os homens para outras dimensões da realidade. Cada experiência religiosa apresenta-se como uma ligação profunda e envolvente do homem com o sagrado, na qual se anula na sua individualidade. Sempre que o homem entra em contato com o sagrado (o divino, o transcendente) estamos perante um tipo particular de fenomenologia religiosa.
Todas as religiões assentam no pressuposto de que existem duas dimensões do real: a sagrada e a profana. A sagrada define-se por oposição à profana, e corresponde a uma realidade que é assumida como perfeita, divina e dotada de poderes superiores aos humanos, suscitando no homem respeito, medo e reverência. A profana identifica-se com o mundo em que vivemos, sendo apontada como banal e vista inferior em relação à sagrada (Profano, do latim pro (diante de) e fanum (espaço sagrado). Em cada religião o transcendente expressa-se sob diversas formas e assume diversas figuras: Deus, deuses, anjos, espíritos, etc.
É necessário chamar atenção que o que chamamos de “religião” tem se manifestado, no decorrer da história e em todas as partes do mundo, em diversificações e diferenças múltiplas. São vários os significados, definições e funções a que se tem atribuído a este termo, que vai desde crenças dogmáticas a experiências místicas; de mitologia a fundamentalismo; de idéias mantidas com firmeza a fé apaixonada.
Ao longo da história, sempre se tem encontrado objetos ou seres considerados sagrados ao lado daqueles considerados profanos, uma vez que, o que converte um objeto em sagrado é a revelação ou incorporação deste de algo distinto dele mesmo; é a nova dimensão de sacralidade que adquire no marco de qualquer religião. A dialética da sacralidade de um objeto supõe uma separação clara deste em relação aos demais objetos que lhe rodeiam, em razão de uma singularização mais ou menos manifestada.
Desta maneira, quando algo se manifesta sagrado passa a ser visto “completamente diferente” de uma realidade que não pertence ao “nosso mundo”, materializado em objetos que formam parte integrante do nosso mundo natural, profano, como por exemplo, uma pedra sagrada ou uma árvore sagrada. Estas, em verdade, não são sagradas em si mesmas; sua sacralização se define pelo fato de conter e ao mesmo tempo “mostrar” algo que já não se constitui apenas no que lhe caracteriza essencialmente como pedra ou árvore, mas pela sacralidade  que lhes foi incorporada. Ao manifestar o sagrado, um objeto qualquer se converte em algo diferente, sem, contudo deixar de ser ele mesmo pelo fato de continuar participando do meio cósmico circundante. Uma pedra sagrada segue sendo uma pedra: Nada a distingue das demais a não ser a relação que é estabelecida com àquela pedra. A pedra de Caaba nunca deixará de ser  uma pedra.
Na verdade, para um homem religioso, o que caracteriza a que um objeto ou algo passe a pertencer à esfera do sagrado é o fato de haver sido criado por Deus. Assim, tudo que os mitos referem a atividade criadora, pertence a esfera do sagrado, e, por conseguinte, participa do Ser. Pelo contrário, tudo o que os homens fazem por sua própria iniciativa, e que não tem um referencial mítico, pertence a esfera do profano e é portanto uma atividade vã e ilusória, na verdade irreal. Podemos  dizer que, quanto mais religioso é o homem, maior é o acervo de modelos exemplares que dispõe para referenciar seus modos de conduta e suas ações.
Todo ser humano tem a necessidade de acreditar em algo que esteja acima da sua limitação. E é essa crença que lhe servirá de base para as suas aspirações e que direcionará a sua caminhada em direção a felicidade. Nesta busca, ele faz a distinção entre o Sagrado e o profano de acordo com a sua crença que ele vive em sua religião. Nesta experiência de busca, o homem descobre que existe um Deus que foi e continua sendo o protagonista da sua existência, da sua caminhada e da sua história. E ao buscar estar mais perto de Deus, ele descobre a felicidade, pois Deus é  a eterna felicidade e a realização plena do ser humano.


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