Comentário: A
Filosofia de Platão e o debate bioético sobre o fim da vida: interseções no
campo da saúde pública
CENTRO
UNIVERSITÁRIO SÃO CAMILO
Edriano
de Santana da Cruz
219143
Pode-se
dizer que a morte ainda é a maior preocupação do homem ocidental. A luta do ser
pensante para o prolongamento da vida vem se entendendo a cada dia, de todas as
formas. Contudo a filosofia se debruça em estudos que coloca a morte como o
último fim do homem, porém dando a este fenômeno, um novo significado. Michel
de Montaigne, por exemplo, afirma que “filosofar é a prender a morrer” (Artigo
Article, p. 855). Outro filósofo que também dá um sentido à morte é Martin
Heiddegger, quando vê “o homem mortal aquele que é capaz de olhar em direção ao
divino” (Idem, p. 855). Estes e outros filósofos veem a morte como aquela que
leva o homem à sua finitude.
Há
ainda, neste contexto, filósofos que contrapõem o pensamento de Montaigne e
Heiddegger. Spinosa vê a filosofia como “impossibilitada” a pensar a questão do
fim do homem. Hegel em seu trabalho, “fenomenologia do espírito”, também
defende a ideia de que há uma superação da morte, negando, dessa forma, a
finitude humana como uma questão primeira.
Entre os estudos às questões do homem, de sua ação e relação com a
natureza e à questão da morte, entra em discussão, também, a questão da ética,
que por sua vez embarga todo o pensamento filosófico sobre a vida do homem na
sua totalidade.
Percebendo
na história da filosofia, desde os primeiros filósofos, a ética tem sido
discutida. Aristóteles, na “ética de
Nicômaco” já pensara uma ética que levasse o homem a ter melhor qualidade de
vida.
Contudo,
a partir das discussões filosóficas, nos meados do século XX, com a “crise” pós-guerra,
e quando se fala em crise deve-se levar em conta a razão e a espiritualidade -
sustentada pela ideia existencialista de Jean Paul Sartre, e com bases no
niilismo, que tem suas raízes no pensamento Nietzschiano, e com os avanços
tecnológicos no campo da medicina, no qual surgem máquinas que, de certa forma,
prolonga a vida humana, novas questões são levantadas: como, por exemplo, o que
é a morte? Com isso, surge à necessidade de uma nova ideia que busque responder
às questões éticas no contexto da medicina, a Bioética.
Pode-se
dizer que a bioética surgiu como uma necessidade de pensar, mais a fundo, as
relações do homem com a natureza. Segundo Van Renssalaer Potter, oncologista
que alcunhou o termo bioética, em 1970, o homem é considerado “um câncer para a
natureza” (Ibidem, p. 856). Este “ser pensante”, age com o fim último de
destruição ao meio em que vive, e por isso a necessidade de uma reflexão acerca
do saber no sentido de a ciência agir por questão de “sobrevivência”. Neste
contexto, a bioética se apresenta como uma “nova ética” capaz de lutar pela preservação
da espécie humana com melhor qualidade de vida. “Uma ética aplicada aos
problemas levantados pelas ciências da saúde e da vida” (Ibidem, p. 856).
Para
se refletir a bioética propriamente dita, no campo filosófico, é necessário uma
metodologia própria, ou seja, que haja ferramentas que justifique de forma
lógica, a força da argumentação. Para isso é preciso partir da análise de dados
tradicionais. Por outro lado, se faz necessário considerar outros argumentos
que não seja filosófico, para, a partir desses, buscar uma nova forma de
estudar e entender em que parte se dá a bioética ou a própria ciência em si.
Para esse fim, é preciso considerar a “filosofia moral”, que por sua vez,
coloca a própria existência como ponto principal da questão.
O
ponto principal em que a filosofia busca, por assim dizer, por em debate, no
sentido do fim da vida humana, são as questões da “eutanásia” e a “distanásia”.
Portanto, a questão em pauta traz uma visão ampla e séria a respeito da morte.
No
Brasil, onde as pessoas estão envelhecendo, e a expectativa de vida esta cada
vez maior, há um problema que na maioria das vezes parece passar despercebida:
são pessoas com doenças crônicas, ou que mesmo em estado término de saúde, prolongam
a vida por meio de aparelhos, que por sua vez, dão maiores gastos ao setor
público. É o “auto custo da vida” (Ibidem, p. 857).
Outras
questões também colocadas em pauta são a distanásia e o suicídio assistido. No
conceito em relação a eutanásia se encontra o suicídio assistido que é
entendido como fim de um sofrimento, ou seja, quando uma pessoa que está em
estado grave de doença, estando incapaz de “tornar fato sua disposição de
morrer” busca o auxilio de outra pessoa. O paciente, neste caso, está
totalmente consciente em sua opção em agilizar seu processo de morte. Há também
outro caso de eutanásia, no qual o paciente está totalmente inconsciente, não
havendo possibilidade de escolha entre prolongamento de sua vida. Neste caso
são desligados os aparelhos ocasionando, dessa maneira a morte. Neste contexto,
pode-se diferenciar diversos tipos de eutanásia:
A
eutanásia ativa, que por meio de uma injeção letal o paciente morre sem
sofrimentos; a eutanásia passiva, quando o paciente morre por não ter recebido
atendimento médico o suficiente para ao menos prolongar a vida; a eutanásia de
duplo efeito, quando a morte do paciente é acelerada, não por efeito letal, mas
por medicamentos fortes, como morfina. Tem-se também a eutanásia voluntária,
quando se dá por vontade do paciente, esta é considerada, morte assistida; a
eutanásia involuntária, quando a morte não é da vontade do paciente e por fim a
eutanásia não voluntária, quando a morte é consumada sem o conhecimento da
vontade do paciente.
Todos
estes conceitos trazem grandes problemas na hora de discutir acerca dos
assuntos. Primeiro porque a distanásia ainda é um “tabu” entre os profissionais
na área da saúde, mesmo que a prática em utis seja das mais comuns. Segundo
porque há um equivoco em relação aos conceitos de eutanásia e ortotanásia. Ou
seja, a ortotanásia pressupõe que seja esperar a morte em seu tempo
determinado, sem qualquer tipo de tratamento, que seria, neste caso, a
distanásia e sem “abreviação” no processo de morte, a eutanásia. A UTI, neste
sentido, é vista como “catedral do sofrimento humano”.
Platão
já discutira a filosofia como “a medicina da alma”. Neste contexto, o homem
sadio é aquele que coopera com a questão da polis, como o homem justo. Da mesma
forma que o corpo necessita de boa alimentação e cuidados para ter saúde a alma
(psiké) necessita de diálogo, conhecimento para ter saúde. Neste contexto, o
homem saudável é aquele que interage com a sociedade contribuindo, dessa
maneira para que não somente seu corpo esteja em perfeita harmonia com a alma e
com o Estado, ou, por assim dizer, a sociedade. Por isso é que Platão afirma
que não pode haver sentido em o homem viver doente, buscando a cura, uma vez
que não se coloca como aquele que pode contribuir com a sociedade e a política.
Há neste contexto uma preocupação política da parte de Platão, ou seja, que o
homem se preocupe com a justiça, o bem próprio, de sua família e o bem da
polis.
Portanto,
nota-se que a preocupação dos gregos antigos eram as seguinte questões: em que
o homem cidadão pode contribuir para o seu próprio bem, o bem dos seus entes
queridos e da própria sociedade a qual se está inserido? Uma pessoa que não
contribui para a sociedade, no caso de um enfermo merece viver? “Uma vida que
não vale a penas ser vivida, não deve ser protelada por meio de uma luta
inclemente contra a morte” (Ibidem, p. 861).
Bibliografia: A Filosofia de Platão e o debate bioético sobre o fim da vida: interseções no campo da saúde pública
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