domingo, 15 de julho de 2012


A RELIGIÃO COMO O SENTIDO DA EXISTENCIA HUMANA

TRABALHO DE FILOSOFIA DA RELIGIÃO

EDRIANO DE SANTANA DA CRUZ – 219143


O Homem, desde que se descobriu como um ser de relações, mesmo inconsciente, foi cercado por crenças, rituais e deuses. A religião sempre foi um fato na vida do ser humano. Se perceber ao longo da história, desde a sua morada nas cavernas até a contemporaneidade o fenômeno religioso está inserido no homem, principalmente daqueles sem voz nem vez que encontram em suas crenças uma saída, uma esperança. Houve um tempo, o qual a história denomina Idade média, em que Deus era o centro da história do homem. Aqueles que governavam, em nome do Deus de Abraão, Isaac e Jacó, designavam o destino, a vida e até mesmo a morte daqueles que não professavam a mesma fé no “Deus-todo-Poderoso”.

Com o surgimento da ciência, aos poucos a religião foi perdendo seu espaço em locais as quais ela era dominadora, mas sem perder seu poder. Aos poucos a ciência foi ganhando seu espaço e o que antes era visto como algo demoníaco passou a ser mais uma fonte de verdades revelada, não por deuses, mas pela razão, estudos e pesquisas acerca do homem e sua natureza. Pode-se então perguntar: a religião é o que dá sentido a vida humana? É a religião que faz o homem ou o homem que faz a religião? Segundo Rubem Alves, no livro “o que é religião”? a religião nasce quando o homem não encontra respostas às questões  cotidianas, ou diante da dor e dos acontecimentos. A religião é o último recurso que o ser pensante encontra como refúgio às suas desgraças.

Para Levinas, filósofo do século XX, Deus é o nosso desejo do infinito; desejo da sabedoria; nossa subjetividade em busca da perfeição do eu. A discussão filosófica entre fé e ciência está em definir a religião como fenômeno interno e parte da experiência, enquanto a ciência é externa, embora para Rubem Alves a ciência não necessariamente precisa ter experiências com objetos de suas pesquisas para conhecê-las.



O homem por ser o único animal racional, diferentemente dos outros animais que agem por instinto, pela sua sobrevivência, é o único ser capaz de fazer a sua própria história. “O animal é seu corpo”, ao contrário do homem que “tem seu corpo”. Ou seja, este é capaz de criar, inventar, produzir, não pelo instinto animal, mas pela sua razão. Não obstante, a razão que inventa meios de vida é a mesma razão que inventa meios de morte. Este homem, ser racional, é também o único capaz de escolher, e, por ter esta capacidade de escolha e criação ele cria a cultura. O ser pensante constrói seus mundos a partir de uma cultura. A cultura se dá pela educação. Cultura e religião são as mesmas coisas, ambas são frutos de desejos, ou seja, a religião nasce do desejo do homem pelo infinito, Deus. Nasce então a religião, algo que cerca o homem de todos os lados, afirma Rubem Alves.

A cultura não se manifesta por si só. Ela necessita de reforço, de símbolos, rituais, e, principalmente de que o homem divinize as coisas para a manifestação do sagrado. Rubem Alves usa de exemplos, como o pão e o vinho, para explicar este fenômeno. No mundo real, concreto vemos substâncias da natureza, mas ao tornar-se sagrado, se transformam, aos olhos da fé, a presença real do divino.

A religião tem o poder de transformar o que antes era vazio e sem sentido em algo significativo. Tal poder é dado a homens que se julgam “ordenados” pelo divino como intermediário entre Este e os homens. Na religião nasce a utopia, desejo, esperança e amor. Ela serve para unificar os homens. Segundo Rubem Alves a religião é imaginação. Ser imaginário não significa ser algo falso. Da imaginação, nasce o desejo e a partir deste desejo manifesta o fenômeno religioso. Se o homem na busca pelo infinito encontra a imagem e semelhança que está em Deus, ele vive na busca incansável do infinito sentido de sua existência. A imaginação cria os “símbolos da ausência”. Os símbolos dão aos homens o sentido de viver (Durkhein). Durkhein acreditava que a religião podia resolver os problemas sociais da sociedade. Um paraíso terrestre.

Karl Marx, contrapondo a um grupo de filósofos que dizia que a religião era a culpada pelas desgraças humana, afirma que isso não é verdade. Pois para ele não é a religião que faz o homem, mas é o homem que faz a religião, fim de nela encontrar um sentido de uma vida sem sentido. Para Marx a religião surge a partir do sofrimento e da alienação em que vive o homem.Se acabasse com a alienação do trabalho acabaria também a religião. Diante da alienação, do sofrimento real que atormenta o homem, que o faz viver sem esperança, a única fonte de esperança e de força para viver neste mundo “desacralizado”, capitalista, é Deus. O homem, não encontrando força diante da dor e das situações que o oprime recorre a Deus acreditando em uma felicidade futura. Por isso é que o Marx chama a religião de “ópio do povo” – ilusória – por acreditar e esperar uma felicidade que virá depois.

Dizer que a religião é ópio do povo, para Rubem Alves é algo sem sentido, pois a religião (judaico – cristã) surge por meio dos profetas, e esses não tinham intenção de alienar os homens, muito menos de se aliar aos poderosos fortalecendo o grupo de opressores. O verdadeiro profeta é aquele que anuncia a justiça e denuncia as injustiças. Não olhando as situações de fora, mas de dentro a realidade humana, vendo no presente, onde esta realmente a figura do sagrado, pois para profeta o sagrado consiste em viver a justiça e a misericórdia. Segundo Rubens Alves o profeta é a voz do miserável do sem voz e sem vez.

A igreja que um dia teve como base o Deus dos oprimidos tornou-se esquecida, expressando a religião dos fortes, dos vencedores. A instituição tornou-se meio de dominação e exploração. A religião dos profetas pode ser entendida como utopia ou ilusão, mas ela parte da imaginação para determinar a política.

 Para Levinas Deus não pode ser provado pela ciência ou qualquer outro meio, mas Ele tem que ser testemunhado, pois o Deus judaico - cristão é revelado no meio do povo. Na religião de oprimidos e opressores surge os verdadeiros profetas que usam o nome de Deus, não oprimir, mas para dar ao povo um significado em sua vida e para dar o seu próprio sangue pelo reino de Deus. Não um reino distante, mas que se inicie aqui na terra. Profetas, “testemunhos da significação política da  religião profética: expressão das dores e das esperanças dos que não tem poder. Ópio do povo? Pode ser, mas não aqui. Em meio a mártires  e profetas Deus é o protesto e o poder dos oprimidos”.

Pode-se perguntar, segundo o Ruben Alves, quantos cientistas deram a vida pela ciência e quanto profeta, sacerdote, pastores e mártires deram a vida realmente, não apenas pela religião, mas pelo verdadeiro reino de Deus, o reino da justiça, do amor da misericórdia enfim da vida?   


Bibliografia: ALVES, Rubens: O que é religião?; São Paulo: Edições Loyola, 2002

Nenhum comentário:

Postar um comentário